Escravidão branca

Home sweet home

Home sweet home

Eu sabia que não ia ser tão simples essa mudança radical, mas, sinceramente, não imaginava que iria me sentir tão confusa numa sociedade onde a regra geral é a simplicidade. Francamente. Nestes primeiros dias (hoje faz uma semana que aterrissamos) tenho chorado, de frustração, cansaço e tensão, quase todo dia.

O cansaço e a tensão são por motivos óbvios, mas a frustração, preciso confessar, é por ser tão metida, por não ter nascido sabida, como se diz em Minas, nossa, como está ficando chique ser mineira! Vamos para o Planalto ao que tudo indica, gente boa! Só fica faltando eu adotar a proverbial discrição dos meus patrícios, da qual como vocês sabem não compartilho de jeito maneira.

Mal comparando, claro, porque a mudança é muito mais radical em todos os sentidos, apesar de não incluir também uma mudança de marido, lembra os tempos de Brasília, em que eu sempre me perdia e nada entendia, porque todas as ruas e quadras de lá são numeradas em sequência como todo mundo sabe. Acho que viver emaranhada é uma espécie de segunda natureza, e para modificá-la, ou me livrar dela, vou precisar de uma daquelas fantasiosas “substituições de DNA” em que eu acreditava nos meus tempos de xamã, cheguei até a sonhar que havia passado por uma delas. Doideira.

O excesso de lei & ordem, é claro, leva a absurdos, mas nem de longe àqueles absurdos a que estamos acostumados, nós, brasileiros, pela radical ausência de ordem & lei, sabem como é. No hotel em que nos hospedamos, por exemplo, me revoltei, imaginem que saímos de manhã para fazer um quaquilhão de coisas, e quando voltamos, cansados, à noite, tinham nos tirado o quarto, e tirado do quarto todas as nossas coisas, colocando tudo em sacos plásticos, até os restos de comida da geladeira e a roupa suja. Expulsos!

Fiquei uma fera. A questão é que Alan tinha pagado três dias adiantado através de um site terceirizado, e como eles não tinham nosso cartão de crédito, foram logo concluindo que a gente daria o “bote” e nos botaram para fora. E não foi só isso. No dia seguinte, já de posse do cartão, mesmo assim bloquearam nossa chave, digo, cartão de acesso, desta vez porque não tínhamos assinado o recibo de autorização! Caramba!

Outra coisa interessante é que cortei meu “dedo de escritora”, aquele com o qual cato milho diariamente para sobreviver e divertir vocês, na maçaneta do carro alugado, foi uma sangueira! Fotografei, e estou doidinha para processar, principalmente porque no Brasil, vocês se lembram, sempre estive do lado errado da lei. Lei? Que lei? Vamos ver no que vai dar, adoraria experimentar.

Vou logo contando os podres que é pra não despertar inveja logo de cara, vocês me entendem. Quero que vocês continuem pensando que o Brasil é o melhor lugar do mundo para se viver, e se não é, poderia se tornar, principalmente depois que toda essa merda em que nos mergulharam — a contragosto, é claro, a não ser para os que se cagaram, ops, desculpem — for despachada esgoto abaixo que é o seu lugar. Tomara.

Quanto à bela Greenville, já ficou óbvio que “atiramos no que vimos (pelo Google Maps) e acertamos no que não vimos”. Ficamos sabendo, por exemplo, numa conversa com o gentilíssimo, riquíssimo e educadíssimo sujeito que nos vendeu o lote de Paris Mountain, que há muitos anos atrás uma turma de poderosos, respaldados por uma esperta equipe de advogados, adquiriu uma enorme parcela da floresta que nos cerca e mais, não apenas um, mas dois mananciais perenes de água, o que garante ad eternum à cidade a qualidade ecológica de vida, além da melhor água dos Estados Unidos, que tal isso como “esperteza”? Existe até um livro sobre o assunto, The Blue Wall, que farei questão de ler, claro, assim que a poeira assentar. Acho que vou comprar na superbacana Barnes & Noble do lado aqui de casa, hahaha, é, pois é, as coisas mudam quando a gente é local, lembram minha paixão incondicional pela Amazon? Em tempo: o livro não existe em versão ebook e ainda adoro o meu Kindle, tá?

Não se trata apenas de primeiro mundo, pois, mas de uma escolha de primeira no primeiro mundo, entenderam? Alguns chamam de “destino”. Outros de “sabedoria”, “intuição”, sei lá. O fato é que aqui viemos parar, nesse “fim de primeiro mundo” espetacular. E para nossa sorte, máxima sorte, acabo de descobrir que o vizinho do lado é um velhinho simpático e…  surdo, o que ainda  por cima nos deixa à vontade para brigar como sempre brigamos. Eita!

E por falar em escolhas de primeiro mundo, francamente, é de enlouquecer. Eu, pelo menos, que me arvoro de “não consumista”, tenho ficado maluca, e deixado o Alan doido (isso, porque estou sendo boazinha com ele, na crônica, digo, já já explico essa coisa de escravidão branca, tenham um pouquinho de paciência). Já me aconteceu três vezes em três dias, enquanto eu tentava fazer escolhas sensatas para equipar uma casa a partir do nada quase absoluto com que emigramos do Brasil (ui, será que já estou sendo vigiada pela imigração?). Só trouxe um ex-voto de Antonio Maia, uma escultura de GTO, dois kilins e as flûtes de cristal da Boêmia que herdei de mamãe — tudo que mantive da minha  vida pregressa. As taças eram 11 (a 12ª  foi quebrada num réveillon na Timóteo da Costa, pelo saudoso Maurício Sette, deixando-o muito sem graça), mas por um motivo misterioso aqui só chegaram oito, tá bem, oito tá de bom tamanho para manter a tradição dos falsos Cohens, não é mesmo? Dá muito bem para um brinde em família no futuro, com nossos dois filhos e suas próprias famílias, porque até os netos que ainda nem foram concebidos poderem brindar conosco… hum, melhor esquecer.

Voltando às escolhas, você entra naquelas lojas gigantescas — em ordem de visita e nível decrescente de preço, misturando supermercado e superconsumo: Bed, Bath & Beyond, Publix e Walmart — e fica completamente perdido com a variedade de tudo. Eu, pelo menos, fico. Mais sobre consumismo mais tarde, mas já vou adiantando, sociedade de consumo deve ser isso! Estonteante, mais ainda com aporrinhação de marido!

Não sei se como dizem é tudo barato por aqui, ainda não consegui concluir, pois nesses primeiros dias tenho a impressão de estar gastando toneladas de dinheiro, talvez pela disparidade (e instabilidade) do nosso câmbio. Mas sei que as alvas toalhas felpudas e os lençóis de 300 mil fios custam pelo menos 10 vezes mais no Brasil, onde eu jamais os compraria. E que pelo preço de um Gol 1000, Gol zero, tudo bem, aqui se compra um Jaguar branco hidramático com interior todo de couro bege e madeira envernizada — 2005, tudo bem, mas é um Jaguar, caramba! Não, ainda não compramos, mas Alan confessou que ao vê-lo teve uma ereção (oba), vale ou não vale o Jaguar? Para o nosso VW preto velhinho (2008) ele só tinha reclamação.

Outra coisa que não se iguala é a qualidade das frutas, já tinha um bocado de anos que eu não comia uvas verdes tão gostosas. E o antigo proprietário do nosso “morceau de paradis” já nos alertou para o fato de que blueberries dão muito bem no nosso terreno, ok, blueberries it is.

Já o que me deixa molhadinha, hahaha, são os saquinhos ziploc com que embalam os frios a granel no supermercado, cada qual com sua tara, não é mesmo? Custo a colocá-los no lixo, afinal de contas, na compra da semana que vem tem tudo (de) novo.

Devo ainda ressaltar nessa primeira “crônica de Greenville” a gentileza geral das pessoas e, mais do que tudo, a pontualidade das entregas, todas confirmadas por celular e com a opção de cancelar. Tudo funciona! Inclusive a prometida internet rápida! Embora a falta de crédito na praça, digo, histórico de crédito, atrapalhe um pouco os contratos —  tenho tido alguns depósitos para enfrentar, como no aluguel do apartamento, por exemplo, sem grana pra bancar, nem pensar. Mas eu entendo, a América é para os americanos, não para o nosso intrometido bico estrangeiro.

Agora, falando sério, agora que está de volta à sua terra, Alan anda intolerante, terrível,  ainda mais ansioso. Não vem tendo a menor paciência comigo, é um tal de “aqui na América pra lá, aqui na América pra cá”, de me criticar o dia inteiro, dizendo que sou muito “devagar”, embora, claro, todas as decisões devam ser tomadas por mim, a ignorante brasileira, porque ele continua a “procrastin8”[1] tudo (vi essa num anúncio de remédio, coisa que, aliás, também abunda por aqui, todos com efeitos colaterais inacreditáveis… enfatizados no mesmo comercial que propaga as vantagens, pode?). Não me deixa comprar as coisas que quero e nem usar a lava-louça do novo apartamento, vocês se lembram, aquela que ele me prometeu que a gente teria quando estivesse no primeiro mundo.

E, se no Brasil, onde dependia de mim para tudo, já tendia a ser autoritário e abusivo, aqui ele me transformou de vez numa escrava branca, e eu me submeto, sabia que precisaria pagar o preço para usufruir pelo resto da vida de tanta variedade de mercadorias, tanto físicas quanto mentais. Afinal de contas, como vocês sabem, só o aturei durante dez anos para que na hora H pudesse me mandar, isso é que é plano em longo prazo, não é mesmo? Além do mais, é preciso certa “estratégia” para escapar a esse abuso de poder, se é que vocês me entendem, e estou penando para planejá-la sem falhar, mas hei de chegar lá, nem que seja ao volante de um Jaguar esporte branco.

Antes de terminar, não posso deixar de expressar a minha satisfação por ter feito a minha parte na reviravolta de Aécio, melhor enfocar só o que há de bom, porque se for para comentar todo o esquema perverso que parece prestes a desmoronar… melhor deixar pra lá. Vamos de otimismo e basta de petismo!

E um bom domingo procês! Oba!

 

 

[1] Como americano é tudo preguiçoso e gosta de abreviar tudo, substituíram metade da palavra por um número com o som parecido. Ah, “procrastinate” é aquele hábito de adiar tudo, e todas as decisões, “procrastinar” entenderam?

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