Escrever não dá dinheiro. Ou: como se proteger de ameaças contra a nossa integridade social

Já tentou. Já falhou. Não importa. Tente de novo. Falhe de novo. Falhe melhor.

Samuel Beckett

Durante a semana escrevi sobre temas que têm me preocupado, como o avanço do progressismo (ainda associado por alguns ao marxismo) e a crescente ameaça da inteligência artificial e falta de privacidade em geral, assunto, aliás, abordado também de maneira interessante pela Ilustrada neste domingo.

Parece que temos poucas chances de reagir contra forças poderosas, que, mais que isso, contam com o apoio de muito dinheiro, resultando em enorme concentração de renda, na contramão do que advogam os “donos da bondade” que abundam por aí.

O que fazer?

A gente vai vivendo o dia a dia e explorando soluções possíveis.

Atenção: este texto é um comercial.

Meu ofício, artesanal e demorado, é um dos que têm sido considerados em “potencial extinção”, em vias de ser apagado pelo corretor ortográfico e pela conversão automática da Amazon, para nem mencionar a tela diminuta do celular e os ataques pontuais e coloridos de janelas com 140 caracteres.

Hoje cedo, ainda na cama, comentei com o Alan que um potencial autor me escreveu que “perguntou a seu consultor para assuntos econômicos se valeria a pena investir certa quantia em dinheiro para publicar mais um livro, sendo que já tem alguns publicados, sem retorno financeiro”.

Tal reação têm sido frequente nos poucos orçamentos que tenho enviado. Sim, além de comentarista política sou editora “por encomenda”, e cobro por meus serviços de edição de textos, criação de capas, diagramação de livros, conversão digital e distribuição. Também sou muito competente e experiente, tenho mais de 350 títulos no meu currículo. Mas sempre me deparei com um dado penoso no meu ofício: percebo que as pessoas se sentem inclinadas a “investir” para publicar um livro porque acreditam que vão ganhar muito, mas muito dinheiro, e isso é raro no mercado, raríssimo, no caso do Brasil. De todos os livros que publiquei como editora (como autora, nenhum), apenas um atingiu a categoria “best-seller”, e mesmo assim, por se tratar da era digital, o resultado financeiro foi bem dispensável para o autor.

Ele, no entanto, ficou feliz por ter sido bastante lido.

— Diga ao seu autor que a gente não escreve para ganhar dinheiro, mas para “garantir a imortalidade” — o Alan recomedou.

— Ninguém quer saber de imortalidade. Querem ter retorno nesta vida mesmo.

— Para que você escreve? — ele me perguntou.

É. Tenho 13 livros publicados em português (3 em inglês) e um 14° a caminho, na mesa de edição. Um deles é um romance que, de acordo com quem leu, é um “marco” na literatura do amor pela internet. Quanto dinheiro ganhei com isso? Para ser franca, nenhum. Vinha sobrevivendo alimentando o “sonho de fama” de outras pessoas, quer dizer, de certa forma, as enganando. Embora em todas as oportunidade que tive sempre disse a meus autores para não esperarem retorno em dinheiro, e que, mesmo assim, deveriam publicar seus livros com a melhor qualidade possível. E o motivo para isso não é que eu estaria cobrando para fazer o serviço e colocando comida na minha mesa, mas sim que tudo que se faz nesta vida deve ser bem-feito, devemos sempre ir em busca de um resultado perfeito. Para nos sentirmos humanos, não máquinas. Gente que tem uma vida, não apenas um emprego.

Ora, dirão, ninguém lê nada mesmo. E é verdade. É muito difícil hoje em dia, com todas as distrações e variados aparelhos, a gente ter nossa atenção capturada por um bom livro. Eu mesma, que faço disso um ofício, dificilmente começo um livro fora dos que edito no trabalho, e mais dificilmente ainda leio até o final. Para que isso aconteça, é necessário haver uma conjugação da qualidade do livro com meus interesses no momento e uma situação em torno que me permita algumas horas de escape e encantamento que, quando ocorrem, constituem uma das mais empolgantes atividades do intelecto: mergulhar num outro mundo de conhecimento, na alma de uma outra pessoa.

Minha estratégia? Escrever. Escrever mais. Escrever melhor.

Para que eu escrevo?

— Para a imortalidade — respondi para o Alan, e comecei a rir.

Não acredito na imortalidade, na verdade. Escrevo para me expressar, porque se não escrever, não me libertarei daquela energia impositiva, não reexaminarei meus sentimentos e reações em cada passagem da minha vida, e, mais que tudo, não terei tentado comunicar a outros seres humanos o que penso e experimento. E embora não ganhe um tostão com isso (como tem sido até agora), tenho tido momentos de alegria e felicidade quando percebo que entendo o mundo, navego a onda da “mente coletiva” com muita competência e em concerto com outras mentes inteligentes. Com sorte, serei lida e darei essa mesma alegria a uma ou duas pessoas.

E isso basta? Claro que não! Quero ser best-seller! Ganhar muito dinheiro e nunca mais me preocupar com questões materiais!

Enquanto isso não ocorre, me enriqueço como ser humano, reflito através da escrita, não me deixo levar por modas e manias esquisitas e, de quebra, protejo a minha integridade social, porque não me entrego a nada sem muita análise, estudo, pensamento, intuição e constante reviravolta de opiniões. É o que me faz sentir que estou viva, e tenho valor.

Por que escrevo? Porque escrevo, oras. O ato de escrever “acontece”, “flui de mim” puro e cristalino como o desejo, sem segundas intenções. E eu não me furto, deixo que ele ocorra.

Até aí, tudo bem. Mas por que publico? Porque, já que escrevi, confiro o máximo valor ao que produzi: texto bem editado, boa capa, conversão digital de qualidade (feita por gente, não por máquina).

É isso aí. É a minha estratégia num mundo controvertido. Cada um tem as suas, muitos não têm nenhuma e se deixam levar. Vai que num futuro bem distante um neto postiço que nunca encontrei se depare com meus escritos numa estante. Terá valido a pena. Embora com toda a certeza ele não terá herdado de mim nenhum dinheiro, e talvez não me ame como eu mereço.

Bom domingo!

Foto Man vs Machine (https://vimeo.com/mvsm)

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/04/1871569-inteligencia-artificial-pode-trazer-desemprego-e-fim-da-privacidade.shtml

Publicado também aqui.

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