Esperança

welcomepodEu sei. A julgar pelo que ando escrevendo, e por consequência pensando (ou seria o contrário?), minha maior preocupação nos últimos tempos tem sido o dinheiro.

Nos últimos tempos? Como assim? Não foi sempre assim?

Verdade. Gozo de boa saúde, e se um dia no passado grandes e dolorosos dramas forjaram esta persona meio bipolar que hoje carrego, já não lido com eles diariamente, o que, vamos combinar, não facilita em nada as minhas chances de virar best seller num mercado de desgraças altamente disputado. E ainda assim, isso me deixa, digamos, metade feliz.

Explico. Embora esta última afirmação inclua uma das minhas maiores frustrações, obviamente prefiro ter todas as condições para uma maturidade tranquila do que seguir sangrando até o fim, se é que vocês me entendem.

Há apenas um ano eu parecia ter arrumado uma espécie de “projeto perfeito”: deixaria o Brasil em direção aos Estados Unidos, onde construiria uma casa no terreno que tínhamos escolhido e em seguida solicitaria um tipo de plano de aposentadoria que você não precisa pagar, a “hipoteca reversa” — eles avaliam a casa, te dão na mão metade do valor e quando você morrer há um tipo de acerto que não sei bem como é, mas aí já morri, não é?

No mais, nunca mais trabalharia. Adeus noites de preocupação, fins de semana dedicados à ralação, textos complicadíssimos, impressões elaboradas controladas à distância e, no quesito “autora”, o inevitável medo de rejeição. Tudo isso estaria no passado. Teríamos férias constantes, Alan e eu, nos destinos mais distantes, sem nada mais para atrapalhar. Rimaria direitinho.

Enquanto escrevo essas bobagens destinadas a nunca se realizarem, escuto lá fora o barulho irritante do soprador de folhas. E penso no Brasil que deixei para trás, no condomínio Vale do Sossego… para ser específica, na decisão de um novo síndico decidido a “agradar”, e que para isso adotou um soprador de folhas semelhante que vinha nos atormentar a cada manhã, para desespero de todos nós, moradores. Agora, olhando lá fora, dá para entender para que serve um soprador de folhas… ao menos no outono do hemisfério norte uma coisa que faz o maior sentido! Foram 10 dias de chuva, e as folhas caídas e espalhadas por todo lado, deixando no ar uma impressão de bagunça e abandono, estão ordenadamente acumuladas em cantos de onde o aspirador de folhas virá coletá-las em breve, restaurando a limpeza e a ordem. Já no Brasil tropical… quantas folhas caídas temos realmente a cada ano?

Pois bem. Não é a primeira vez que me lembro do Brasil desde que acordei. Imaginem que ao abrir o computador recebi por email a conta de luz… absurdos $144… dólares! Mas, gente, não temos ligado o ar condicionado, nem o aquecimento, e no mês passado o valor tinha caído para uns $70… que coisa mais intrigante… e me preparo para reclamar com o Alan, mesmo sem ter que lidar com os escandalosos 50% de aumento que têm enfrentado meus amigos no Brasil, isso, para não mencionar a falta d’água, a onda de calor, o abafamento geral dos escândalos políticos e o cai-não-cai do ministro Levy… é mesmo de amargar. Eu devia me dar por feliz por estar a salvo de tudo isso, mas nada justifica o descalabro da conta de luz deste mês, não é mesmo? Aquela velha revolta de brasileira.

Só que, acessando o site… descubro que na verdade não temos que pagar este valor, ao contrário, eles é que nos devem. Isso mesmo. Aparentemente (porque na verdade já tirei essa conta da minha mente), há um ano, quando nos registramos na companhia de energia, fizemos um depósito de $200 que ora nos está sendo devolvido, et voilà, teremos aí por volta de uns três meses de energia “grátis”, pois é. Lembram os depósitos compulsórios de viagem, o sequestro da poupança e outros “empréstimos obrigatórios” que já tivemos que enfrentar, e a insegurança quanto a saber se os iríamos recuperar? Melhor nem lembrar, vai que o governo Dilma decide que é uma boa ideia para se salvar… É só o que está nos faltando, boca podre, diria mamãe.

A infeliz lembrança de desastres passados quase me fez perder o rumo dessa prosa, mas retomando. Enquanto eu acalentava a ideia da nunca antes sonhada aposentadoria (eu costumava dizer que artista trabalha por diletantismo, e sonha em morrer trabalhando, mas nunca antes nesta minha dura existência me senti tão cansada, sempre desejando dar uma parada), o ano ia passando, o crédito melhorando, e nada de a casa sair do papel, até que… a vida foi se reorganizando, e a esperança de um prolongado descanso patrocinado pelo banco acabou se transformando no projeto de uma nova editora, americana desta vez, e cá estou eu novamente me preparando para trabalhar até morrer. E com prazer.

Só que agora, espero — e quem espera um dia alcança, pelo menos é o que determina o sonho americano —, sem ter que morrer de tanto trabalhar, como tenho feito nos últimos anos.

Quanto à preocupação com dinheiro, esta também há de passar. Imaginem que há quase ano, quando aqui cheguei, tive que me contentar em ser uma cidadã de “segunda categoria”, sem crédito, sem residência, e tudo dependendo do meu grau de resistência. Hoje, feliz portadora de um Green Card (coisa para a qual, percebi no debate dos republicanos, a maioria dos imigrantes está pouco ligando) acabo de receber pelo correio uma proposta que deve me conceder aquele antigo cartão de crédito de milhagem com o qual viajamos bastante nos últimos anos, o mesmo que deixei para trás no Brasil, e que, para meu desalento, me havia sido negado aqui nos Estados Unidos num primeiro momento, já tinha até me esquecido, mas o “sistema” se lembrou.

Pois é. O tempo cura tudo, e aquilo que ele não curar, acaba caindo no esquecimento, eis a grande esperteza do cérebro humano, e, quem sabe, a chave definitiva para a porta da tal felicidade. Até com o fracasso do meu “jardim de ervas de apartamento” já me conformei, vai que é por causa do outono.

Quanto à nossa casa, não custa nada esperar, a obra já já vai começar. Depois eu conto.

 

***

E por falar em empresa nova, sonho americano, sonho de escritor e otras cositas más, meu primeiro livro em inglês, Welcome to America, acaba de ser publicado e está disponível na Amazon, dá uma olhada.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *