Estes olhos viram a glória

O enforcamento de John Brown visto pelo artista afrodescendente Jacob Lawrence.

O enforcamento de John Brown visto pelo artista afrodescendente Jacob Lawrence.

“Obrigado(a)[1] pela oportunidade de ler e editar sua amostra muito divertida, divertida até mesmo para alguém que é praticamente ignorante das maquinações políticas em curso aqui neste momento”, dizia a deliciosa mensagem de um(a) editor(a) em potencial com relação à minha crônica da semana passada. Ando pesquisando o mercado para aumentar a equipe da KBR internacional colocando na reta o meu próprio… texto, ou vocês pensaram que eu ia dizer outra coisa? E, devo confessar, submeter meu trabalho de autora a profissionais americanos competentes é uma experiência no mínimo delicada, que poderia ser melhor descrita como “medo de rejeição”.

Como uma autora não-nativa em inglês, devo admitir, venho também procurando um jeito de quebrar a barreira da insani… ops, desculpem, da mentalidade americana. E se vocês estão pensando que estou tentando parecer engraçadinha, acertaram em cheio. Tenho enfrentado cá do meu lado uma pressão quase insuportável, podem acreditar.

Por falar nisso, o editor supramencionado também acertou em cheio: apesar de eu estar cortando um dobrado para soar divertida em inglês — o que, francamente, não me custa nada em português — sou quase completamente ignorante no que se refere às maquinações políticas atuantes neste momento nos Estados Unidos. Cá entre nós, como poderia ser diferente? Ainda que eu não consiga resistir à tentação de escrever sobre esse assunto, tanto assim que depois de quase dois anos de “imersão” na vivência americana tal ignorância se transformou no meu tema principal, algo com que convivo intima e diariamente, para dizer o mínimo.

Foi uma semana crucial para mim. Imaginem que cheguei até mesmo a viralizar no Twitter — “até” sendo a palavra-chave desta crônica —, uma coisa inacreditável. “Viralizei” é modo de dizer, claro, mas acho que dá para entender a importância que ter seus tuítes curtidos e retuitados mais de 50 vezes pode adquirir para uma simples estrangeira pretensiosa como eu.

Bem que eu deveria ter imaginado que meu “agudo senso de observação” não poderia ter simplesmente desaparecido só porque viajei alguns milhares de quilômetros, embora eu venha sendo consistentemente encorajada a me perceber como uma pessoa inferior, de segunda classe, dotada de algum tipo de consciência estrangeira defeituosa e irreparável.

E tudo isso começa em casa, é claro. Entendo muito bem que estou bem longe de entender este país, cuja história, tradições e sutilezas linguísticas praticamente continuo desconhecendo. O idioma inglês, só para dar um exemplo, conta com mais de um milhão de palavras, para nem mencionar que não existem regras para soletrá-las, é tudo estabelecido de forma “aleatória”.

Parafraseando Obama em seu pronunciamento em Dallas, no início desta semana louca, ser imigrante no primeiro mundo é uma experiência que “evoca a humildade”. E humilde eu me sinto, pior, me sinto esmagada, verdadeiramente humilhada quase o tempo inteiro. Meu marido americano, por exemplo, um sujeito de muito brilho e pouca compaixão, faz questão de enfatizar as minhas falhas, o que, francamente, costuma me tirar do sério. Diariamente. Morro de raiva dele. Morro de raiva de mim mesma, mas sacudo a poeira e dou a volta por cima, fazer o quê.

Por todo lado que se olhe, nestas últimas semanas, impera uma sensação perigosa de medo, de raiva, de revolta, justificada ou não. Cá do meu canto acredito firmemente que toda essa febre reativa que nos contamina na rede social apenas reflete um vazio, uma carência em nossas vidas pessoais — na minha, pelo menos, ou talvez tudo isso não passe de mera sensação. Enfim, tive um gostinho desse estado de coisas esta semana no Twitter: basta a pessoa se expor um pouquinho para tocar um nervo exposto na multidão.

Mantidas as devidas proporções, não sou nenhuma exceção. Mas, vamos combinar, embora até já tenha tentado, ainda não matei ninguém (percebam que esta crônica foi escrita antes do atentado de Nice, tragédia da semana que vem), meu “calcanhar de Aquiles” neste momento sendo a obra da nossa casa em Paris Mountain. Como vocês bem sabem, além de escritora e editora sou também arquiteta formada — formada no Brasil, o que logo de cara me qualifica como “incompetente”, sabem como é. Então perco totalmente o controle quando o Alan tenta me convencer de que “não sei me comunicar com os americanos”, e quanto mais o tempo passa, e a obra atrasa, vou ficando cada vez mais irritada, frustrada, dada a impulsos cada vez mais violentos. No último fim de semana, por exemplo, quando ele me disse que eu “não podia ir à reunião no terreno porque só iria atrapalhar”… virei bicho, fiquei fora de mim. Gritei com ele, chorei, solucei, e aí atirei nele a faca de manteiga por cima da mesa do café. Acertei na testa do pobre coitado!

Quem seria essa mulher maluca? De onde viria toda essa violência? Aquela bruxa não podia ser eu, uma dama sofisticada, culta e super bem-educada. Fiquei com uma vergonha danada, um provável efeito colateral de tanta humildade sendo empurrada o tempo todo para cima do meu orgulhoso self despedaçado, se é que vocês me entendem (“pô, Noga, para de usar essas expressões superbatidas, não aguento mais isso”, reclama o meu marido internalizado, usando um tom francamente entediado).

Enquanto isso, eu cá do meu lado me esforçando ao máximo para fazer este texto progredir, travamos o seguinte diálogo, Alan e eu, ele como sempre tentando me distrair com seu costumeiro excesso acachapante de informações que me derruba toda vez que eu expresso alguma dúvida quanto ao uso do inglês, ufa, apesar de eu reclamar dizendo que preciso me concentrar:

— O que estou dizendo é obra de gênio, o que você está escrevendo é puro ego.

CQD. Que cretino! Que idiota!

Agora de volta ao meu sucesso recente: meus 15 segundos de fama no Twitter (e mais alguns novos seguidores) deslancharam finalmente quando publiquei um comentário maldoso — “você está cheia de ódio”, alguém tuitou — sobre o errático comportamento do presidente Bush na cerimônia de Dallas, um evento fúnebre onde dançar não parecia ser nem um pouco permitido. Bush estava se esforçando ao máximo para convencer Laura e Michelle a dançar com ele, mas não estava dando nada certo. Não se tratava ali daquele tipo de procissão típica de um enterro jazzístico, ou de um emocionante filme de Akira Kurosawa, e a lúgubre seriedade exibida em torno do ex-presidente deixava isso bastante claro.

“Fico só imaginando se Bush estava bêbado na cerimônia fúnebre em Dallas”, tuitei sem hesitar. “Ele estava dançando ao som de ‘glória, glória, aleluia’!”

Et voilà, minha ignorância patriótica emanou cintilante dos meus 140 caracteres brilhantes, que imediatamente se voltaram contra mim: “@nogasklar (o ‘imigrante estúpida e ignorante’ ficou apenas na sugestão), trata-se do ‘Hino de Batalha da República’”.

Vamos combinar: a rotina diária de uma exilada recém-chegada é uma ilha de conquistas irrelevantes cercada de reações humilhantes por todos os lados, não importa se se trata do supermercado, ou de uma conversa sem jeito com o seu empreiteiro, ou, pior ainda, de escrever em inglês sendo não-nativa. Então fui ao Google humildemente, para chegar à interessante conclusão de que a mesma canção era igualmente conhecida como “Estes olhos viram a glória”, também tendo enfrentado umas duas ou três paródias maldosas, sendo uma delas bastante racista, a “Canção de John Brown”, na qual um negro é pendurado e enforcado durante a guerra civil. Tudo bem, melhor mesmo parar por aqui. E neste ponto, inspirada pelo comentário de um outro seguidor no Twitter — que, por sua vez, me acusou de estar bêbada também —, cometi um trocadilho intraduzível envolvendo “porre e perjúrio”.

Achei engraçado os conservadores que me leram no Twitter terem chegado rapidamente à conclusão de que eu era esquerdista, uma convicta obamista, determinada a fazer pouco do último presidente republicano custasse o que custasse. Enfim, deixa estar para ver como é que fica.

No final das contas, acabei aprendendo uma coisa ou duas sobre a incrível sociedade americana, desta vez sem nenhuma ironia: na noite daquele mesmo dia, assisti na TV a um documentário sobre a Casa Branca que evocou de verdade a humildade, não somente por conta da coragem e da importância que se pode depreender da história americana, mas também da indiscutível capacidade que tem este país de se mostrar (ou “se vender”?) para o resto do mundo, algo que, infelizmente, tem estado meio esquecido nesta assim chamada “Era Obama”.

Vida longa ao sonho americano, porque o mundo inteiro estaria pior sem ele.

[1] Não se trata aqui da fórmula “politicamente correta” de expressar feminismo, Deus me livre e guarde, mas, simplesmente, do fato de que o editor que escreveu isso é anônimo, trabalha num portal de edição, portanto não dá pra saber se a figura é homem ou mulher.

publicado também aqui:kbr-k.fw

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *