Eu apoio Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos

Custei para encontrar uma "imagem positiva" do candidato.

Custei para encontrar uma “imagem positiva” do candidato.

Não adianta tentar simplificar as pessoas. É preciso seguir pistas, não exatamente o que dizem, nem inteiramente o que fazem.
Virgina Woolf

 

Finalmente chegou o dia , e não vejo um jeito mais fácil de fazer esta afirmação: decidi apoiar Donald Trump como candidato à presidência dos Estados Unidos. Sei que para os brasileiros neste momento isso parece irrelevante, mas para o mundo é muito importante, e o mundo não vai acabar com o impeachment de Dilma. Além do mais, estou vivendo aqui, e tenho uma visão mais íntima desses acontecimentos que pode ajudar em certos julgamentos, embora seja apenas, obviamente, a minha modesta opinião.

Sei muito bem que, com esse apoio, arrisco perder mais uma meia dúzia de amigos no Facebook, e talvez alguns clientes. Paciência. Eu aguento.

E não pretendo declarar esse apoio como tem sido feito ultimamente por tanta gente, mostrando apenas o avesso, isto é, as qualidades negativas dos demais candidatos. A verdade é que tenho pleno direito a dizer o que penso, algo que aprendi do jeito mais difícil nestas últimas semanas do caos político brasileiro.

Se as pessoas podem dizer de cara limpa que “seguiram seu coração” quando votaram em Bernie Sanders nas primárias, por que eu não poderia fazer o mesmo, isto é, “seguir o meu coração”? Quem deu a elas esse poder de serem donas da verdade? Donas, pelo menos, da única opinião que conta?

Vamos combinar: em política não existe “verdade absoluta”. É tudo farsa. E o nosso papel nesse jogo de empurra é tentar enxergar o que há por trás da cortina de fumaça que ambos os lados se esmeram em soprar para o nosso lado no dia a dia.

Enquanto escrevo, na quarta-feira, depois das vitórias de Trump nas primárias de terça, pode parecer para alguns que estou apenas optando pelo favorito republicano, considerando que decidi me tornar “republicana” já faz algum tempo, quando comecei a me decepcionar com Obama, depois de torcer por ele tão ardentemente. Ou depois de ter me rendido à constante pressão do Alan, só com a ressalva de que o que ocorreu é que ele realmente me convenceu, com argumentos razoáveis, que faziam bastante sentido.

Não adianta continuar insistindo em ideias fracassadas do tipo “ninguém pode ser eleito presidente dos Estados Unidos sem antes ganhar as primárias de Ohio”. Eu poderia refutar dizendo que “ninguém pode ser eleito presidente dos Estados Unidos apenas ganhando as primárias de Ohio”, como John Kasich, certo? Também não vejo sentido em lembrar a fracassada tentativa de Ted Cruz de resolver esse “enigma” se juntando com Kasich numa dupla de perdedores, podendo assim “fingir” que ele, Cruz (ou pelo menos a nova dupla), venceu as primárias de Ohio e, portanto, merece a presidência de um jeito meio torto. Ou ainda, depois que esse “acordo” acabou furando rapidamente, fazendo de conta que já foi nomeado candidato republicano através da escolha de uma “vice-presidente”, a Carly dois-por-cento, ou “Fiorina cantora”.

Ted Cruz. Que figura assustadora. Mesmo assim, fui comparada a ele numa resposta bastante injusta a um comentário meu num artigo do New York Times. Bem a tempo, a tempo demais para ser considerado algo mais do que uma feliz coincidência — não acredito em coincidências, pero que las hay, las hay — encontrei um artigo na coluna “Modern Love” do Times que enfocava mais ou menos o mesmo assunto da minha crônica da semana, “Amor, duro amor”: a mania, ops, o “movimento” transgênero. Não hesitei um segundo antes de tentar entrar no New York Times pela porta dos fundos, isto é, colocando um link para a minha crônica num comentário ao artigo. Ufa.

Deu certo. Um bando de gente além do par de leitores que  me leem habitualmente foi redirecionada para a minha crônica publicada no Times of Israel. Felizmente, boa parte dos leitores do NYT que comentaram sobre o artigo comungavam comigo em suas opiniões, refletindo uma clara rejeição dessa imposição de valores por parte de uma óbvia minoria, que não sei por que motivo acabou ganhando “foro privilegiado” no “ideário esquerdista”, ou coisa que o valha.

Não somente fui comparada a Ted Cruz, como também “xingada” de “cisgênero” — para quem ainda não foi apresentado ao termo, “gente que opta pelo gênero ou sexo com que foi contemplado ao nascer”, algo altamente ofensivo, ao que parece. Por que eu — ou qualquer pessoa, aliás — deveria se conformar com um destino tão limitador? Por que alguém deveria ser forçado a aceitar que é mulher simplesmente por ter nascido assim? Quando foi que concedemos à natureza esse tremendo poder de decidir, francamente antidemocrático?

Apesar do fato (positivo) de ter precisado aceitar que o papel de “comentadora” é duro de encarar nesta nossa época de extremismos — é preciso desenvolver, literalmente, uma “casca grossa” — fiquei contente ao perceber que nem todo mundo está enlouquecido, ou enlouquecendo. Um número significativo de mulheres tentou explicar, por exemplo, que seus seios (exatamente como os meus!) são um órgão vivo, nutridor, entremeado de vasos sanguíneos e terminais nervosos, muito mais do que um “saco cheio de gel”. Um homem gay compareceu com uma ideia original, afirmando que o “movimento transgênero” é na verdade um retrocesso, indo na contramão de conquistas anteriores que nos conduziram à liberdade sexual e seus resultados alentadores. “O sexo biológico é imutável”, ele disse. “O ‘transgenerismo’ se baseia em ideias retrógradas sobre o que significa ser um homem ou uma mulher”.

Vocês poderiam me perguntar, que diabo isso tudo tem a ver com a candidatura de Donald Trump? Vou explicar. Acredito que o já mencionado “ideário esquerdista” perdeu o rumo. O que começou como uma defesa de direitos humanos fundamentais, alegremente defendidos pela nossa geração na nossa juventude, acabou se degenerando numa espécie de “ditadura das minorias”. E não estou tentando minimizar direitos humanos verdadeiros, cruciais, como a liberdade de expressão, ou mais urgente ainda, o direito à moradia, alimento suficiente e educação como base para uma mínima qualidade de vida. Nem pretendo descrever verdadeiras “minorias”, como os mais pobres, ou pessoas de outras cores (descontando a cor branca), ou, imaginem, “mulheres” — esclarecendo a ironia: de acordo com a natureza, as mulheres devem somar mais ou menos 50% da raça humana — mas, ao contrário, verdadeiras “raridades”. Por que deveríamos aceitar ser limitados, tolhidos, ou mesmo sofrer abuso por parte de tais seres raríssimos, só para satisfazer suas exigências radicais?

Não me levem a mal. Como uma recém-convertida “conservadora”, sou completamente a favor da liberdade para todos. Contanto que não afete a minha própria.

Nada disso significa que, uma vez eleito, Donald Trump vá conseguir, ou ao menos se empenhar em frear essa maluquice. Mas tenho certeza de que Hillary Clinton vai se esforçar para manter a atual tendência, como tem demonstrado em seus discursos. E mesmo que ela não se esforce, o simples fato de se eleger um democrata — ou, como eles gostam de ser chamados, um “liberal” — será um claro sinal de que nós, a maioria, apoiamos esse estado de coisas, essa avassaladora falta de sentido que está prevalecendo hoje em dia.

Enquanto escrevo esta crônica, escuto meio distraída ao discurso de Donald Trump sobre política externa. Nada de novo nessa frente, desculpem aí o possível trocadilho. O que quer que ele diga ou faça neste momento tem apenas um objetivo: eleger-se presidente, angariar votos, ponto final. Mudanças nacionais radicais ou fortes alterações na atuação internacional do país, embora dependam do presidente como já vimos, devem antes de qualquer coisa passar pela Câmara e pelo Senado, certo?

Uma mudança urgente se faz necessária, isso é bem verdade. O que não quer dizer que, mesmo tentando com vontade, a gente consiga atravessar a tal cortina de fumaça que esconde o futuro, descobrindo assim o caminho certo a seguir. Só podemos confiar no nosso senso interno de direção, no sentido moral, um sentido que pode estar profundamente afetado pela intensidade das opiniões que nos atacam vindo de todos os lados da rede social, ecoando todo tipo de intolerância, de preconceito disfarçado, de afirmações impositivas, embora injustamente elaboradas e raramente merecidas. Neste nosso mundo atual, tem razão quem fala mais alto, ou no mínimo tem mais “curtições”.

Vou me limitar a apoiar Donald Trump (claro que estou sendo irônica) por apenas duas razões: a primeira é que, como eu, ele tem a mania de pôr apelido em todo mundo; e a segunda é que ele sempre começa uma revelação dizendo que “não revelo nem sob tortura que…” completando a frase com a revelação em questão, coisa que eu faço com frequência (adaptei obviamente ao linguajar popular brasileiro, ele nunca mencionou a palavra “tortura”, tá bom?). Se eu estiver horrivelmente enganada, vamos saber logo, logo. Ou nunca, caso Hillary seja eleita.

A verdade é que não existe “se”. Estou apenas seguindo os meus instintos e pronto. Não faz sentido para mim ignorá-los neste momento.

Para nem mencionar, obviamente, que a maioria das questões levantadas nestas eleições americanas foram introduzidas por Trump, caso vocês já tenham esquecido, ou nem sequer tenham prestado atenção. Todos os outros candidatos se limitaram a reagir a elas, alguns repetindo que nem papagaios, outros combatendo do jeito que podiam, com raras exceções. Quer dizer: de um jeito ou de outro, Trump já é o “cérebro” por trás do futuro governo, a mente que está dando as cartas. Apesar de Alan tê-lo criticado dizendo que o candidato mal sabe ler um discurso.

E agora que o “grande discurso” terminou, vou ter que dizer que não existe comparação entre o carisma de Trump e o carisma de Obama. O tempo dirá se “carisma” é na verdade aquilo que resulta num mundo melhor. Começamos tão bem com a nossa luta pela justiça e igualdade social, alguns anos atrás. Quando foi então que a gente se perdeu?

Talvez resulte em algo bom se a gente decidir seguir um caminho que não seja tão claro assim, já que tal clareza provou ser falsa, ou pelo menos ineficaz.

Eu certamente me sentiria bem melhor, ficaria bem mais feliz se conseguisse efetivar esse “apoio” de um jeito mais animado, mais convincente, como costuma fazer o “outro lado”. Mas não consigo. O mundo não deixa, já que continuo com tantas dúvidas sobre tantas coisas. Mas não no que diz respeito à presente decisão, que já está tomada. Caso encerrado. Fui.

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