Férias brancas

chaplin_modern_timesTenho certeza de que o mundo não vai parar por causa disso, mas de qualquer maneira estou me preparando para dar uma descida.

— Você está de férias! — Alan reclama, ao me ver desalentada, grudada à dura cadeira (e à tela do computador) e coçando a cabeça (e o pescoço, e o ombro) com algum problema insolúvel à primeira vista.

Ele tem razão, bem, mais ou menos. “Proclamei” que a partir de quarta-feira (passada) tiraria uma espécie de férias, porque no nosso mundo conectado, como vocês sabem, não se pode tirar férias totais naquele estilo “ilha deserta”, eclipsar-se do mundo com “acesso limitado a e-mails e celulares”. De preferência, nenhum.

No meu caso particular estou numa batida seguida há exatos 19 meses, calculei assustada ontem no chuveiro. E não foi um período corriqueiro, de forma alguma.

Enquanto prosseguia na minha agenda apertada, cujo ritmo todo ano prometo a mim mesma que vou desacelerar (mas, vocês sabem, tem aquele autor que precisa do livro para lançar no congresso internacional e não pode perder a oportunidade, outro deve adicionar um novo título ao seu currículo Lattes para obter uma promoção na faculdade, aquele outro sofrerá um baque irreparável se não lançar o novo romance na data de seu aniversário, e por aí vai), vendi minha casa no Vale, um paraíso perdido na selva ética e política em que se transformou o Brasil, empacotei a roupa do corpo e parti da minha vida pregressa para um país quase estranho, sem ter em vista uma casa para morar nem sequer um colchão para me acostar, para nem mencionar uma mesa onde estacionar o quanto antes meu escritório ambulante.

Os primeiros dias foram de choque. Circulando em carro alugado e enfiada num hotel padronizado, garanto a vocês que a sensação era muito diferente de “férias no estrangeiro”, uma urgência de criar uma rotina aceitável o mais rápido possível para não me exceder no atraso.

O resultado é que logo que nos acomodamos retomei o trabalho do jeito que deu, enquanto nos intervalos fui me encaixando na forma desconhecida, o que incluiu requerer (e obter, felizmente) o Green Card, me acostumar ao layout ( e à acachapante variedade) do supermercado, reaprender as regras básicas de sobrevivência num ambiente não hostil, mas inexplorado, isso, num rápido apanhado, porque se me dispuser agora a esmiuçar tudo que fiz nesses nove meses vou ficar tão esgotada que não sairá crônica nenhuma.

Fato é que assim que tive a oportunidade e um computador conectado à internet, voltei ao Brasil. Espantados? Apaguei o entorno estrangeiro e voltei ao trabalho como se nada tivesse acontecido por uma média de 10 horas por dia, ao cabo das quais, aí sim, me transportava aos Estados Unidos, imergindo no idioma, nos hábitos e costumes diversos, no choque do marido, que embora um cidadão retornado se encontrava completamente desconectado de sua própria realidade nacional. Para vocês terem uma ideia, me recomendou que fosse à agência dos correios e criasse uma caixa postal para onde toda a correspondência deveria ser dirigida, algo que funcionava para ele há mais de dez anos. Mas o que resolveu de fato o nosso problema foi entrar no site dos correios, registrar nosso endereço temporário e pagar a taxa de um dólar num cartão de crédito registrado naquele endereço. Nunca mais coloquei os pés na agência que hospeda a minha caixa postal, cujo número esqueci e cuja chave perdi em menos de uma semana, deve estar jogada por aí.

Vamos combinar, o mundo real está cada vez mais complexo de se lidar. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, não faço a menor ideia de como conseguirei comprar um par de sapatos (meus pés são pequenos demais), muito menos encontrar um dentista ou finalmente me dispor a fazer um segundo exame de rua para obter a carteira de motorista (falhei no primeiro, lembram?). Roupas novas compro eventualmente pela internet, e se não servir ou não gostar como tinha imaginado, devolvo pelo courier e sou reembolsada. E assim vou vivendo. Me dei conta desta radical transformação quando me vi totalmente enrolada com a conta do arquiteto recebida pelo correio; liguei e pedi que me enviasse novamente por email.

Amigos? Ao cabo de nove meses, claro, fiz alguns progressos nesse sentido. A caixa do supermercado, por exemplo, não só me reconhece como sabe o meu nome, acreditam? E mais recentemente fiz amizade com o lixeiro, depois que num domingo desses ele me encontrou trancada do lado de fora de casa tendo chegado de volta da corrida. E abusei sem dó da sua falta de senso de humor:

— Você tem alguma coisa para mim? — ele perguntou.

— Sim, e pode me levar também, estou aqui abandonada, como um saco de lixo.

— O quê?

— Brincadeira! Saí sem a chave e meu marido não está em casa… como é domingo, não tem ninguém no escritório do condomínio para me dar uma chave extra — esclareci, para meu alívio já vendo Alan despontar ao longe.

Depois desse dia, entendi como era constrangedor o meu hábito importado de reutilizar no lixo as sacolas do supermercado, algumas vazando e furadas, e passei a comprar aqueles sacos pretos especiais para lixo, uma despesa extra de 5 dólares mensais, imaginem, apenas para agradar ao meu novo amigo, que, por seu lado, passou a me cumprimentar — e ao Alan — sempre que nos encontramos, mesmo fora do condomínio.

Agora, deixa eu explicar o que é o lixeiro, na verdade um “valet waste colector” altamente especializado que apanha o lixo na nossa porta e o transporta para o container geral do condomínio, onde a municipalidade o recolhe: bem-apessoado e com um cavanhaque bem tratado, veterano das guerras  do Iraque e Afeganistão, o sujeito tem uma pick-up vermelha do ano e trabalha usando luvas descartáveis e colete de segurança impecavelmente limpo; segundo o Alan, que conversou mais com ele, se ocupa poucas horas por dia e faz mais dinheiro do que um engenheiro! Assim, até eu, adeus, KBR!

Bem, se na minha nova vida eu fracassar como lixeira de luxo, ainda posso me consolar com uma posição de caixa de supermercado, atividade na qual se empregam 9 entre 10 aposentados para fazer uma graninha extra, gente da minha idade e mais além hesitando em parar de trabalhar, não está fácil pra ninguém, sabem como é.

Mas agora chega de brincadeira. A verdade, isto é, o lado mais circunspecto da verdade, é que mesmo não tendo ainda me conscientizado plenamente de que estou nos Estados Unidos algo me aconteceu, e o ambiente em que estou vivendo tem penetrado no meu cérebro por um tipo sutil de osmose, sei lá. O que sei é que comecei a me expressar cada vez melhor e mais à vontade em inglês, embora apenas por escrito, porque na via oral continuo com aquele sotaque que Alan deplora e a cada episódio de extremo cansaço me deparo com um déficit de palavras cada vez maior, francamente, ao cabo de um dia de trabalho posso estar incapaz de emitir uma só frase, tudo o que consigo é conversar em português comigo mesma debaixo do chuveiro. Assim, quando escrevo, pareço ter aberto para o inglês o “canal” de inspiração que raramente me falha em português, ser modesto é chato e não vale o preço, não é mesmo?

Então, antes que a energia acabe, vou explicar o que estou entendendo por “férias brancas”. Passarei as próximas duas semanas e meia me dedicando única e exclusivamente ao meu trabalho pessoal: publicarei meu livro de crônicas de 2015 e tirarei o atraso das crônicas deste ano que ainda não traduzi, pois como ambição pouca é bobagem, estarei lançando (ui) em novembro meu primeiro livro em inglês, oba. E para isso é preciso foco, e muito trabalho!

E para não dizer que as assim rotuladas “férias” passarão totalmente em branco, se tudo der certo devo terminar o período estipulado com uma breve passagem pelo Canadá, onde devo me transformar definitivamente em sogra sem dó nem anestesia (minha nora já me preveniu), com uma dolorosa injeção de contato humano ao vivo direto na veia da família, pelo menos é esta a minha expectativa, alta demais da conta só para variar. Depois eu conto.

Por hoje já está de bom tamanho, vejam vocês que manobrei direitinho para escapar aos quase inescapáveis comentários políticos da semana, mesmo porque a intensidade mundial dos acontecimentos também está implorando por férias com um fiozinho de voz, pelo menos cá do lado desta cronista. Baseada em experiência pregressa, não posso garantir que vos livrarei da minha complexa intensidade escrita, como declarou noutro dia um meu leitor em prazeroso comentário; mesmo assim, voltarei renovada à rotina de edição.

Esperamos que seja tudo para o bem de todos e felicidade geral de todas as nações, esperança na qual não acreditamos nem um tiquinho, descontado o plural majestático, façam-me este favor.

Shalom!

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