Festa silenciosa

Inacreditável: pesquisando a imagem descobri que existem hoje em dia o que chamam de "quiet parties", festas silenciosas. Noga Sklar, profeta!

Inacreditável: pesquisando a imagem descobri que existem hoje em dia o que chamam de “quiet parties”, festas silenciosas. Noga Sklar, profeta!

Tudo dá certo no final.
William Shakespeare

(…) se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim
Fernando Sabino

 

Quando eu ainda era arquiteta — e esotérica, vamos combinar, ser esotérica exigia muito dinheiro para buscar, sendo pouca a chance de encontrar —, fui certa vez contratada para fazer o projeto de uma boate no Rio de Janeiro.

Deixa eu explicar. No início da minha vida profissional eu tinha uma loja de móveis bastante conhecida e melhor ainda divulgada pela imprensa, as coisas eram mais fáceis naquela época, sei lá, ou não tinha tanta concorrência de gente e de mídia. Era considerada a “vanguarda do Brasil”, como já contei, e embora a loja vendesse pouco, arrastava atrás de si uma corte que praticava o esquisito hábito de “sonhar com meus móveis olhando a vitrine”, mas, claro, nunca comprava nada — hábito ainda mais encorajado quando a gente emprestava móveis para a novela da Globo.

Vai daí que com todas essas crises de Brasil que a gente conhece, fui apanhada na onda do cruzado e obrigada a fechar a loja, deixando órfãos a minha imensidade de fãs de bom design, para não mencionar a mim mesma, escusado é acrescentar que durante os dez anos seguintes não consegui fazer nada que prestasse, tanto a minha personalidade era associada a ser “dona da Pólen”, coisa que até um grande amor me valeu.

Pois bem, entre esses meus muitos fãs que eu não conhecia (quase como no Facebook hoje em dia) estava um jovem médico, charmoso e milionário, que eu nunca tinha visto mais lindo. E um belo dia esse homem me ligou e solicitou um encontro. Eu fui.

Ele e mais dois amigos, um deles um DJ bastante conhecido e o outro um fabricante de botas de caubói (!) — Júnior, Wilson e Xú, nesta ordem — haviam decidido abrir uma nova e revolucionária boate (meu deus, será que já contei esse caso?) em Copacabana, onde antes havia sido o famoso Crepúsculo de Cubatão e em seguida a neocafona Kitchnet. A ambas eu frequentava, conhecia aquele buraco como a palma da minha mão, apesar de estar sempre escuro demais para se identificar qualquer coisa que estivesse acontecendo lá dentro, sabem como é, ainda bem. E agora, imaginem, os três mosqueteiros, sob o comando financeiro do doutor, tinham decidido contratar esta arquiteta que aqui vos fala para criar o projeto.

Que honra! E como eu precisava do dinheiro! Estava de viagem marcada para o Colorado, onde me enfiaria numa aventura de vidas passadas com o neoxamã da minha preferência. Pagaria o “workshop” com meus serviços de tradução simultânea, ah, não, isso foi bem depois, nos vários workshops que se seguiram, nesse de agora precisava de todo o dinheiro para financiar a viagem, et voilà, o Grande Espírito Wakan Tanka providenciou.

Mesmo com minha pouca prática em projetos de arquitetura, meti mãos à obra com grande animação. Falta de ideias nunca tinha sido problema para mim, e criei para os “meninos” o que eu mesma chamaria na época de “boate sensorial”, isso, deixa eu localizar, no início dos anos 1990, quer dizer, pouco computador, nenhuma internet, nenhum celular, e tudo conectado com muito fio, por favor. Em resumo, um outro planeta.

O acesso à boate se dava por um corredor longo e estreito, muito estreito acolchoado de espuma de ambos os lados (o background espiritual de tudo isso eram minhas sucessivas visitas à Documenta de Kassel, exposição de arte de vanguarda que acontecia na Alemanha de quatro em quatro anos), quer dizer, para entrar no recinto havia que se fazer o percurso ao contrário da vida para o útero, onde “mamãe lazer radical” nos aguardava com seu ambiente sensacional. Chegando ao salão principal, mesmo sem bebida nenhuma todos já se considerariam bêbados, pois o piso era ligeiramente inclinado assim como as paredes e todo o mobiliário disponível, pouco, é claro.

Mas isso não era tudo. O mais sensacional é que o som na boate era de completo silêncio! Cada frequentador se “plugava” num headphone acolchoado e dançava sozinho, conforme “sua própria música”, altíssima, obviamente, todos virados para a sua própria parede, uma ideia ligeiramente inspirada numa pessoa que eu costumava ver no Crepúsculo batendo com a cabeça na parede enquanto dançava, e determinada, por que não confessar, pela inexistência de gadgets sem fio.

Não preciso dizer que fui pontualmente paga, comprei uma incrível bota de caubói do Xú e embarquei para o Velho Oeste e meu programa de índio, literalmente. O projeto da boate nunca deslanchou, jamais foi executado, por que eu não sei, ou claro que sei. Hoje em dia seria fácil, com toda a parafernália tecnológica de que dispomos, mas já se passaram 25 anos!

E qual o propósito de desenterrar essa história agora?

Bem. Como vocês sabem, fui dolorosamente arrancada da minha linda casa de dois andares no Vale do Sossego e transferida sem anestesia para um apartamento de quarto e sala — no primeiro mundo, embora —, um espaço onde não há para onde fugir do íntimo convívio com meu amoroso marido, que, entre outras coisas, assiste a seriados violentos na televisão e tem problemas para dormir. Não preciso esclarecer que quando ele não dorme eu tampouco consigo dormir, isso, para nem mencionar as horas durante o dia em que ele escuta o noticiário e eu preciso de máximo silêncio para me concentrar no trabalho.

Aqui chegando, compramos uma supermoderna smart-TV, mas qual não foi o meu desapontamento quando descobri que não tinha entrada para fones de ouvido! E com tanta coisa para resolver, o atraso na minha agenda por conta da mudança, o Green Card, o projeto da casa, mais o estranhamento do inverno e do exílio… fui me conformando com o barulho inclemente. Eu poderia, claro, ir trabalhar em algum café, ou na sede do condomínio, bastando para isso atravessar a rua, mas infelizmente sou viciada na intimidade da minha própria casa. E como já havia me treinado no tempo de mamãe, que, aliás, morreu há três anos exatamente, comecei a operar imediatamente com dois cérebros separados: um, dedicado à edição, o outro a (não) escutar a televisão.

O caso é que com o progressivo cansaço o cérebro duplo vai pifando, outra coisa que eu também já tinha experimentado no passado, no tempo de mamãe. Some-se a isso algumas noites penosamente maldormidas no fim dos soníferos mensais do Alan — para não mencionar a possibilidade de cinco temporadas inteiras de Downton Abbey à disposição da insônia para quando a gente quisesse ver —, e eis a confusão formada.

Nesta sexta-feira a coisa estava tão malparada que eu já me sentia um zumbi. Estava tão viciada na tensão, que os poucos minutos de silêncio que Alan me proporcionava chegavam a me doer nos ouvidos, fisicamente, imaginem. Entrei na Amazon decidida a solucionar o meu problema, e depois de muita discussão e pesquisa — seria de um “receptor” ou de um “propagador” que a gente precisaria? — encontramos um dispositivo que prometia transformar qualquer hardware de qualquer espécie e fabricado em qualquer época num dispositivo Bluetooth, portanto, qualquer headphone também Bluetooth funcionaria! Tecnologia!

As críticas do aparelho eram variadas, desde decepcionadas até maravilhadas, inclusive pelo diminuto tamanho da coisa, um mero 5×4, pouco mais que uma caixinha de fósforos. Resolvi arriscar. Cliquei, comprar! Claro que com meu hoje em dia cotidiano pessimismo eu não esperava que a coisa realmente funcionasse no nosso caso, afinal de contas, vinha adiando esse momento por seis meses! Mas como é muito fácil e descomplicado devolver qualquer coisa para a Amazon, o risco era mínimo, só 35 dólares, a mesma quantia, imaginem, que há mais de dez anos paguei para conhecer o Alan na internet.

Pois hoje de manhã, isso mesmo, domingo, o pacote foi entregue pontualmente pelo correio. Fiquei com o coração na mão, funcionará ou não, ansiosamente abri os dois pacotes (transmissor e fone de ouvido) e atabalhoadamente, sem dar muita atenção às instruções, precedi ao “emparelhamento” e à configuração da televisão. E não é que funcionou mesmo!

Amigos, foi meu dia mais feliz desde que cheguei aos Estados Unidos!

E agora cá estou, num silêncio de igreja, ouvindo apenas os passarinhos, a escrever minha crônica do próximo domingo, a total falta de ruído me ferindo os ouvidos. Isso é que é qualidade de vida, os mais bem gastos 35 dólares da minha vida, depois daqueles outros, é claro.

E um bom domingo procês.

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