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obalogousAbro a porta do exíguo apartamento e uma lufada de ar fresco me surpreende, um sopro de alívio num verão que se revelou bem mais quente do que esperaria esta brasileira em rota de fuga… do calor dos trópicos, pelo menos, para não ter que listar a burocracia e todas as outras coisas.

Não sei, mas desconfio que com sua temperatura amena e suas cores mutantes tendendo para o laranja, o outono se tornará minha estação favorita no estrangeiro, isso, se nenhuma inesperada alergia à natureza decidir se manifestar.

De volta da “academia” (uma salinha refrigerada com duas esteiras, um aparelho de musculação e uma enorme tela de televisão aqui no condomínio mesmo, que me proporcionou a prazerosa oportunidade de voltar a correr depois de anos de sedentarismo), dou animada a notícia:

— Alan! Está 75º lá fora, fresquinho!

— Verdade? Duvido — e foi ao amado Google para checar.

— Está 84º! — ele me corrige todo satisfeito, com a maldade intrínseca dos que cultivam a certeza de saberem sempre tudo e estarem sempre certos.

Fosse o oposto e ele já estaria reclamando de que o corrijo por ninharia (no caso, 9 graus, que equivalem a apenas 5 naquela outra unidade), digo “não” a tudo. Paciência. O que importa é que os dias de 95ºF (35ºC) parecem estar indo embora.

Não deixarão saudade.

Ah, vocês perceberam. Depois de 10 meses vivendo nos Estados Unidos, espero ao menos ter desenvolvido um novo senso de meteorologia, no qual meu corpo entende a temperatura em Fahrenheits sem precisar parar para converter a todo momento. Tá quente. Tá frio.

“Quem converte não se diverte”, me ensinou uma amiga que viaja com frequência (brasileira, é claro). Tem toda razão.

A verdade é que venho percebendo que não serei capaz de manter por muito tempo essa rotina esquizofrênica de viver em dois países simultaneamente (embora do jeito que a coisa vai, o oposto talvez fosse possível, se é que vocês me entendem: trabalhar aqui e viver aí seria bastante lucrativo). Desde que vendemos nossa casa há exatamente um ano, por exemplo, a moeda brasileira da qual ainda sobrevivo já foi desvalorizada em 50%. Isso mesmo, 50%!

Se, por um lado, escapamos de perder o mesmo percentual no valor do nosso patrimônio, estável e calmamente à espera da construção da nova casa sabe-se lá quando, por outro a minha hora de editora sofreu um baque considerável, o que é no mínimo desanimador, para variar.

Mas vamos em frente.

Em dez meses de vida americana ainda não consegui me sentir plenamente presente, é mais ou menos, mal comparando, como me virei para encarar a perda do meu pai aos vinte anos: nunca aceitei, mas fui me acostumando aos pouquinhos. Só que agora, é claro, essa adaptação lenta e gradual nada tem de trágica nem de dolorosa, pois embora seja marcada por momentos de dificuldade é na verdade um gigantesco passo à frente — em direção à estabilidade, a uma vida mais equilibrada, com alguma esperança de se tornar um dia mais fácil e prazerosa. Com a garantia de Alan ter descoberto que, de acordo com o sistema vigente nos Estados Unidos, tenho direto à metade da aposentadoria do meu marido, só por sermos casados. Imaginem!

Desculpem aí. Posso garantir que minha intenção com esta crônica era apenas divertir, mas parece que não está funcionando. Isso, para nem mencionar o medo que sinto de ficar contando essas coisas positivas, vai que dá um azar e resolvem mudar a lei por causa disso.

Enfim, a semana foi marcada por um espantoso contraste entre a vida empresarial brasileira e a vida empresarial estrangeira, algo que até hoje eu só conhecia de imaginar, ou de ouvir falar.

Tendo dedicado boa parte das minhas férias a traduzir meu próximo livro (este mesmo, que inclui esta crônica) para o inglês, pude finalmente adquirir um certo senso de segurança ao me expressar nesta língua, embora ainda não esteja escrevendo, mas sim, “traduzindo”, com a óbvia exceção dos meus comentários no NY Times. E nem vou perder meu tempo lembrando que o Alan não perde uma única oportunidade de criticar minha “pretensão” de publicar em inglês. Minha crônica da semana passada, por exemplo, segundo ele não interessaria a ninguém — talvez por causa da metáfora da umbanda que ele não consegue entender, algo bastante rotineiro para nós, brasileiros —, mas, cá entre nós, já sabemos que para ele meu trabalho como escritora é pura perda de tempo, não importa o idioma… algo bastante comum, pelo que pude apurar, entre antigos casais felizes nos quais um dos parceiros é escritor. Deixa pra lá.

Decidi, então, que havia chegado a hora de formalizar a existência da KBR em solo americano, e de lambuja, quem sabe, identificar novas oportunidades locais para a tão sofrida alma brasileira, a minha e a de outros autores. E assim foi feito.

Gente! A coisa toda levou quinze minutos, tudo pela internet! E menos de 12 horas mais tarde, recebi por email o “alvará de localização” concedido pelo Estado da Carolina do Sul! O custo? Cem dólares — tá certo que cedendo à tentação da conversão não é tão pouco assim, mas para a mentalidade local, com o perdão da expressão, é uma mixaria. Claro que tudo bastante facilitado pelo meu endereço (cada vez mais fixo) na Carolina, onde não existe a anacrônica exigência de “ponto comercial”, basta uma “pessoa responsável com endereço local”.

E como tudo isso tenho conseguido durante as minhas “férias” tão ardentemente aguardadas, que terminam neste fim de semana — uai, já? — farei desta crônica um relato mais curto, só para não deixar em branco a incrível conquista recém obtida. E devidamente amparada na generosidade brasileira, espero em breve estar trilhando novos e mais amplos caminhos, para nem mencionar “mais seguros”, tanto como autora quanto como editora, já que o apoio à divulgação da nossa literatura no estrangeiro está limitado a editoras… estrangeiras, o que a partir de hoje me tornei de uma certa maneira, oba.

Long live KBR!

[1] Título de crônica com nota de rodapé é terrível, eu sei, mas devido ao hábito das péssimas traduções para títulos de filmes, o trocadilho se perde em português: “Lost in translation”, o nome original, foi traduzido no Brasil por “Encontros e desencontros”.

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