Gente de segunda classe

obama-clinton-campaignPalavras? Música? Não: é o que há por detrás.
James Joyce, Ulysses

 

Esta semana, um amigo me disse assim, na lata, que se “eu quisesse influenciar o eleitor americano, primeiro precisaria conhecer o eleitor americano” (grifamos). Ele acabou de publicar um livro com este mesmo objetivo, mas, pô, peraí. Não tenho a menor pretensão de “influenciar” americano nenhum, como poderia? Até agora tenho cortado um dobrado para minimamente entender o “American Way of Life” — que extrapolando um pouco eu definiria como “loucura americana” — e me daria por perfeitamente satisfeita se minha (muitas vezes chocada) reação ao que acontece nos EUA provocasse algum espanto. Ou algum interesse pelo que escrevo.

Bem que eu pensei em intitular essa crônica “Cidadãos de segunda classe”, mas, vamos combinar, estou longe de chegar a esse ponto. Sou bem menos que uma cidadã nos Estados Unidos, algo que poderá mudar ou não no espaço de uns dois anos. Quer dizer, se eu me “comportar” direitinho a estudar a História americana, aprender quantas estrelas tem a bandeira e por aí vai, além de, é claro, aprender a falar inglês direito.

História? Inglês? De que diabo estou falando, afinal?

Hoje, pelo menos, acredito que muitos americanos estão tão confusos quanto eu por conta da prova definitiva de que existem em torno de 300 milhões de “pessoas de segunda classe” nos Estados Unidos, isso mesmo. Se os Clintons são gente de primeira classe e estão acima da lei (o que, ironicamente, me lembra um dos slogans de Donald Trump, supostamente também adotado pela “supremacia branca”: “América em primeiro lugar”), então todo o resto, com a exceção de Obama e alguns de seus “asseclas”, é na verdade gente de segunda classe: eu, você e qualquer um que a gente puder lembrar assim de repente. O que inclui até Donald Trump, o infeliz bilionário que achou que estava podendo, e até ousou sonhar para si um futuro político.

Abrindo um parêntese: já pensaram como vai ficar a “Marca Trump” depois que ele for derrotado nas próximas eleições? Coitado. Vai acabar numa situação pior do que a minha.

Todos esses pensamentos me vieram à cabeça quando assisti ao pronunciamento de James Comey, diretor do FBI, referente à exaustiva investigação sobre os e-mails de Hillary Clinton, a mesma exata questão que já faz um tempão Bernie Sanders considerou desprovida de interesse. Vai daí que Hillary não vai mais ser indiciada, e lá se vai o sonho dourado dos conservadores (e de alguns independentes) nesta eleição presidencial americana.

— Não se precipite — Alan me aconselhou. — Vamos dar um tempo e ver o que rola.

E ele pode muito bem estar com a razão. O depoimento de Comey acabou saindo tão parecido com uma condenação que até o New York Times o descreveu como um “anúncio de ataque por encomenda”. Que Donald Trump, por sinal, rapidamente metabolizou num vídeo viral.

Tá certo. Certas coisas são difíceis de se negar. O lado bom disso tudo para a Sra. Clinton, afirmou o jornal, é que “este não é um ano eleitoral como os outros”, claro que não. Alguém fora do espectro político tradicional ousou desafiar os poderes estabelecidos — e a Sra. Clinton — embora esta pessoa, vamos combinar, não esteja se dando tão bem assim. Além do mais, as pessoas esquecem rápido. Tudo depende de quanto dinheiro for investido no tal anúncio de ataque e na velocidade com que Donald Trump conseguir finalmente “agir como um presidente”, o que não deve ocorrer tão cedo, aparentemente.

Numa jogada espetacularmente bem orquestrada (Abertura: Loretta Lynch, procuradora-geral americana, encontra Bill Clinton na pista do aeroporto em Phoenix, Arizona; Adágio: Hillary Clinton é interrogada pelo FBI num sábado de feriadão, 3 de julho; Minueto: James Comey, do FBI, lê seu depoimento ao vivo na TV; e Alegro, con Brio: Obama e Hillary fazem campanha juntos na Carolina do Norte), Obama embarcou numa jornada patriótica para eleger Hillary e assim proteger seu amado “legado”. Afinal de contas, ela tampouco estava se dando tão bem assim por conta própria.

Testemunhar os dois luminares atuando juntos foi um espetáculo de primeira. A inegável sabedoria política de Hillary (sem a qual ela não teria chegado onde chegou), agora com o reforço do inacreditável, nunca antes visto carisma de Obama, nos proporcionou uma experiência exaltadora. O presidente, a princípio, parecia meio entediado, sentado no pódio um pouco atrás da candidata enquanto ela descrevia as incríveis aventuras por que ambos haviam passado, pilotando lado a lado o avião teleguiado da política americana (só fico pensando quantos de seus aparelhos digitais ela teria usado para atingir seus alvos remotos). Mas quando foi chamado à arena, Obama não decepcionou, entrando instantaneamente na pele do personagem que ele encarnou com rara perfeição, instigando a plateia sedenta: “Hi-lla-ry! Hi-lla-ry!”

Ela olhava para ele com franca adoração (nem estou exagerando, juro) enquanto ele a descrevia como a “pessoa mais preparada, homem ou mulher, que jamais concorreu à presidência dos Estados Unidos”. O presidente foi em frente, passando a contar para o público em delírio como ela estava sentada ao lado dele na sala reservada da Casa Branca, enquanto a equipe assistia aos soldados americanos finalmente eliminarem bin Laden do outro lado do mundo. Um momento inesquecível. Menos de duas horas antes esse mesmo comportamento admirável — o “jeito com que Hillary lidou com informações altamente secretas”, de acordo com o FBI — tinha sido descrito pelo investigador-chefe como “extremamente descuidado”. Qual versão deveríamos acatar? Como uma recém-chegada, que admira os EUA enquanto nação baseada na lei — em franco contraste com o Brasil, temos que admitir — me senti decepcionada, para dizer o mínimo. Isso, para nem mencionar a “busca da felicidade”, conforme determina a constituição americana. Foi quando as minhas esperanças começaram a se esvair.

Só fui entender cem por cento a seriedade e as consequências dessa situação, digo, desse descuido de Hillary, quando escutei na Fox News (tudo bem, “mídia direitista”) que ela agora estava vulnerável a todo tipo de chantagem e outros violentos ataques de hackers — gente que, infelizmente, não admira os Estados Unidos do jeito que a gente gostaria. Fico cá comigo imaginando se o povo realmente entende tais implicações.

Nesse meio tempo, não muito longe dali, Donald Trump capitaneava seu próprio comício em resposta ao tão ansiosamente aguardado depoimento do FBI. Que, por sinal, todo mundo, incluindo o meu amado marido, esperava que terminasse de outra maneira, isto é, recomendando o indiciamento de Hillary. Mas, aparentemente, a “magia” de Trump tinha desaparecido, eclipsada pelo charme cintilante de seus competidores, que crítica nenhuma, por mais ferina, conseguiria dirimir. Embora desse para perceber alguma verdade no que ele estava falando, tudo aquilo soava mais como um blábláblá meio sem sentido. Duvido muito que o público presente estivesse prestando atenção.

Devo admitir que meu principal motivo para apoiar Trump é seu estilo direto, seu vocabulário franco que até mesmo gente de segunda classe como eu consegue entender. Isso mesmo: como imigrante, me sinto como uma pessoa de segunda categoria quase o tempo inteiro, independentemente de estar satisfeita ou não com o rumo dos acontecimentos. Embora, é claro, pudesse ser muito pior: se eu fosse ilegal, seria uma pessoa de terceira, quarta, quinta categoria, o tempo todo assombrada pela ameaça da deportação. Coisa que, aliás, é bem menos frequente do que eu tinha imaginado.

Na verdade, esses meus pensamentos de segunda categoria — agora, ainda por cima, com um viés de direita — têm aumentado consideravelmente esse meu mal-estar do qual um dia espero me livrar. Contanto que prove estar certa em alguma medida, de preferência com referência a algo bem crucial, como, por exemplo, acertar com antecedência o resultado das eleições americanas. A pressão da oposição é tão forte que mesmo quando “a gente” ganha, a gente perde, e fica o tempo todo se reexaminando, como no caso do Brexit, por exemplo. Tem que ter muito peito para ir contra esse bem aparente tão convincente exibido pela esquerda. E ainda por cima com esse charme todo.

Francamente, Donald Trump pode no final não ser a oportunidade ideal para a gente se fazer ouvir, mesmo que as ideias contidas no tal “legado de Obama” sejam tão assustadoras e seus resultados concretos tão perigosos para o mundo.

Andam dizendo que existe um “movimento mundial” contra os políticos tradicionais, o que, em tese, favoreceria a escolha de não-políticos para cargos importantes. Mas, comparada às altamente sofisticadas técnicas da política partidária, a verdade nua e crua parece difícil demais de aceitar. Isso, sem nem mencionar o fato de que a verdade sempre nos escapa, não tem nada de “evidente”, ao contrário do que afirma a Constituição dos Estados Unidos, mais ainda num mundo como o nosso, que se tornou tão complexo. Lidar com essa verdade custa tempo e esforço, e a nossa tendência em geral é de deixar pra lá, e deixar a vida rolar.

E imaginem que ainda nem mencionei uma outra tendência mundial apontada esta semana pela BBC, desta vez com relação a mulheres no poder — mulheres como Angela Merkel, a provável nova primeira-ministra inglesa Theresa May, Hillary Clinton… mas também a arrepiante Marine Le Pen da direita francesa e a nossa incomparável, inesquecível Dilma Roussef, que entrará para a História como aquela que derrubou o Brasil de uma penada só. Cuidado!

Caramba, que traidorazinha desprezível, hein… descrevendo meu próprio (e estável) gênero desse jeito degradante! Que vergonha!

Pois é. Tudo como d’antes no quartel de Abrantes. Vamos ver aonde esse sofrimento sem fim vai acabar nos levando. Para me consolar, fico o tempo todo lembrando a mim mesma que, não importa o resultado das próximas eleições, teremos de qualquer maneira alguns netos judeus brincando na Casa Branca no ano que vem. Muito bom.

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