Geração Facebook

Eu podia estar roubando, eu podia estar trabalhando, mas estou aqui navegando para encontrar o passado no Facebook.

Não sei o que me deu, sinceramente. Minha intenção de cutucar o passado se resumia a princípio em regredir até as resoluções de ano novo do ano passado, sabem como é, num livro como este tão longo, cobrindo as 60 semanas cruciais que me separavam da fila de idosos e outros privilégios que eu nem diria tão gostosos (intervalo para autocongratulação, “ah, Noga, rimar idoso com gostoso, só você mesma…”), dá pra revisitar no mínimo um Natal e um ano novo. E escrever, como disse, digo, escreveu a Lili, jovem e sábia colunista da KBR, é “como jogar uma garrafinha no mar e ter a esperança de algum dia você mesmo recebê-la de volta”, era tudo que eu queria, juro, mas com a linha do tempo, dou adeus ao suspense da garrafinha.

Ah, tá bom. Sessenta semanas que na minha linha do tempo, que dirá na da cultura da humanidade, não passam de um breve centésimo de segundo ou muito menos que isso. Uma das coisas incríveis do trabalho de cronista em tempo real é, justamente, brincar com o realismo do tempo, tudo o que já foi será, do jeito que, ah… melhor deixar pra lá. Tudo nunca mais passará.

Pois o ano passou tão depressa que nem deu tempo de eu me surpreender com a minha própria eficiência, me cumprimentar pela minha paciência e realizar parte daquilo tudo a que me propus. Ainda estou propondo as mesmas coisas e buscando as mesmas soluções, embora o catálogo nesse meio tempo tenha dobrado de tamanho e o Facebook, como vocês sabem, revolucionado a nossa memória. Aqui se divaga, e enquanto isso se consome alguma coisa.

Quando vocês estiverem lendo este livro, por exemplo, que hoje nem livro é, apenas a crônica da próxima semana com bem mais do que a intenção de publicar um livro embora vocês nem saibam que estão participando disso ao vivo, imaginem, já lançado no início do ano em que o fim do mundo terá falhado mais uma vez, Harry Potter, morto e derrotado no colo desolado do gigante que o carrega — engenhosa essa ideia de o mal que nos aflige residir no mais recôndito de nós mesmos, aprendam aí, de sermos nós mesmos o germe de nosso pior inimigo, todos cães correndo atrás do próprio rabo —, ah, digressionei. Mas tive a certeza de que no final me reinventei.

A geração Harry Potter não é obviamente a minha, mas sou do tempo em que a tecnologia virou de cabeça pra baixo o nosso dia-a-dia, que magia o quê, dando a cada um de nós a “mãe de todas as varinhas”, aquela, que ao nosso exclusivo toque na tela descortina diante de nós tudo o que já vivemos nesta vida, e mais, ainda permite que a gente apague ou acrescente algo pra dar uma levantada bandida.

Bem, tudo, tudo, não, apenas desde que o Facebook foi inventado, claro, e havia vida antes do Facebook? Havia, uai. Mas, como diz o popular, perdi o login e a senha… e ainda por cima mudei de email.

À mesa do almoço, aquela mesma mesa do mesmo restaurante do mesmo almoço festivo do dia em que me decidi finalmente a ler o Ulysses três ou quatro anos atrás, meu velho tio intelectual — que nesse dia completa 87 anos, maravilha —, em vez de fazer pouco como sempre de minhas profundas intenções culturais, me pergunta o que fazer com esse tal Facebook onde ele acabou de criar um perfil. Há muitos anos viemos sempre aqui, compartilhando esse pós-natal em família que mais parece um aniversário, vamos combinar, mas devo confessar que ainda mais chocante do que o bolo de plástico com vela a pilha é a quantidade de aplicativos no smartphone dos convidados, francamente, até a bisnetinha de um ano de idade está brincando… com um celular, ainda se passaram muitos anos até que ela decida se livrar, gesto repetido em tantos filmes ultimamente e que no derradeiro Harry Potter aparece simbolicamente com a quebra e o descarte da “mãe de todas as varinhas”, aquela que poria o mundo a seus pés, pra que alguém haveria de querer isso? (Editor, por favor, não corrija a minha confusão no tempo, no tempo do verbo, digo, é tudo puramente voluntário, nenhum Alzheimer por enquanto, prometo, quer dizer, acredito, o editor sou eu, meu “editor interior”.)

Mas certas coisas, vocês sabem, não mudam nunca. Meu velho tio senta-se ao meu lado e me conta que aos treze anos já tinha lido toda a coleção de obras pornográficas do pai, e a única coisa de que se lembra é de uma passagem das memórias de Casanova onde um pintor, morando em Portugal, passava maus bocados por conta de seu nome que no país soava um pouco complicado, digo, comprometedor, Caracci, caralho, ou algo assim, e neste ponto, amigos, vou mudar de crônica completamente, antes até de contar pra vocês que já posso passar de ano porque tirei dos meus ombros, neste fim de semana, um grande peso, daqueles que bloqueiam a respiração e que há mais de três me abafava mesmo.

Vou ao Google buscar o nome do tal pintor pra não escrever besteira e encontro um projeto tão grande, tão interessante e ambicioso que me deu um impulso louco de largar tudo, pelo menos nos meus dois dias de férias anuais, e mergulhar com vontade nas tais memórias completas, hoje disponíveis no Gutemberg — já meu velho conhecido dos tempos de Joyce — e também na Biblioteca de Harvard digitalizada pelo mesmo Google em epub, mobi, pdf e sei lá mais o quê, com a ressalva de que “estas memórias não foram escritas para crianças, podem ultrajar leitores que também se ofenderam com Chaucer, La Fontaine, Rabelais e com o Velho Testamento”, hahaha, maravilha essa coisa de livro digital. E pensar que eu já ofendi os leitores myself, um mal das verdadeiras memórias: mandar ver.

“As coisas foram sempre assim”, prossigo lendo online, afinal de contas toda essa conversa começou porque recomendei ao meu tio — com a ressalva: “É uma pornografia, hein…” — a leitura do último livro que publiquei no ano e que teve uma bela capa recusada por todas as livrarias porque continha uma xoxota explícita, pois é, as coisas foram sempre assim, “Carlos III morreu louco; a Rainha de Portugal está louca; o Rei da Inglaterra esteve louco e alguns dizem que ainda não está curado. Não há nada de espantoso nisso; um rei que tenta cumprir seu dever é quase forçado à loucura por sua enorme tarefa”, imaginem então digitalizar e converter toda a biblioteca mundial, mas o que tem sido feito é exatamente isso, em breve na sua linha do tempo, é ou não é de arrepiar?

É isso aí. Não sei se é por estar, literalmente, ficando velha neste janeiro, ou se é que por baixo da superficial linearidade das novas gerações conectadas — sufocadas por tanta informação que mal conseguem se organizar para consultá-la — existe um manancial de riqueza cultural tão profundo e ao mesmo tempo tão acessível que nada sobra pra gente desejar, que dirá pra resolver alcançar, ufa, que encerro ano, crônica e livro sem tomar resolução nenhuma.

Fim de livro é foda. Deixa rolar.

E um bom 2012 procês.

 

Crônica publicada aqui. E aqui.

 

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *