Globo de lata

obamaQuando o charmoso, carismático personagem adentrou o plenário, o mundo em suspenso parou para observá-lo: um sorriso aberto, cativante, dentes muito brancos, uma simpatia irresistível irradiava do mais alto dignitário da nação — segundo ele mesmo, de todas as nações.

Não tardou para que o silêncio reverente fosse rompido por um turbilhão de aplausos, todos de pé, entusiasmados.

— Sentem-se por favor! Fiquem à vontade!

O espetáculo estava para começar. Na plateia, alguns candidatos ao posto de próximo superstar observavam atentos, enquadrados pela câmera de tempos em tempos, tentando captar o código de atuação misterioso que fazia daquela criatura a mais perfeita encarnação, o ícone inesquecível de nossa mais idealista concepção. Que prazer! Que emoção!

Seguiu-se um dos discursos mais empolgantes de toda a temporada política. Em pé no pódio, as mãos firmes e o olhar cintilante, o incensado ator de olhos lacrimejantes destilava suas sábias palavras no tom correto — às vezes suave, outras incisivo, sempre eficaz.

Um a um, seus incontáveis sucessos foram sendo enumerados. E, como não poderia deixar de ser, o momento “mea culpa” nos levou de roldão para que nos identificássemos com a inevitável perspectiva da falta, da falha eventual: “Errar é humano”. E vamos em frente.

Para elevar o astral, a promessa magistral:

— Façamos da América o país que vai curar o câncer, de uma vez por todas!

Isso! Oba!

O testemunho final nada deixou a desejar, para um país que anda carente, não só de confiança em suas próprias instituições, mas também em seus líderes institucionais:

— Os Estados Unidos são a nação mais poderosa sobre a Terra. O “estado de nossa união” prossegue firme e forte!

Oba!

O problema, meus amigos — e não estou sozinha nisso, até os amados e ex-incondicionalmente-admirados colunistas liberais estão falando sobre isso — é que é tudo teatro, e tanta falsidade pôde ser detectada ao longo do discurso ufanista na expressão de incredulidade insistentemente exibida pelo presidente do congresso, Paul Ryan, que é da oposição. Este país pujante e poderoso que Obama descreveu no púlpito simplesmente não existe. Segundo o Gallup, 79% dos americanos estão preocupados e insatisfeitos, e não seria Obama no pódio “jogando para a galera” que iria mudar isso.

Muito safo, Obama optou por não ressaltar em seu último discurso anual no Congresso sua “guerra contra a posse de armas”, além de ter evitado cuidadosamente outros temas igualmente espinhosos. Mas a ávida plateia não foi poupada de uma conclusão apocalíptica ou duas:

—  O ano de 2014 foi o mais quente da história… até que 2015 tomou o seu lugar.

E aqui vou precisar de um parêntese, me desculpem. Sou daqueles “poucos, isolados, discriminados” conforme o próprio Obama ressaltou — o “ignorantes e idiotas” não foi acrescentado à lista de nossas péssimas qualidades —, que se incluem entre os infelizes descrentes da ameaça humana ao aquecimento global.

Eu já vinha me incomodando com o assunto desde que as temperaturas médias de dezembro aqui no nosso rincão estavam bem mais altas que o de costume, embora eu não seja exatamente uma autoridade naquilo que “é de costume” nesta cidade onde moro há pouco mais de um ano, mas que estava bem quente, estava. Vai daí que escutei o incensado Leonardo DiCaprio, “embaixador do clima”, discursar em Paris para “dar o tom” das conversações internacionais destinadas a “salvar a humanidade de si mesma”, se é que vocês me entendem. Estava meio quente, tá certo, mas a verdade é que o ano em questão nem havia terminado… como seria possível classificá-lo com tanta certeza?

Alan já tinha me tranquilizado, mas, como vocês sabem, não confio em ninguém, e nele muito menos. Então fui por mim mesma checar as tais “determinadas” de que DiCaprio tão seguramente falava, 98% da comunidade científica etc. e tal.

Amigos. Os dados disponíveis são tão dúbios e enrolados que duvido um pouco de que qualquer leigo os entenda. Além do mais, uma carioca por adoção como eu não deveria se espantar nem um pouco com uma ilha de clima quente em meio ao inverno (in)clemente. Afinal de contas, por quantos “veranicos” no auge do inverno eu já tinha passado? Ainda por cima com um El Niño sendo considerado como o (segundo) mais forte já registrado?

Mas lá estava o glorioso DiCaprio, hoje feito ainda mais glorioso por seu recente Globo de Ouro. Para mim, de lata. Não vos parece auspicioso que em vez de o “embaixador” em questão ser um cientista criterioso, o tal encontro oficial optou por uma celebridade de Hollywood?

Ator, Houaiss: “aquele que sabe fingir, farsante”. Ou, para ser mais poética como exige o instante, “um fingidor, aquele que finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Pô. Peraí.

Enquanto escrevo, o tão antecipado aviso de deixar as torneiras pingando para evitar o congelamento da água nos canos, tão detestado no ano passado, ocupa sua tão aguardada e muito bem-vinda posição no gramado seco do condomínio. Está 9 graus, dia ensolarado, um frio do cão. Vai nevar no domingo. Alguns dias do mês serão mais quentes, outros mais frios do que a média histórica local.

Fim do parêntese.

Enquanto isso, nas redes conservadoras discutia-se a todo vapor o papel instigador — instigador de confusão, digo — dessa “gente de teatro”, um debate enriquecido pelo recente escândalo de Sean Penn na Rolling Stones, entrevistando “El Chapo” e fazendo as vezes de (mau) jornalista. Me poupem.

A noite cívica ainda não tinha terminado, e boa parte do eleitorado terminou compensada pelo discurso discreto, racional e bem balanceado da mais discreta ainda Nikki Haley, governadora do “nosso” Estado, Carolina do Sul. Orgulho!

Descendente de imigrantes legais — Alan faz sua “dancinha feliz” apontando para mim, et voilà, estamos bem na fita —, Nikki era a imagem exata da autoridade centrada, bem informada, confiável. Comento com ele que eu lamentava que nossa governadora não estivesse madura o suficiente para se candidatar a presidente, caso em que estaríamos razoavelmente bem arranjados. O contrário da realidade a que estamos confinados, com os candidatos de oposição — vamos combinar, a possibilidade de uma nova vitória da situação é francamente impensável — se digladiando para ver quem soa mais irresponsável.

Me confesso perdida, meus amigos. Estamos até fazendo as contas para ver como nos sairíamos financeiramente numa eventual volta ao Brasil, onde, com o dólar (e o diabo) a quatro, estaríamos muito bem posicionados. Isso, para não mencionar a… deixa pra lá. É tudo brincadeira, de qualquer maneira. Lembram daquilo que a gente dizia bem lá longe, quando Lula era apenas uma ameaça no horizonte?

“Se Lula for eleito, o último a sair do aeroporto favor apagar a luz”, ah, é mesmo, isso não se referia a Lula em absoluto, a não ser para os mais caretas naquela época, entre os quais, para variar, eu estava incluída. Substitua-se “Lula” por “Hillary” e estaremos bem encrencados, bem, como todos sabemos, toda promessa de inevitável fracasso costuma tardar, mas nunca falha.

Por email, uma amiga querida se confessa chocada com meu forte posicionamento “maria-vai-com-as-outras” contra o governo Obama, e, por extensão, contra o Partido Democrata. Que, como todos sabem, nós, intelectuais e guias da manada, temos a obrigação moral de apoiar.

Não posso fazer nada. Só posso esclarecer que quem está vendo tudo isso de fora ignora bem mais que a metade da parada. Vivendo no país, a gente está exposta a uma overdose de informação democrática diária, que inclui estações de TV de orientações variadas, centenas de programas de entrevistas à escolha (da ideologia) do freguês e até um canal ou dois que se reputam realmente isentos, limitando-se a transmitir os acontecimentos sem meter o seu bedelho em sua respectiva interpretação, como os C-Spans, por exemplo, um tipo de “TV Senado” que deixa a chatice de lado.

No mais, resta-me lamentar que a vida só venha a confirmar que, em qualquer local ou situação, a grama do vizinho continua sempre mais verde, sem exceção. Quanto à minha desolada amiga, não teve outra saída a não ser me responder com um monossilábico “obrigada por sua explicação”, quando eu terminei minha explanação com uma afirmação curta e grossa:

— Vou acabar no “The Donald”, quando perderei sua amizade, rsrs.

 

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