Golpe baixo

nuclearNow I am become Death, the destroyer of worlds.[1]
J. Robert  Oppenheimer, diretor científico do Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica.

 

Como ocorreu com John Kerry, também me chamou a atenção esta semana o 70º aniversário do bombardeio de Hiroshima (será que eu deveria dizer obituário, aniversário de morte, me falta a palavra, será o memorial ou serei eu a desmemoriada?), em 6 de agosto de 1945. Mas creio que por motivos bastante diferentes.

Neste caos, ops, caso, não se pode apelar para aquela frase feita em espanhol, e se tento fazer graça, confesso, é por puro nervoso. A coisa é séria demais, e não acredito que tenha sido nenhuma coincidência o discurso de Obama na véspera da tal efeméride destrutiva, o fato de ter sido de véspera sendo apenas o disfarce que confirma a assertiva.

Não fica muito claro, no entanto, quem seria, quais seriam as próximas vítimas fatais de um novo avanço nuclear, então, seria o ditado correto “o feitiço contra o feiticeiro”? Contra o mágico de Oz, nesse caso um Obama justiceiro?

Que me desculpem os compatriotas brasileiros, mas é que enquanto a nossa pátria agoniza, dolorosamente, tá certo, por uma questão que, vista bem por baixo, não passa de ganância e de um espetacular montante de dinheiro, aqui nos Estados Unidos a semana foi marcada tanto pela posição de Obama, a defender com garras e sorrisos sua ganância política, quanto pela oposição a Obama, numa (bastante) prévia disputa travada nos estertores do partidarismo democrático e levada ao ar no debate republicano da Fox News, durante o qual, apesar de ter me preparado tanto para assistir, eu infelizmente dormi, portanto, nada a declarar — ambos os eventos tendo como destaque os destinos do mundo, não os detalhes finais do enterro do já mumificado PT, sorry, periferia (quanto a este “periferia” aí, tudo o que tenho a dizer é que durante o debate da Fox o “politicamente correto” foi morto e enterrado por Donald Trump, perdeu, acabou, e isso até que foi bom).

Poderíamos até nos voltar para a eterna polêmica do ataque a Hiroshima. Teria mesmo sido necessário? A guerra já não estava ganha? Claro, ninguém pode mudar o passado, nem ninguém, imagino, gostaria de estar vivendo num mundo onde os Estados Unidos fossem os grandes derrotados na Grande Guerra, mas teria sido moral permitir que humanos passassem por tal sofrimento? E passam até hoje, segundo as últimas pesquisas?

Bem, na mesma triangulação belicosa havia vários outros humanos envolvidos, alguns milhões, que haviam passado recentemente por um sofrimento não sei se maior, mas certamente mais consciente, mais humilhante, mais animalizante.

São memórias duras, não conclusivas, melhor deixar pra lá.

E eis que três atores, três pernas do mesmo banco humano de memórias, que cremos que desabaria se uma delas fosse retirada de repente, se veem novamente confrontados no mesmo tabuleiro: o poder nuclear, os Estados Unidos, e aquele eternamente enervante povo judeu, hoje abrigado pela complicada insistência, ops, existência de Israel.

Alan me disse que para entender o que são os Estados Unidos eu precisava entender o que eram os Estados Unidos na década de 1950, logo após a vitória na Segunda Guerra, e tome uma dose de filmes antigos na veia, jovens mimados e gente milionária e bem-vestida passando férias no Havaí, um Havaí que poderia nem mais existir caso o resultado da guerra tivesse sido outro, afinal de contas, Pearl Harbor estava logo ali.

Parecia tudo de bom, gente curtindo a vida, e visto de fora era mesmo o que a gente entendia. Mas ali estava uma geração inteira que havia sido marcada por uma guerra terrível, onde milhões haviam perecido há menos de dez anos atrás. Estavam tentando o seu melhor para seguir vivendo, se é que vocês me entendem, então a solução era usufruir o que de melhor a vida tinha para oferecer: surfar, namorar, gastar muito dinheiro.

De lá para cá entraram tantos fatores nesta velha equação que nem em dez anos de crônica eu poderia discuti-los. O fato é, que sob o chapéu “protetor” de um arsenal nuclear que tantos se comprometem a não usar, a vida se complicou, sempre monitorada por um grande poder conjurado através de… pasmem, um legado do nazismo alemão, que nem todos percebem ativo no dia após dia e que nem um milhão de bombas atômicas conseguiria destruir: a propaganda política.

Um pulo no tempo e cá estamos em frente à televisão para um longo (e pretensamente abrangente) discurso de Barack Obama em defesa de seu acordo nuclear com o Irã que mal tenho tempo de assistir, é de manhã, preciso trabalhar, mas ele lá está sorrindo incompreensivelmente enquanto desenha um quadro que pretende ser convincente no qual, sem que a lógica da vida real assim o justifique, define o atual rumo dos nossos piores, mais fatais  aborrecimentos como uma escolha bipolar entre a guerra e o acordo nuclear, os dois caminhos, segundo ele, constituindo “todas as opções sobre a mesa”.

Deveríamos entender que Mr. Obama, por puro milagre (e como já vimos um pouco antes por puro oportunismo histórico), conseguiu esse acordo no último minuto antes de o Irã decidir partir para “ameaçar soldados americanos no Iraque com milícias xiitas, ameaçar Israel com ataques de mísseis perpetrados pelo Hezbollah”[2]? Mas, gente, isso já está acontecendo há anos, não é novidade nenhuma. E essa retórica toda sobre o acordo como a única opção à guerra é apenas isso e nada mais: uma retórica bem-bolada. Posso não ser a favor da guerra, mas certamente sou a favor de acordos diplomáticos seguros, e aqui é melhor dar aquela paradinha para uma reflexão.

Mesmo os mais graduados personagens do Teatro de Viena parecem ignorar dados cruciais do acordo que Obama insiste em vender como “altamente confidenciais”, tão confidenciais que nem ele mesmo deve ter lido, então quem mais? Do outro lado da mesa, oculto e onipresente como uma entidade de umbanda prestes a incorporar, paira o profundo pensamento do Líder Supremo Ali Khamenei, publicado esta semana num livro que ninguém vai ler, mas que descreve nos mínimos detalhes sua bem-bolada estratégia para destruir Israel sem ninguém perceber, principalmente seu maior “aliado”, os Estados Unidos, eu sei, eu sei, a frase ficou confusa de propósito, okay?

Até perdeu a graça a piada que contei no outro dia para um amigo brasileiro, onde eu descrevia como o compromisso do Irã em destruir o Estado Islâmico para os Estados Unidos (e para todos nós, aliás, sendo este EI o mais recentemente detectado câncer metastático da humanidade) aparecia no acordo com aquelas letrinhas pequenas de contrato de seguro que ninguém consegue ler, desgraça pouca é bobagem. No caso em análise (ui!), como já disse, mas não custa enfatizar, mesmo os mais graduados oficiais cooptados parecem ignorar detalhes do documento que permanecem secretos em sua maior parte, nem precisa mencionar as tais letrinhas.

A brilhante apresentação de Obama para sua mais alta aspiração à eternidade foi, vamos combinar, um golpe baixo no nosso espírito de humanidade. A poucos meses de sua arrancada final, tudo em que Obama parece estar pensando é que precisa arrumar uma maneira, seja ela qualquer for e seja qual for o preço a pagar, de concretizar a “Paz Nobel” a que foi condenado nos primeiros dias de seu primeiro governo, tampouco sem base alguma na lógica da vida real, justificando assim de um só golpe todas as suas “profecias” para um mundo em estado terminal.

Um minuto final para o intervalo comercial. Fui.

Shalom!

[1] “Agora me tornei a Morte, sou o destruidor de mundos.”

[2] A citação é do tendencioso editorial do NY Times.

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