Haraquiri

Como não existe mais respeito a nada, a ideia da imagem foi hackeada do livro de minha amiga Ana Cecília, "Livro neurótico de receitas".

Como não existe mais respeito a nada, a ideia da imagem foi livremente hackeada da capa do “Livro neurótico de receitas” de minha amiga Ana Cecília de Carvalho.

“Todo dia eu só penso em poder parar”, ah, é, pois é, esqueci. Desde seu explícito apoio ao PT nas últimas eleições não se pode mais citar Chico Buarque em lugar nenhum que se considere politicamente correto. Eu até queria intitular esta crônica “2014: o ano em que Chico Buarque foi proibido”, mas fiquei com receio de ser criticada por alguma dica histórica mal mencionada, isso não foi há anos, durante a ditadura militar? Ah, não, aquele não era o Chico, era o Julinho da Adelaide, a poesia de Chico estava acima do que se poderia impedir, sempre haveria uma receita de vida para a gente se distrair.

Taí. O Brasil hoje em dia anda tão moralmente relativizado que tem gente aí querendo — e em público, imaginem —, a volta da dita dura, só mesmo um fuzil na fachada para dar uma ajeitada nessa bagunça em que o país se afundou, vocês não iam querer isso de verdade, não é mesmo? Militarizar a disciplina, digo.

Mas bem que eu gostaria de ver dona Dilma de frente para o paredón ajoelhada no milho e pedindo perdón, só de brincadeirinha, pois depois da recente “abertura dos portos pelo rei dos Estados Unidos” o paredón virou peça de museu, absurdo completamente anacrônico retratado na parede do Coliseu onde leões e gladiadores, todos viciados em consumir computadores, se despedem de vitalícia roubalheira no Senado Federal atravessando o Rubicão no sentido contrário. Vida longa à vanguarda do Maranhão, ops, desculpem.

Depois de arre(ca)dados todos os obstáculos legais, misturaram-se completamente todas as noções de sociedade patronal, paternalista, digo, enfiadas sem nenhuma respeitabilidade no saco de bondades do “cartel da leniência”.

Tá bem. Também eu estou de saco cheio nesta viral do ano, doida para decretar neste fim de semana terminal uma espécie de “férias coletivas” para todos os meus eus.

A bem da verdade, 2014 foi o ano em que eu “escapei”, realizei o sonho de 9 entre 10 brasileiros insones e enfiei no saco a viola da fiel nacionalidade, algo, em verdade vos digo, já de nascença confuso para mim. Mas desde que aterrissei neste porto seguro do lado de cá ainda não pude me convencer a confiar em nenhum pretenso senso de estabilidade, pois meu coração escorregou feio na curva do câmbio descontrolado adiando a supostamente tranquila adaptação, ufa, para não mencionar os compromissos de crédito. Em resumo, ainda não consegui me sentir liberada do impositivo “efeito Brasil”.

Ok. Sou muito neurótica, mesmo, reconheço. Basta uma leve piscada para ser cooptada por algum novo hábito diário obrigatório, e agora, ainda por cima, me vejo viciada nos crimes em série que se cometem em nome do povo, francamente: o Brasil se tornou o saco de pancada da corrupção institucionalizada, e além do nome sujo na bolsa de valores globalizada, temos que lidar com a vergonha de nossa “líder” posta por si mesma acima de qualquer suspeita comprovada pela justiça.

Todo dia ela faz tudo sempre igual: sacode a ilibada moral e aparece com um amplo sorriso nas manchetes de jornal, prometendo ao povo incauto “restaurar a confiança nacional”. Entendo bem também que nesta altura da delação reprimida incluir-se na nau dos condenados seria contentar-se com um honrado, porém político suicídio conceitual, evitar quem há de?

Mudou o mundo ou mudei eu? Nem no espectro do sol nascente se faz mais haraquiri como antigamente, muito pelo contrário, se cede sem pejo às exigências dos hackers de lá para aterrorizar nosso senso de graça aqui, nem se pode mais ironizar uma desumanidade que ninguém consegue entender como pôde se abastardar tanto. Vamos combinar que esses atos vis de guerra cibernética, de um jeito ou de outro, terão que parar um dia, nem que seja pela galhardia de uma nova “pièce de résistence”, generosamente patrocinada pelo domínio mundial da literatura motivacional.

Se a gente perdesse a liberdade de falar mal do governo como gostaria, que tipo de democracia nos restaria? No mais, percebam, é tudo comédia. Claro, confundo de verdade.

Ok. Estou imprestável hoje. Porque como todo um país, países, onde a mera noção de correção social parece ter perdido toda a validade neste alvorecer de 2015, solapando a lógica do que norteia cotidianamente a realidade, sinto meu cérebro esgotado, transformado numa macarronada grudada, talharim passado do ponto depois de fervido vivo no excesso de informação diariamente compartilhado.

Poupem-me. Não quero saber de mais nada, nem de pizza nem de feijoada. Desligo temporariamente o botão da manada. Fui.

Um bom domingo procês.

 

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