Home is where your house is*

Alan in our recently framed house in Paris Mountain.

Alan na nossa casa recém levantada em Paris Mountain.

*Vamos começar por uma nota: não traduzi o título porque se trata de uma brincadeira com a letra de uma música muito popular há alguns anos entre os adeptos de Osho: “Home is where your heart is”. O primeiro quer dizer: “Lar é onde a sua casa está”; e a segunda, “Lar é onde o seu coração está”. Já deu para entender, certo?

Isso dito, vem mais uma pergunta: você aí, já perdeu US$ 915.729.293 num investimento em imóveis?

Acredito que não. Nem eu. E, para ser honesta, não faço a menor ideia do que significa um montante desses, mas, vamos combinar: esta semana mesmo hesitei um bocado antes de gastar a módica quantia de US$ 498 para divulgar o livro mais importante que já escrevi na vida, meu maior e mais significativo projeto… com a exceção dos que se seguirem, claro. Talvez por isso mesmo eu jamais tenha conseguido ser um sucesso (financeiro) nos negócios, vai saber. E talvez seja a hora de mudar, de decidir aceitar a pura essência do verdadeiro capitalismo que está por trás do American Way of Life. Como Trump sempre fez. Aliás, apesar da minha renda modesta, devo confessar que fiz o que pude e o que não pude, com a ajuda de um contador, para aproveitar todas as deduções possíveis na minha primeira declaração de imposto de renda em terra americana. Vocês acham que estou errada?

Bem, eu estava com tudo em cima para escrever mais uma crônica sobre política americana — pois é, de novo — quando percebi, subindo a sinuosa serra em direção ao nosso lote em Paris Mountain para acompanhar a obra da nossa casa, que tinha outras batalhas com as quais me preocupar. E apesar de já ter escrito uma boa quantidade de livros (pelo menos em português), ter plantado um bocado de árvores e construído uma casa maravilhosa no Brasil, a obra dessa casa na Carolina do Sul constitui indiscutivelmente meu maior desafio até hoje. Vou ter que deixar o filho de lado, pois é, infelizmente (“escrever um livro, plantar uma árvore, criar um filho”, vocês se lembram). Embora com certeza eu tenha brincado um pouco de mãe com o maior prazer, não só com meus enteados, mas também com as duas centenas de autores que publiquei até agora, e que consideram a KBR como um tipo de família, família literária, pelo menos.

É difícil descrever como me senti quando vi pela primeira vez a casa imponente, em toda a sua altura por cima da pirambeira; e ficou mais duro ainda quando decidi atravessar (engatinhando, tremendo de medo ao cruzar a tábua estreita e frágil) o fosso de um metro de largura por dois de profundidade que circunda atualmente o nosso castelo particular no topo do mundo — eu não aguentaria adiar por nem mais um minuto a hora de satisfazer meu desejo intenso de adentrar aquela casa. Para nem mencionar a igualmente indescritível emoção de testemunhar aquele projeto no qual você trabalhou em duas dimensões por dois anos inteiros adquirir uma terceira bem à frente dos seus olhos — um prazer inenarrável.

Trata-se, neste momento, do projeto n° 29, isso, somado ao elaborado por um arquiteto “profissional” que teve que ser descartado porque era impossível de construir, imaginem só. E ainda vai ser preciso um bocado de sintonia fina, para nem mencionar a complexa tarefa de escolher todos os acabamentos e revestimentos, considerando que cada pequeno detalhe deverá ser objeto de extensa discussão, já que Alan está almejando a “perfeita qualidade americana”. No lugar certo, desta vez.

Enfim, de qualquer maneira já dá pra sentir o fato de essa tão longamente aguardada edificação estar tomando forma como uma espécie de milagre, algo que durante os últimos 24 meses nos pareceu um sonho impossível.

Não foi nada fácil. Está fazendo exatamente dois anos que chegamos aos Estados Unidos, de minha parte como uma imigrante em potencial, com nosso patrimônio (magrinho, como não custei a descobrir) resultante da venda de outra casa dos sonhos que deixamos para trás juntamente com nossa vida periclitante no Brasil.

À época daquela outra construção no meio da Mata Atlântica, jurei por Deus que nunca, mas nunca mesmo eu iria me meter de novo numa empreitada pirada dessas: cada mínimo detalhe teve que ser objeto de extensa discussão (e traduzido pra lá e pra cá, porque o Alan nunca aprendeu uma só palavra em português), já que Alan estava almejando a anteriormente mencionada “qualidade americana” — que, obviamente, é inexistente no Brasil, um país sem padrões, onde praticamos a arte do improviso em todos os aspectos da vida nacional, entre eles a construção de uma casa.

Ainda me lembro perfeitamente do desespero do Alan quando ele descobriu que a parede dos fundos do segundo andar estava completamente torta. Para nem mencionar a decepção dele quando viu pela primeira vez a bela janela panorâmica da sala de jantar… ainda dividida em duas aberturas tímidas, modestas, estreitas demais, que logo foram substituídas pela abertura definitiva com a eliminação de uns poucos tijolos.

Certo dia, acordei em pânico no meio da noite, acordei o Alan e comuniquei a ele que a porta do banheiro tinha sido montada no caixilho abrindo na direção errada, coisa que, curiosamente, eu não tinha percebido enquanto estávamos na obra. E eu estava certa. Foi a coisa que deu mais trabalho para consertar em todo o projeto da casa. Mas assim que nos mudamos para lá, tivemos como resultado seis anos maravilhosos e intensamente produtivos, até que a situação do Brasil começou a degringolar para além do que poderíamos enfrentar.

Eu estaria mentindo se dissesse que hesitei por um minuto sequer antes de decidir vender a casa e ir embora para outro país. A cereja do nosso bolo foi encontrar o casal ideal, que valorizaria e cuidaria bem do nosso paraíso, e que até hoje nos envia fotos para mostrar como as rosas do Alan estão sendo muito bem tratadas: a herança que deixamos para outros curtirem, um toque de arte, engastado como um diamante branco no alto daquela montanha distante, localizada nas cercanias do Rio.

Como Alan costumava dizer, “ou você mora num santuário ou você o possui (na verdade ele dizia “monastério”, mas nossa casa no Vale do Sossego era mais um santuário mesmo, com a imponente massa de granito logo em frente e sua misteriosa inscrição triangular, mais os pássaros, macacos e árvores floridas no nosso entorno), não tenho ideia por quê. Nós moramos nele e também o possuímos. Até que o deixamos para trás para embarcar numa jornada que não tínhamos a menor ideia de aonde nos levaria, embora o Alan acreditasse que sabia…

Devo confessar que neste momento estou tão exausta de toda esta saga que tive que enfrentar que mal posso relembrar tudo o que aconteceu, como tivemos que começar do zero, construir crédito, construir credibilidade, e estabelecer as relações ideais… Hoje, felizmente, posso afirmar que, contratamos as pessoas certas. Embora, é claro, Alan fique com um pouco de inveja a cada vez que nosso empreiteiro aceita uma sugestão minha… bem, paciência.

E aqui estamos, correndo de novo essa maratona construtiva, preocupados com cada mínimo detalhe, prontos para deixar nossa marca de novo, mais uma herança, mais uma obra de arte no topo de uma montanha. Uma coisa bem interessante é que quando entramos na casa nova pela primeira vez, Alan ficou de novo decepcionado com a janela panorâmica da sala de estar (embora desta vez, vamos combinar, não esteja deixando nada a desejar, de verdade mesmo). Então ele pediu ao empreiteiro para derrubar um pedaço, desta vez feito de umas pranchas de compensado como é a praxe local.

A história se repete, isso é um fato. E a cada vez que isso ocorre estamos mais bem preparados, mais amadurecidos, mais experientes. No nosso caso específico, depois de quase 12 anos de tantas conquistas (e seguimos conquistando), devo admitir que ainda estamos empacados na nossa guerra de egos original, conforme o previsto pela nossa sinastria já nos primeiros dias do nosso relacionamento online. Mas, como todo mundo sabe, não acreditamos em Astrologia, e, por falar nisso, em nada nem ninguém a não ser a gente mesmo. Ou pelo menos é nisso que gostamos de acreditar (embora Alan com certeza vai sempre afirmar que acredita também em Deus).

Nada mal para um novo começo de ano, não é mesmo? (Estou falando do ano judaico, é claro.)

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