Impetuosidade comunitária

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Bem… (nunca comece uma frase com “bem”, grita o meu Alan internalizado).

E aí, bem antes da data aprazada, recebi meu Green Card pelo correio. Verde, como o próprio nome diz, embora muita gente diga que nem sempre é assim. Voltando da caminhada, fui descuidadamente abrindo o envelope prioritário a caminho do apartamento, e surprise, surprise, lindo, lá estava.

Junto vinham as instruções de “como ser uma boa imigrante” sem deixar de fazer muita força, ensinando como arranjar um emprego, alugar uma casa, enfim, se adaptar ao país e introjetar os direitos e deveres implícitos em toda e qualquer permanência em território americano.

Entre as providências recomendadas estava a rápida integração à comunidade, tanto através do direito à solidariedade como do dever de servir à sociedade, rima tanto e tão porcamente quanto a atitude benevolente em relação ao outro, algo que a gente pouco pratica no Brasil.

O curioso é que um amigo brasileiro tinha me recomendado justamente isso, que eu me “integrasse” o mais rápido possível à comunidade, através de cursos, programas para a “minha idade”, atividades comunitárias etc. O problema é que, apesar do meu passado de esotérica, detesto esse negócio de comunidade! Odeio gente ao vivo, não suporto compartilhar nada na realidade, só na internet, é claro. Afinal de contas, o mundo conectado acabou transformado num imenso shtetl global, onde tudo se sabe e tudo se comenta, e eu não ligo para a privacidade.

E antes que algumas pessoas se declarem ofendidas, especialmente esse amigo que mencionei e que também foi meu vizinho na vida real, vou logo dizendo que alguns moradores do Vale se tornaram meus bons amigos, aí a coisa muda de figura, se é que vocês me entendem. Nem por isso deixo de afirmar que gosto de estar sozinha, nenhum humano à vista a não ser o meu afortunado marido — às vezes nem ele, devido à sua energia impositiva.

Estando, porém, na delicada situação de estrangeira, talvez me fizesse algum bem uma tentativa de integração, pensei. Mas tal abertura de minha parte teve um follow-up bastante lamentável.

Alan, como vocês sabem, vinha me enrolando com a obra da casa, e sua última ação procrastinadora tinha sido inventar um pedido à municipalidade para encurtar o obrigatório afastamento — meio absurdos 30 pés, o que em medida de gente dá mais ou menos uns 10 metros. Os 15 que solicitamos facilitariam em muito a constrição, ops, construção, contei no outro dia o começo da história, mas não o drama que veio a seguir.

Conforme instruções explícitas (tudo é assim nos Estados Unidos), fomos ao terreno e lá fincamos com dez dias de antecedência uma placa padrão informando que estávamos solicitando algum tipo de alteração. Quem quisesse se manifestar deveria comparecer na data e hora marcadas. O que nem desconfiávamos era de que deveríamos antes de mais nada comunicar à máxima autoridade condominial qualquer coisa que pretendêssemos fazer, ou nossas ambições seriam sumariamente podadas (esta ameaça ficou apenas implícita num breve telefonema de véspera, seguido de uma notificação por carta que chegou depois da data). Alan fez como lhe foi solicitado e enviou a nova planta de situação para o presidente do “comitê de arquitetura” — que, aliás, não tem arquiteto nenhum, seria o mínimo, não é mesmo?

Qual não foi a nossa surpresa quando quase na hora da audiência adentrou o recinto uma nossa vizinha advogada, segundo ela mesma na qualidade de representante autorizada para “defender” o condomínio. Advogada? Pô, peraí.

Maldade. Falsidade. Fiquei passada, Alan, coitado, alterado, afinal de contas ele é que tinha não exatamente comprado, mas criado aquela “briga”.

Começou a sessão. Éramos o caso número 5. Um a um fui vendo os pedidos mais estapafúrdios serem atendidos prontamente pela comissão da municipalidade, uma mesa de seis presidida por um personagem bastante simpático. Para mim era tudo teatro, ou no mínimo um aprendizado do que seria mera formalidade: nos antecederam duas igrejas, uma estação de alta tensão e um proprietário de imóvel parecendo bem humilde, mal sabendo se expressar direito, pedindo para aproximar sua nova garagem do acesso em curva de sua propriedade. Tudo concedido ali, na hora, sem firula.

Eu estava otimista. Vai ser mamão com açúcar, pensei, intimamente.

Alan estava bastante nervoso. Além do desafio de conseguir o que queria ainda teria que me impressionar com sua eficácia e inteligente atuação, e isso, vamos combinar, não seria nada fácil; mais difícil ainda seria evitar que eu me metesse em sua brilhante apresentação. Quando chegou a nossa vez, Alan disse a que vinha e eu obviamente acrescentei um ponto ou dois, me desculpando por meu inglês de estrangeira. Em seguida foi chamada a vizinha, que veio com a absurda alegação de que a nossa modificação seria “perigosa” para o condomínio, visto tratar-se de uma rua em curva (mentira!) e com muito movimento (mais ou menos um carro a cada três horas!). Não consegui me conter:

— É uma rua privada! Nunca passa carro nem nada!

Além do mais, alegou a doutora advogada, nossa pretensão ia contra a “estética da comunidade”. E que estética seria essa? Ainda nem havíamos apresentado o verdadeiro projeto! Tratava-se de um condomínio ou de um tribunal de justiça?

Ok. Vou lhes poupar os detalhes tétricos. Mas não houve jeito de dissuadir o “juri” quanto ao perigo que a nossa causa representaria para os demais moradores, et voilà, fomos sumariamente rejeitados.

Custei a entender o que havia acontecido, francamente. Acho que ter recebido o ok da imigração tinha me deixado com aquela falsa impressão de invulnerabilidade, mais ainda porque três dos seis “jurados” pareciam completamente alienados, quase dormindo, justamente os que votaram contra nós. Bastante chocados, não obtivemos a necessária maioria de cinco votos.

Um dos componentes da mesa, um advogado tributário especializado em zoneamento como descobri mais tarde pesquisando no Google, ficou tão constrangido com a negativa que veio nos pedir desculpas pelo resultado adverso.

Alan ficou revoltado, nem quis falar com a figura “inimiga” depois do nosso sumário julgamento. Eu não estava ligando muito até aquele momento, nem tinha dado muita importância àquele negócio de afastamento, cuja possibilidade, aliás, estava agora definitivamente descartada, visto que é preciso esperar um ano para se solicitar qualquer coisa novamente. Um ano!

Mas virei bicho com o que se seguiu, digo, com os idiotas dos nossos vizinhos, convenientemente autodenominados “stonies” — é isso mesmo, parecem ter fumado, embora a maconha ainda resista estritamente proibida na careta Carolina.

Bem, nem todos, vamos suavizar. Ficamos sabendo que a nossa “mui amiga” nunca tinha sido incumbida de “defender” a integridade da nossa “comunidade” coisa nenhuma, ao contrário, tinha comparecido por conta própria à audiência.

Não importa. O simples fato de uma única pessoa ter se oposto às nossas modestas pretensões, caso único naquela tranquila tarde da comunidade de Greenville, motivou os votantes em contrário a não quererem se aporrinhar com o nosso caso nem se responsabilizar por qualquer eventual infelicidade, já que o nosso pedido primava pela “periculosidade”, segundo a doutora opositora.

Escrevi uma carta desaforada e postei para todos os dopados do condomínio. Não tinha mais volta. Paris, c’est fini!, pensei comigo, já me despedindo mentalmente do sonho de Paris Mountain. Como iria viver o resto de meus dias numa comunidade que me detestava e que eu detestava igualmente?

Definitivamente, tinha começado mal a minha vida de residente, parte integrante da solidária sociedade americana.

O presidente da HOA[1] se desculpou meio  sem graça, convidou o Alan para almoçar, mas Alan voltou tão irritado que nem me contou o que tinham conversado. Permanece o suspense. Quanto a mim, posso lhes garantir que o fato de contar tudo em crônica não vai facilitar em nada a minha simpatia comunitária, não estou nem aí.

O que resultou de bom de todo esse episódio lamentável é que nossa casa será construída bem no meio do mato, e da rua nada dela se verá, nem mesmo dez centímetros do nosso infame telhado, não que eu acredite que isso acalme os ânimos do comitê de péssima arquitetura, pior, com a anuência da minha assinatura, sem que eu soubesse na época da escritura, é claro.

E um bom domingo procês!

 

 

[1] Home Owners Association, vulgo Associação de Moradores.

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