Kadafalso: o falso poder que nos comove

foto O Globo

Dilminha reclamou. Obama aprovou. Hillary adorou. E eu… Bem. Entre os três meu coração balança. Não cai por nenhum.

Nossa Dilma, todo mundo sabe, tem que honrar, custe o que custar, a espúria tradição de poder petista, afinal de contas Lula já tinha afagado em público o facínora agora morto lhe apertando a mão, a mão suja, suja de sangue, digo. Do sangue sabe-se lá de quantos milhares de inocentes, alguns deles reconhecidos devidamente, e com o maior orgulho demente. Francamente. Nunca pude engolir, mal consigo pronunciar seu nome: falo daquele atentado absurdo em Lockerbie, Escócia, que inaugurou na década de 1980 a nova maldição a bordo de um avião — uma guerra suja também, imunda, sentença de morte contra cidadãos americanos sem culpa nenhuma que conheceria seu auge poucos anos depois pra todo mundo ver. Ao vivo. E pela tevê.

Nesse meio tempo, as táticas terroristas árabes (hum, agora hesitei: será que qualificá-los qual farinha no mesmo saco é algum antiarabismo de minha semita parte? não sei, pode ser) tiveram todo o tempo do mundo para se aprimorar, se afinar, se preparar condignamente, sempre discretas, imiscuídas em território inimigo, digo, no campus do inimigo, onde as melhores técnicas da época eram livremente divulgadas, espertos, não?

Tudo bem. A gente já sabe que os petistas de Lula rezam de vez em quando por aquela bíblia antiga dos tempos de Pai Getúlio, que entre os novos direitos trabalhistas incluía na encolha, argh, engasguei de novo, uma discreta aliança com os objetivos evolucionistas dos supremacistas arianos, que triste memória, ninguém lembra mais nada disso, lembrar pra quê, não é mesmo? O rumo da história se encarrega de parar no filtro a borra da vergonha, é sempre assim, deixa passar somente o límpido cafezinho da glória que todo mundo gosta de tomar em seus gostosos intervalos para descansar. Mas eu sempre me pergunto, nunca deixo de me perguntar, por que essa insistência do Brasil em apertar as mãos erradas, vamos combinar.

Alan me explica: trata-se aqui, no caso de Dilma pelo menos, sem mais nem menos do maior negócio do mundo em termos de venda de galinhas, é isso mesmo, o Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango para o mundo árabe, toda certificada pela autoridade muçulmana como própria para consumo. É muito dólar pra desprezar-se o insumo, sabem como é. Aliás e a propósito, vocês sabem o que significava o termo “galinha” no meu tempo, quer dizer, até há bem pouco tempo? Bem. Melhor deixar pra lá.

O mesmo Alan me conta uma piadinha malvada (dizem que os homens nos excedem na arte de fazer graça), mas bem adequada no contexto: “sabem qual é o único jeito para um árabe chegar ao século 21? Uma passagem de avião”. Pena que nunca se sabe se chegarão ao seu destino, destino do voo, digo.

Bom. Mas agora chega de preconceito. Vamos à reação de Obama. Obama, como todo mundo sabe, foi eleito adoçando a boca, quer dizer, amealhando votos da boca pra fora, por conta do discurso brilhante do melhor autor de sua equipe (ou vocês acreditavam que era ele mesmo que escrevia? Eu, sim, né…). E antes mesmo da oportunidade de marcar sua primeira touca já foi sendo agraciado com o Nobel da Paz, vocês se lembram. Vibrei. Eu, afinal de contas, contra tudo aquilo que meu amado marido me conta, fui obamista convicta desde criancinha, desde a infância política do candidato, digo, de onde ele aparentemente não saiu até hoje. Isso, na melhor das hipóteses, porque na pior, o caso dele é de malícia explícita, corrupção, falta de coração.  Desde então os Estados Unidos não pararam mais de falar em guerra, vai entender. E nem de alardear sua expertise em combater, durma-se com um paradoxo desses.

Não faltou, por exemplo, quem dissesse na imprensa que na sumária execução do “Monstro de Sirta” estava o nada discreto dedo guerreiro americano, que mesmo em óbvia depressão econômica, ou até mesmo por causa disso, nunca para de apontar. Até aí tudo bem também, mas, cá entre nós, a desastrada declaração de Hillary ainda vai acabar bem mal, podem escrever. Tem gente que nunca sabe como e quando calar seu parecer, como eu, por exemplo. Já fui longe demais, é hora de reconhecer. E também, por outro lado, de deplorar este sujo jogo de poder: vocês sabiam que uns meses atrás o New York Times publicou um texto assinado pelo bandido executado? Custei a crer, e duvido que hoje em dia alguém consiga reler. Procurei no google pra vocês, mas já não encontrei, abafado pelos milhares de links sobre o líder líbio que acaba de morrer. Assassinado, claro.

Fica faltando então eu confessar o que penso sobre mais esta execução sumária que nos empurram goela abaixo, mais uma vez pela tevê: primeiro foi Saddam, depois Osama e agora Muamar, três cabeças islamitas estraçalhadas exibidas no videoposte ocidental, ao que parece é o novo estilo de esquartejamento parietal, ops, errei, creio que me enganei: a de Osama não foi assim, mas anunciaram e garantiram que o corpo dele foi salgado e depois afogado no mar de nossas mágoas cívicas mais profundas, argh. É justiça pra (quem fala) inglês ver.

Eu, por mim, me confesso cansada dessa merda toda jogada cotidianamente no ventilador, desculpem, por mais que os filhos da puta bem o mereçam. Prefiro viver num mundo mais tranquilo, que embora à distância dê maior importância ao encontro que ao vacilo, mesmo que um dia um acidente magnético possa fazê-lo desaparecer de uma hora para outra. Até lá, a ciência promete mais uma vez, nosso cérebro terá aprendido a amar de verdade, ou pelo menos aumentado sua capacidade de processar, não o preço, mas o valor da verdadeira amizade. Não vejo a hora. Esta será a nossa primavera de verdade.

E um bom domingo procês, meus caros milhares de amigos. Estou aí pra vocês, podem confiar.

 

 

1 Response

  1. Vera says:

    OI Noga,
    Parabéns pela crônica. Muito boa mesmo! Haja frango para compensar os apertos de mão do Lula com Muamar!!!! Claro que entre o céu e a terra há muito mais mistério que nossa vã filosofia concebe! Mas o melhor que ouvi(li) sobre Muamar, foi do Macaco Simão. Ele disse que Kadafi morto está parecidíssimo com o Cauby bêbado!
    beijo grande

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