La haine

australia-2A crônica estava pronta em duas línguas quando saí para fazer várias coisas no meu dia de folga, tomar um drinque com o Alan, relaxar um pouco, ir ao supermercado.

Quando chegamos e Alan ligou a TV, a pauta caiu.

Um “incidente” tinha ocorrido em Paris.

Algum barulho. Tiros. Explosão.

Ninguém sabia direito o que estava acontecendo.

Apenas duas horas depois a imagem do ocorrido parece ter evoluído um pouco. Enquanto escrevo, escuto a TV ao vivo. Um suspeito foi preso pela polícia.

“Sou sírio. Fui recrutado pelo ISIS. Esta é uma missão do ISIS.”

São 100 reféns neste momento no Café Bataclan, onde o pecado rolava, gente dançava, um grupo de rock americano dava um show.  Uns 30 mortos. Ninguém sabe de nada.

“Alá hu akbar!”

Nem precisava desse grito de guerra, francamente.

Embora impere o desconhecimento do que está ocorrendo, no momento as fronteiras da França estão fechadas, ninguém entra, ninguém sai.

São seis locações em Paris atacadas simultaneamente pelos terroristas (estou revisando, enquanto estava escrevendo ainda não se sabia que os animais tinham atacado Les Halles, o “World Trade Center parisiense”). Pela primeira vez desde 1944 Paris está trancada. Em estado de sítio. A outra das grandes locações é o Stade de France, onde havia um jogo de futebol Alemanha x França e o presidente Hollande estava presente.

A polícia controlou a situação no Bataclan.

O horror é reportado ao vivo, no pano de fundo desta crônica escrita ao vivo.

Sim. É o horror.

O mundo tem sorte, ou falta de sorte, não sei, porque o ódio que sinto neste momento não contamina os grandes líderes do planeta, ao menos não declaradamente.

Eu quero a minha vida de volta. E você?

Eis o meu plano. Não é xenófobo, como os “bonzinhos” já começaram a declarar nas redes sociais. É apenas lógico. Baseado nos fatos. Estamos em guerra. E é uma guerra cruel, agravada pelo fato de não ser localizada. Agravada pelo fato de que o inimigo não é movido por um sentimento nacional, nem por um deplorável, porém explicável trauma nacional, mas por um ódio irracional.

Não existe dúvida desde o primeiro momento de que este ataque orquestrado foi deflagrado pelo terrorismo islâmico. Ninguém declara, mas a verdade é esta. Tudo está “em curso”, ninguém sabe o que virá. Mas uma certeza ninguém deixa de comentar. Trata-se de mais um ataque à civilização, aos valores humanos, ao amor, à liberdade, à alegria, ao usufruto da tecnologia e outras tantas coisas que eu levaria a noite inteira para enumerar.

Eis o meu plano. Odeiem-me se isso lhes fizer bem à consciência, mas se algo não for feito imediatamente as coisas só tendem a piorar, e em breve nenhum de nós ditos “civilizados” terá para onde se virar. A vida no planeta como a conhecemos terá que terminar, e começará a imperar aquele cenário terrível dos filmes de ficção científica. Aqueles que odeio e me recuso a assistir.

Cento e quarenta mortos neste momento (revisando).

O terrorismo islâmico deve ser exterminado pela raiz. Os países de maioria islâmica devem ser declarados nossos inimigos. Os sinais externos de fidelidade a Alá devem ser no mínimo desencorajados, idealmente proibidos. Burcas devem ser erradicadas, barbas raspadas, keffiyehs trancafiadas. Já estou escondendo a minha, vermelha, que sempre adorei, usava por puro charme quando a comprei, tinha 20 anos e morava em Israel.

Sim, inocentes sofrerão. Inocentes sofreram na Inquisição, e naquela época a perseguição não tinha justificativa alguma, temos que reconhecer, embora essa mesma fidelidade a um deus de loucos que precisa ser erradicado a motivasse. Muçulmanos deverão recolher-se ao silêncio, à clandestinidade. Sofrerão.

É preciso que sofram. Antes eles do que eu e você. Muçulmanos do bem, entendam a gravidade da situação: não houve um segundo de dúvida desde o primeiro momento de que o ataque havia partido de extremistas muçulmanos, e não tardou a se disseminar o grito de guerra: “Alá hu akbar!”

Estamos todos sofrendo.

A maldade deste plano de guerra, fundamentalmente de defesa global, não partirá de nós, ocidentais atacados na intimidade de nossas vidas rotineiras, de onde não odiamos ninguém, não condenamos ninguém, baseados, como fazem nossos inumanos inimigos, num código de fé parado no século 16, numa cegueira ideológica que não escolhe suas vítimas. A maldade deste plano de guerra vem do próprio segmento atacado, porque anos se passaram enquanto a situação se agravava sem que ninguém nos países de origem desses facínoras desgraçados se dispusesse a rejeitá-los, condená-los, restringi-los a um tipo de zoológico, os animais que me desculpem, minha comparação deverá ofendê-los profundamente, mas é a metáfora que ora me ocorre.

Sim. Peço desculpas aos lobos, aos cachorros, às cobras, e até aos ratos e às baratas deste mundo, pois chamar tais terroristas de animais deve ofendê-los, aos do reino animal, digo, já que quando exercem seu instinto violento cuidam apenas de assegurar sua sobrevivência, não dilaceram suas vítimas em nome de um deus morto e de seu profeta igualmente morto. Matem-me se quiserem.

Ironicamente, o filme que dá nome a esta crônica retratava a triste situação dos imigrantes franceses nos subúrbios de Paris nos anos 1990. Pois o ódio que enfocamos hoje é o avesso daquele, e, no entanto, uma e mesma face. Apenas numa outra fase, porque naquela época nada foi feito para alterar a situação, porque ninguém em sã consciência poderia imaginar até onde esse ódio chegaria, uma violência além da imaginação.

Inocentes todos eles.

Menos os que penetram a salvo no “campo inimigo” sob a máscara da perseguição, sob as bênçãos dos emissários da bonificação, dos disseminadores de pacotes de bondades nas redes sociais, convictos de que estão fazendo o seu melhor em defesa da nossa humanidade. Estão enganados. Iludidos. Cooptados. E nem sabem.

Odeio. Odeio. Odeio. Meu ódio hoje equivale ao deles, aos dos que nos atacam. E nem por isso sairei à rua coberta de explosivos e levarei comigo em minha irracionalidade outras pessoas que nada têm a ver com isso. Limito-me à violência das palavras, principalmente porque detrás do horror que os demônios (eu tinha escrito animais, mas mudei na revisão) disseminam, não há nada mais que isso: palavras.

Palavras escritas há muito tempo atrás e deturpadas hoje em dia.

Palavras proferidas por alguém que se diz profeta, emissário de um deus, mas que não passa de uma escória humana.

Última revisão: um amigo de Facebook responde à minha foto que tem como legenda “J’aime Paris” que “devo amar mais Israel, pois esse ataque e qualquer outro vindo de muçulmanos é em última instância contra Israel”. E eu concordo.

Acho inacreditável que minutos depois de eu ter convocado meus amigos na rede a observarem o vínculo oculto entre meus últimos posts, referentes à estupidez de Caetano Veloso e seu ataque a Israel, esse mesmo vínculo tenha sido na sequência exibido com absoluta clareza nos ataques de Paris.

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