La voie Joyce

 A pena é, o público exigirá e vai encontrar uma moral no meu livro — pior, podem levá-lo ainda mais a sério, e pela honra de um cavalheiro, não há uma só linha séria nele.

James Joyce

 

Quando vi se aproximar o janeiro dos meus sessenta anos, me deu um estalo: eu tinha que comemorá-los em Paris. Mas por que Paris? Eu nunca tinha sido especialmente ligada à cidade; gostava, é verdade, e já não ia lá desde 1992, pior, mais grave, como Alan bem tinha lembrado, e meu romance Hierosgamos bem confirmado, nunca tinha estado lá com um grande amor, nunca tinha amado ninguém à beira do Sena, se é que vocês me entendem. Nem ele.

Nossa história nos devia uma correção de rumo: era a hora certa para estarmos juntos em Paris, Alan e eu. Pusemos mãos à obra, reservamos o voo, fizemos as contas, Alan garantindo pela internet o que haveria de ser um ingrediente chave de nossa “eterna”, eternamente fogosa lua de mel: um pied-à-terre em Paris, ainda que temporário, claro. Mal sabia eu.

O lindo apartamento era uma dessas mansardas românticas, um ponto brilhante entre os afamados telhados de Paris de frente para a catedral de Notre-Dame: seria Notre-Dame ao adormecer, trepar, amanhecer, Notre-Dame no café, almoço e jantar, a cada verre de vin na varandinha do nosso apê.

Mais, melhor: nosso endereço local estava localizado a poucos passos da adorada Shakespeare and Company,  cult livraria de dez entre dez amantes da literatura, os de James Joyce em especial, afinal de contas, tinha sido lá, em 2 de fevereiro de 1922, quando seu autor completava 40 anos, que Sylvia Beach, a ousada livreira americana, publicara a primeira edição do Ulysses, dando início à mais famosa das odisseias. Oba.

Desembarcamos em Paris numa luminosa tarde chuvosa de sexta-feira, 20 de janeiro de 2012, meu sexagésimo aniversário comemorado a caminho, em pleno ar. Foi chegar, tomar o trem até quase a porta do apartamento, largar a bagagem e descer pra comemorar mais, e onde mais? Na Shakespeare and Company, claro, logo ali virando a esquina! Mal paramos para respirar e já saímos para fotografar a nova capa do meu livro, em timing perfeito: um anúncio pregado na vitrine avisava aos clientes que a livraria estaria fechada excepcionalmente entre a segunda-feira 23 e 1º de fevereiro, quando já não estaríamos lá, dá pra acreditar?

Primeira epifania: a publicação de Ulysses estava para completar 90 anos! E eu, que já vinha me preparando para uma edição comemorativa da entrada de Ulysses em domínio público, em 1º de janeiro de 2012, teria ainda mais o que comemorar! Et voilà!

A visita à Shakespeare and Company foi nossa primeira confirmação de que Paris, berço de cultura milenar, era a cidade mais antidigital do mundo: eram centenas, milhares de livros empilhados, empoeirados, em estantes desconjuntadas, nas mesas, no chão, nos degraus da escadinha para o segundo andar onde tantos escritores tinham se hospedado e até escrito parte de seus livros, história, história, história a cada canto escondido, bem mais do que um prosaico cheirinho de livro, devo confessar — mesmo para mim, editora de ebooks, um verdadeiro paraíso. Perguntei à moça do caixa (“Que tal trabalhar numa raridade histórica?”) onde ficavam os livros de Joyce e logo encontrei a excelente recém-publicada biografia de Gordon Bowker que me acompanharia pelo resto da viagem.

Segunda epifania: a Shakespeare and Company não era a Shakespeare and Company! Esta, eu até sabia, mas já não lembrava, havia sido fechada por Sylvia Beach durante a Guerra, quando a livreira e editora tinha sido ameaçada pela Gestapo, e nunca mais havia sido recuperada. A livraria atual havia sido aberta em 1951 pelo americano George Whitman — que, aliás, faleceu há pouco aos 98 anos de idade em seu apartamento em cima da loja — e renomeada mais tarde numa homenagem à S&C original, cuja proprietária chegou a frequentá-la. Mais: Whitman dera à sua filha e herdeira, atual proprietária, o nome de Sylvia Beach Whitman, isso é que é fixação, não?

Pois é. Mesmo com todo Joyce, já era muita coincidência para o meu gosto. Se antes eu não conseguia encontrar uma sincronicidade decente na qual pudesse embasar o meu livro de crônicas sobre Ulysses, agora eram tantas que eu nem conseguia escolher a mais importante, um aviso, um sinal? Mergulhei no livro de Bowker e não custei muito a perceber que embora o envolvente e impositivo marketing mundial em torno do Ulysses tenha criado o Bloomsday — diga-se de passagem, ainda durante a vida de Joyce e com o deliciado apoio deste — e até transportado milhares de joycemaníacos até a Dublin de Bloom para repetir numa romaria cada passo do festejado personagem de ficção, aí incluído o encontro com o marinheiro perneta, como vocês vão descobrir ao ler o livro… o Ulysses, e depois dele, o Finnegan’s Wake, haviam em sua maioria sido escritos em Paris, na Rive Gauche mais especificamente, onde Joyce viveu a maior parte de sua vida.

Terceira epifania: eis o que fui buscar em Paris! Reviver cada alegria, dificuldade ou tristeza de Joyce enquanto escrevia, publicava e lutava pela divulgação de seu Ulysses, a uma semana do 90º aniversário da publicação original! E assim fiz.

Fui seguindo a biografia e, com um mapa da cidade ao lado, marcando cada idiossincrasia para no domingo seguinte, meu “dia de Joyce em Paris”, percorrer o que passo a chamar de Via Joyce, a via crucis parisiense do irlandês genial, sete pontos cruciais na vida do autor de Ulyssesna cidade que o abrigou, ou com a qual brigou por grande parte da vida, sei lá: uma trajetória da vida real, bem mais vibrante do que a ficção. Vamos lá, todo dia 2 de fevereiro, dia de celebrar James Joyce.


Estação Um: Shakespeare and Company, a falsa Shakespeare and Company à qual já me referi, a neo-Shakespeare and Company da neo-Sylvia Beach. Vale pela referência e pelo espetacular acervo de livros, livros impressos, claro — 37, rue de la Bûcherie.

Estação Dois: a verdadeira Shakespeare and Company, da verdadeira Sylvia Beach, com placa comemorativa e tudo, hoje uma simples boutique em cujo cartaz de liquidação de inverno posam Sylvia Beach e James Joyce eternizados na porta da loja, escrito “sale” em cima, em vermelho, pobre Joyce — 12, rue de l’Odéon.

Estação Três: Café Polidor, uma instituição do Quartier Latin, restaurante tradicional onde por mais de 200 anos artistas e escritores, de Verlaine a René Clair, passando por… James Joyce, alimentaram o corpo e o espírito — 41, rue Monsieur Le Prince.

Estação Quatro: Hotel Lenox, onde Joyce morava com a família quando concluiu o Ulysses. Também nesse hotel foi escrita boa parte de Finnegan’s Wake, mas o gerente atual não faz ideia de quem foi James Joyce, vamos combinar. A escadinha estreita em espiral que Joyce subiu tantas vezes cambaleante, meio de porre, ainda está lá — 9, rue de L’Université.

Estação Cinco: apartamento de Joyce próximo à Torre Eiffel onde morava o escritor, na época pouco mais que remediado, quando o Ulysses foi finalmente lançado, um local tranquilo, quase uma vila; para chegar ao restaurante italiano onde J.J. comemorou com amigos e a família a custosa publicação de seu livro, bastava atravessar a rua — 7, rue Edmond Valentin.

Estação Seis: Trattoria dell’Angelo. Este não é o restaurante onde Joyce comemorou, que já não existe mais e com toda certeza se localizava na mesma Avenue Rapp, a poucos passos da casa do escritor, mas é o único italiano da avenida e a comida é excelente. Joyce costumava beber vinho branco, mas não consegui fazer isso em Paris, nem mesmo nessa homenagem a ele, que foi com tinto mesmo — 6, Avenue Rapp.

Estação Sete: Pont D’Alma. Dessa ponte sobre o Sena, que sai do Champs Elisées em direção à Torre Eiffel, Joyce se debruçava para meditar sobre todos os rios do mundo — conectados num único rio circular, riverrun, registrado em Finnegan’s Wake.

Uma última instrução: a Via Joyce deve ser percorrida a pé, a maior parte dela pela rue de L’Université, com o pensamento voltado para as alegrias literárias que Joyce nos legou e a consciência de que, como nós 90 anos depois, o escritor vagou inspirado por todos aqueles históricos quarteirões.

Feliz aniversário, James Joyce. E uma boa leitura procês.  

Petrópolis, 2 de fevereiro de 2012  

Post publicado também nas Crônicas da KBR

1 Response

  1. February 6, 2012

    […] post publicado também no Noga Sklar […]

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