Lágrimas de crocodilo  

adamevePronto. Primeira crônica do ano e já estou liquidando minhas melhores resoluções, fazer o quê.

Durante o recesso de ano novo, no qual, aliás, me dediquei a ficar na cama e ver filmes na TV, me revelando incapaz até mesmo de ler o que quer que fosse, de tanto cansaço, contemplei vários temas interessantes para abordar no futuro, tendo em vista minha firme intenção de no ano vindouro (2016) evitar a qualquer custo a discussão política que vinha envenenando o meu cotidiano de escritora, tá certo. O mundo não está para principiantes e venho tentando me ajeitar nele o melhor que posso.

Devido às recentes atividades de tradutora que pretendo priorizar cada vez mais, graças à minha própria situação de habitante dependente de constante tradução para poder sobreviver, este foi um dos assuntos que contemplei. Na virada do ano, tentando escapar à voraz realidade e me aproveitando do fato de boa parte da mídia qualificada estar em recesso como eu, retomei o velho hábito de ler revistas científicas, e um dos artigos que me chamou a atenção foi o da New Scientist explicando como o “idioma em que fomos criados forja a nossa personalidade” ou algo assim, confesso que ainda não tive acesso ao artigo completo, já que a minha recente assinatura só franqueará a leitura a partir da semana que vem. Mas desde já vou endossando esta ideia, pois a experimento na carne diariamente, ninguém emigra impunemente como todo mundo já sabe.

Outro assunto interessante foi a questão das problemáticas traduções de nossas mais caras tradições, como, por exemplo, o mito de Adão e Eva. Segundo matéria publicada na Biblical Archaelogical Review, Eva foi feita do “osso do pênis de Adão”, e não de sua costela como costumávamos acreditar. Mas que negócio seria esse de “osso do pênis” do qual eu nunca tinha ouvido falar?

Muitos mamíferos, ao que parece, têm o tal osso — baculum — em sua anatomia para manter o dito de pé sem grande esforço, e pensando bem, faz todo o sentido, metaforicamente falando. Afinal, trata-se sempre de uma metáfora da criação, não é mesmo? Em primeiro lugar, o homem não tem báculo nenhum (do Houaiss: cajado, amparo, arrimo, osso-do-pênis), tendo que contar com sua própria energia para seguir ereto, sem trocadilho; em segundo, tendo-o cedido a Eva, deu igualmente a ela o poder de levantar sua “moral” quando necessário, através do amor conjugal que eventualmente os une com vistas à sobrevivência da humanidade, desculpem-me os outros gêneros obrigatórios hoje em dia, para os quais este apoio imprescindível vem de outros igualmente desossados, o que, por outro lado, poderia derrubar de uma penada o novo paradigma de pensamento. O ledo engano poderia ter sido gerado por um equívoco na tradução do aramaico, coisa que, aliás, abunda em nosso cotidiano cultural, como no caso do “Mar de Sargaços” em lugar do “Mar Vermelho”.

Dá para entender por que eu facilmente me perderia com prazer em elucubrações desse tipo, mas aí apareceu outro tema igualmente apaixonante: a conveniência do diletantismo ao qual tão diligentemente me dedico. Ao me deparar com um vídeo-palestra que Alan adorou, e enfaticamente me recomendou, que pontificava que, no fundo no fundo, tudo no universo não passa de “luz”, ou “energia luminosa”, cheguei à brilhante conclusão de que quanto mais a gente pesquisa, mais perdida a gente fica. E para evitar a queda no nada, nada melhor do que nos mantermos na superfície, sabendo um pouco de tudo sem nos aprofundarmos em nada, ou melhor, no nada em que irremediavelmente o vasto conhecimento transforma nossa existência.

Pois é. Compulsão (eu ia escrever “confusão”, mas me detive a tempo).

Vai daí que ontem à noite assisti na TV — esta mistura contemporânea de vício e lazer que nos incentiva ao sofá nosso de cada dia em detrimento de atividades ao ar livre, principalmente em climas frios ou quentes demais — a um elucidativo documentário de duas horas sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que me levou a concluir que, apesar das débeis tentativas de vários colunistas no sentido de nos convencer de que a política não presta e estaríamos bem melhor se nos dedicássemos apenas ao que urge nosso próprio umbigo, amigos, a discussão política, embora mutante e passageira, é essencial para a nossa compreensão deste vasto e insensato mundo.

O roteiro, que apresenta Netanyahu desde sua infância e adolescência passadas nos Estados Unidos até sua ascensão, digamos, não ao posto máximo do Estado de Israel, o que já me motivaria o suficiente, mas ao posto de “político mais afiado da atualidade”, segundo concluí recentemente, mostra igualmente um quadro completo da evolução — tudo bem, alguns prefeririam “involução”, e os entendo muito bem — dos problemas no Oriente Médio.

Nossa mãe, como fica claro que Obama esteve errado desde o início! E eu também! Mea culpa! Mea máxima culpa!

Logo na primeira semana de seu primeiro mandato, apesar de ter sido eleito com o apoio explícito da comunidade judaica (e nela me incluo), o atual presidente dos Estados Unidos demonstra sua disposição de “nos” levar para o “outro lado”, afastando-se das lealdades costumeiras e profundamente enraizadas na Gestalt local desde a grande guerra que catapultou o país para os píncaros do poder global.  Seu discurso de posse deixa bem claro a ascendência muçulmana e a proclividade para favorecer esta comunidade, o que não seria nenhum problema se…

Bem. A grave questão que se configurou é que, apesar de suas opções nada ortodoxas, Obama falhou nisso também (para entender esse meu “também” favor se referir às minhas crônicas mais recentes), e em vez de melhorar com seu “revolucionário apoio” o status quo daquele explosivo canto do mundo, fez com que a situação piorasse consideravelmente para eles também, et voilà, estava instalado o caos. Que neste novo ano só tende a se agravar, com vizinhos se estranhando mutuamente, laços diplomáticos rompidos, decepamento de cabeças e tudo o mais. Promissor.

Agora, bem que eu poderia ter feito um leve esforço para evitar esse assunto espinhoso, pelo menos na primeira semana do ano, quando todos os prognósticos e esperanças de futuro ainda estão em fase de franco ajustamento. Mas aí houve a já icônica entrevista coletiva de Obama em favor do controle de armas na qual o assim chamado “homem mais poderoso do mundo” se emocionou visivelmente, derramando duas ou três lágrimas em público.

Vamos combinar, todo humano neste mundo tem direito a um descontrole ou outro quando as coisas ficam pretas. Eu mesma, imaginem, no mesmo dia do chororô de Obama tinha me descabelado em soluços durante mais de uma hora por causa de um problema com o computador (nem vou mencionar o profundo golpe na minha autoestima por trás desse meu pranto incontido, convulsivo, inclementemente criticado pelo Alan como ele sempre faz, nunca oferece um gesto de consolo e paz), e até poderia confessar que minha confiança na “elevada sensibilidade” de Obama foi o que me levou a torcer por ele em 2008, contra a recomendação e impositiva opinião do meu marido Alan, que acaba provando ter razão em, digamos, 78% das ocasiões. A desastrosa eleição de Obama entre elas.

Mas, cá entre nós, ver Obama chorar desse jeito por um motivo, justificado, até, mas que no fundo no fundo se deve à generalizada incompetência de seu próprio governo, é como ver um pai desabar no momento mais difícil, quando a gente mais precisa de sua força e apoio, mesmo que sejam fingidos, pô, peraí. Assim não dá. O sujeito não é um “rapaz sensível”, mas o todo-poderoso presidente dos Estados Unidos!

Outros comentaristas políticos, bem mais à direita do que eu, fizeram o possível para tratar com simpatia o ocorrido, na linha “não duvido da seriedade de suas emoções”, mas não tardando a acrescentar: “Embora seu foco esteja completamente equivocado”. Mas eu, vocês vão me desculpar, não vou oferecer meu ombro para consolar o pobre desgraçado do político mais poderoso do mundo, nem pensar.

Se isso lhes servir de consolo, podem colocar minha falta de compaixão e solidariedade na conta da minha traumática criação como o Alan sempre faz, seja lá o que isso significa. Ou afirmar que a perda precoce de meu pai me transformou numa criatura fria, odiosa e manipuladora, oposta a qualquer proposta conciliadora. Que seja.

O que não posso é de agora em diante me dedicar a mentir em público, ou ao meu limitado público, com o único e inválido objetivo de aparecer bem na fita. Às vésperas dos meus 64 anos estou velha demais para isso, me desculpem. E além do mais, tal atitude liquidaria de vez a minha declarada honestidade e compromisso firmado com a verdade da minha própria opinião, seja ela qual for e doa a quem doer, e isso não estou disposta a conceder. Como, aliás, fez Obama, que em sua instigante campanha eleitoral prometeu total transparência de propósitos e ações, um dos primeiros pilares morais de que o nosso presidente infelizmente abriu mão. Triste demais da conta.

 

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