Legado

California delegates react during the second day session of the Republican National Convention in Cleveland, Tuesday, July 19, 2016. (AP Photo/Carolyn Kaster)

Convenção Nacional Republicana em Cleveland, 19 de julho. (Photo AP/ Carolyn Kaster)

Eu estava cortando um dobrado para aceitar todas as análises da mídia afirmando que o assassino de Nice não era jihadista: pareciam tão falsas quanto a descoberta de que eram igualmente falsas as armas e granadas encontradas em seu caminhão — “O caminhão ‘de sorvete’ de Mohamed” que já virou lenda: 84 mortos, ceifados, esmagados pelo matador desalmado.

Agora me digam, que diferença faz? Com seu ato indiscutivelmente criminoso o sujeito fortaleceu a jihad de qualquer maneira, e atos como este seguem inspirando os mentalmente perturbados no mundo inteiro. Será que alguém, em algum lugar, ainda tem dúvidas de que este estado de coisas cada vez mais violento com que temos sido confrontados nos últimos dois anos, depois do estabelecimento do assim chamado “califado” no Oriente Médio, é a motivação básica por trás desses atos tenebrosos?

Pior, acredito que a violência no mundo, jihadista ou não, está próxima de atingir uma massa crítica; e aí, meus amigos, será muito mais difícil encontrar uma solução. Para nem mencionar os terríveis assassinatos de policiais nos Estados Unidos nestas duas semanas, nossa “última tendência” em território nacional (já estou falando como uma americana, não é?).

Comecei esta crônica com a firme intenção de culpar o Nobel-da-paz-precoce Barack Obama por todo o mal existente no mundo, recente ou não, incluindo a crescente divisão racial nos Estados Unidos. Mas alguma coisa na declaração dele a respeito das mortes de Baton Rouge, Louisiana, me fez mudar de ideia, devo confessar. Parafraseando o grande Luís de Camões: “um valor mais alto se alevanta”.

Então, citando o Presidente Obama (vamos combinar, se fosse para levar a sério todas as belas palavras que ele profere regularmente, teríamos que reconhecê-lo como o maior político da terra, de todos os tempos, homem ou mulher): “Essa retórica inflamada não nos ajuda em nada. Nem muito menos acusações infundadas jogadas a esmo para amealhar vantagem política ou reafirmar determinado programa. Precisamos medir nossas palavras e abrir os nossos corações. Todos nós”.

Bacana. De verdade. É isso mesmo.

Mas não é o que tenho visto. Esta semana tivemos a Convenção Nacional Republicana, e a retórica inflamada concentrada em destruir Donald Trump andou tão violenta que fui obrigada a deixar o Twitter de lado por uns dias. Não que o Twitter se incomode, ou se preocupe de fato e de direito com o que lá se publica: o “ativista supremacista branco gay” Milo Yiannopoulos (nem sei se nesta ordem, mas é tanta qualificação sem sentido que achei melhor colocar tudo entre aspas para me proteger de qualquer objetivo escondido) acaba de ser banido do Twitter para sempre, por exemplo. É isso mesmo: para sempre. Isso, apesar de tanta violência e preconceito e racismo e antissemitismo e ataques à força policial e etc. e tal, tuitados e retuitados à vontade todos os dias. Para nem mencionar, é claro, o anti e o nuncatrumpismo generalizado. Fico pensando se na semana que vem, quando teremos a super aguardada Convenção Nacional Democrata, veremos estas mesmas mentes brilhantes antitrumpistas se revelarem como justas, equilibradas, imparciais e maravilhosas cabeças pro-clintonianas. De qualquer maneira, provavelmente não estarei por lá para conferir.

Essa tal “campanha” tem sido tão bem-sucedida que, apesar de nos EUA ainda existir um lugar (democrático) para pessoas que apoiam o Partido Republicano, o mesmo não se pode dizer do restante do mundo, o Brasil incluído, onde Trump é rejeitado tão radicalmente como Obama foi aceito em 2008, e com base nas mesmas premissas: coisa nenhuma. Deve ser tudo por conta dos cabelos diferentes, como se diz por aí.

Acho engraçado que toda esta acachapante fúria contra Trump (tem que chame de “assassinato de caráter”) — que, por sinal agora inclui os filhos, netos, bisnetos e demais futuros descendentes da família Trump para todo o sempre —, além de fazer questão de negar a realidade, se ocupe primordialmente de insignificâncias, como a questão da “tendência dos Trump a plagiar discursos”.

Eu vi. Ninguém me contou.

Bastava ligar a TV na transmissão ao vivo da Convenção para ver o entusiasmo, a torcida empolgada, a oratória eloquente exibida pela antigamente-considerada-estranha Tiffany Trump, filha mais nova do candidato, ou pela atraente previamente-considerada-burra Melania Trump (a droga do corretor xenófobo do Word corrigiu automaticamente para Melanie e eu custei a perceber), ou o articulado e inteligente, antes-visto-como-mimado Donald Jr. (que por sinal, agora ficamos sabendo, dirige um trator tão bem quanto seus carros de luxo) — tá bem, peço desculpas por ficar parecendo uma fã incondicional do Clã Trump, coisa que não sou. Para nem mencionar outros competidores espertos na arena política americana, como Chris Christie, governador de New Jersey, que em seu discurso encenou um julgamento de Hillary ao vivo, abordando os seus “malfeitos” antes de jogá-la aos leões famintos-de-palavras, ou melhor, republicanos raivosos: “Hillary na cadeia! Hillary na cadeia!”

E aí, com um simples toque suave no controle remoto, a gente se conectava numa realidade completamente diferente. Na qual, documentada pelos canais de “oposição”, para a máxima curtição dos democratas, a Convenção era descrita como um fracasso retumbante, tediosa, equivocada, comprovando sem sombra de dúvidas a total incompetência do partido, descrito por eles como “em frangalhos”, uma vergonha irremediável para seus pobres constituintes que tinham agora comprovada a sua burrice e limitação intelectual. Qualquer semelhança com os ataques dos petistas não é mera coincidência.

Pô. Peraí. Cada um dos dois partidos abrange mais ou menos 50% do eleitorado americano.

Como uma coroa mal-humorada, antes-sem-filhos-agora-mãe-orgulhosa-de-dois-rapagões, confesso que me comovi com a energia amorosa, a sincera admiração filial exibida por Don Jr., que, como delegado de Nova York, deu ao pai os delegados necessários para ganhar a nomeação, atingindo o “número mágico” que tantos especialistas garantiram por tanto tempo que o desprezível Donald Trump jamais alcançaria. O Júnior estava orgulhoso de verdade, dava para ver, podem acreditar.

No final das contas, o que pude ver foi uma celebração familiar, digo, uma celebração da família como o mais significativo valor americano. Agora, é claro que alguns “programas” não têm o menor interesse em apoiar um campo contemporâneo tão controverso e cheio de preconceitos, com seus “adeptos” tendo despendido tempo e energia demais advogando o exato oposto disso, isto é, a veracidade discutível dessa instituição tão ultrapassada como a família tradicional, antigamente conhecida como uma super simplificada célula doméstica composta de mãe-pai-e-filhos. Dá para entender. Eles têm pavor de perder suas conquistas, que tornaram nosso planeta tão melhor e mais seguro para todo mundo — uma ameaça identificada hoje em dia como “risco de regressão social”.

Agora, falando sério, tenho uma confissão a fazer: estou tão amedrontada com o atual estado de coisas em nossa sociedade, pela perda da nossa segurança e pela lamentável, porém consistente sensação de desesperança com relação ao nosso futuro como espécie, que considero esta a verdadeira razão de estar torcendo por Trump, já que não posso votar. Algo precisa mudar.

Tenho consciência de que esses meus comentários retrógrados poderão surpreender muita gente. Acredito honestamente que muito pouca gente associa esse estado de violência e divisão social aos loucos incentivos na direção da eliminação de qualquer coisa que possa remotamente soar como “tradição”. E isso inclui, certamente, a tendência mundial de recuperação dos valores nacionais, fronteiras, “separação” dos demais. Dito de outra forma: “isolacionismo”.

Preciso ser bem clara quanto a isso: o fato de ver qualquer outra pessoa como diferente de mim — e de ver esta diferença como enriquecedora, e não limitante, apesar de nem sempre estar disposta a abrir meu espaço pessoal para determinada pessoa em determinado momento — não faz de mim uma pessoa horrível, uma xenófoba hidrófoba. O que considero um pesadelo legítimo é a possibilidade de um mundo pasteurizado, no qual, apesar da retórica em favor da diversidade, o que se busca de verdade é a homogeneidade dos humanos: todo mundo tem obrigação de aceitar os mesmos valores e abaixar a cabeça para uma teórica “liderança global”.

A questão é confusa, admito. Eu jamais poderia declarar minha admiração por uma Lei Islâmica radical, ou, para ser bem gráfica, o hábito de “circuncisar” as mulheres extirpando-lhes o clitóris, o que pode até satisfazer certas culturas ao redor do mundo. Mas isso precisa parar. Agora. Já. Além do que, há algo de flagrantemente equivocado no jeito como temos tentado obter essa aceitação, e não está funcionando, simples assim.

É claro que acreditar que a eleição de Trump vá resolver todos esses sérios problemas constitui um óbvio salto de fé que atinge as raias do absurdo. Não acredito em nada disso. Mas de algum jeito, em algum lugar, ainda que muito sutilmente, algo precisa acontecer para dar um basta nessas tendências mundiais na direção de uma contemporaneidade que, francamente, só tem nos prejudicado.

E é isso que eu queria dizer. Nas próximas duas ou três semanas, enquanto a corrida política americana se reorganiza para atingir “o próximo estágio”, vou me dar um tempo. Chegou a vez na minha mesa de edição de um projeto muito pessoal que venho acalentando, e para o qual venho me preparando há mais de seis anos, e espero que o mundo me dê alguma tranquilidade para que eu possa me dedicar a isso. Ninguém está nem aí para o que escrevo mesmo, e um pouco de distância do ciclo frenético da mídia só pode fazer bem a uma pensadora conectada em potencial.

No final das contas, amor e beleza precisam começar dentro de casa. E do coração.

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