Licença para dirigir

carteira1Lembram aquele poeta brasileiro que disse um dia que “o brasileiro é antes de tudo um forte”, ou quase isso?

Francamente, não se pode ter paz nesta vida. Passei a semana toda juntando material para escrever uma crônica leve, engraçada e em tom de vitória, mas eis que me puxaram o tapete com a desgraçada notícia das demissões em massa n’O Globo, “o maior jornal do país”.

Embora esteja a salvo de tantos descalabros convenientemente protegida em território “estrangeiro”, não deixo de ficar sentida. Posso não ser eu a demitida, mas sofro (quase) da mesma maneira (aliás, me desculpem, mas aqui se impõe um parêntese malvadinho: toda vez que alguém que me rejeitou um dia, ou tentou se mostrar frente a mim como “superior” sofre um revés por qualquer motivo, eu intimamente me digo, ah, pois é, fulano perdeu seu emprego, caiu no ostracismo, mas eu continuo aqui, ó, só que no caso d’O Globo eu os considerava amigos, gente fina).

Afinal de contas, não estou sentada esperando que a crescente desgraça me atinja diretamente, no caso de, por exemplo, o governo proibir o brasileiro comum de publicar seus livros. Já me basta a catastrófica alta do dólar, que mesmo eu estando distante me assombra rotineiramente.

Junto à tristeza por meus amigos d’O Globo leva também uma pá de cal meu sonho eterno de ser colunista no mesmo jornal. Nossa mãe, quanta emoção investida nisso a vida inteira… E agora terminou mesmo.

Estou longe. Definitivamente. Mais do que hora de seguir em frente.

E estou seguindo. Ou não teria escapado da velha maldição da estátua de sal.

Esta semana, imaginem, atingi finalmente o status de “pessoa adulta” aqui nos Estados Unidos. Vocês se lembram de eu ter contado há quase um ano, exatos 10 meses e 14 dias, que havia falhado no exame de motorista da Carolina do Sul e, como consequência, conseguido uma “permissão para dirigir com um adulto ao lado”, coisa humilhante toda vida a que tive que me submeter, não tive saída.

Fiquei tão traumatizada que na verdade mal toquei num volante durante todo esse tempo, mas a bendita licença perderia a validade depois de 12 meses e tive que enfrentar mais este elefante na sala, ô manada desgraçada, me sinto o tempo todo sendo massacrada! Nem um segundo de vida relaxada até agora!

Enfim, este tipo de tormento também está perto do fim. Arrumei uma autoescola, tive uma aula intensiva de duas horas e no dia seguinte, finalmente, fui aprovada no exame de rua, minha gente. Daí para frente foram só flores: tirei a foto no posto local e já saí de lá com uma carteira funcional, com chip e tudo. Tecnologia! Não tive que esperar nem mais um dia!

Agora, por via da ironia, enquanto o Globo se esfacelava sem que eu soubesse, fui convidada a contribuir como colunista para uma revista local trimestral. Em inglês!

Como vocês bem sabem, tornar-me escritora em inglês é meu sonho ousado mais recente, fadado a quê eu não sei, só sei que me obrigo a sonhar. E a ralar bastante para melhorar, é claro, daquele velho único jeito que já revelei a todos os meus “editandos” e colegas escritores: escrevendo, escrevendo, escrevendo.

Fiquei toda feliz, editei minha crônica para cumprir os requisitos de caracteres, tema etc. e enviei tudo no prazo certinho, como é de meu feitio: caxias e careta.

Qual não foi a minha surpresa ao receber um email da editora da revista repassando os comentários de sua revisora! Sem brincadeira, não recomendo esse risco de mudar de lado na fita, você pode sem querer se dar muito mal.

Não sei se a mulher estava “de paquete” ou o que, mas vejam o que tive que suportar, a gentileza com que me descreveu: “Ela vagueia de tangente em tangente e não as conecta muito bem. Suas frases são longas demais. Ela escreve como se estivesse tendo uma conversa louca com uma amiga”. E não parou por aí: “Isso tudo é muito amadorístico, não acho que ela seja escritora. Está muito difícil para mim editá-la, levo tempo demais para entendê-la. Não tem nada a ver com a língua, mas com os pensamentos incoerentes dela espalhados por todo lado”.

Caramba. Imaginem onde eu estaria se tratasse os meus autores desta fina maneira.

Uma das coisas que ela (não) entendeu na crônica foi quem estava se casando, achou que fosse eu, e foi logo me rotulando como “bígama”. Mas a crônica começava assim, juro, sem tirar nem pôr: “Meu filho vai se casar”.

O pior é que Alan anda nervoso, e a crítica da revisora lhe caiu como uma luva, quer dizer (olha aí os “pensamentos incoerentes” de novo), caiu como uma luva nas críticas cotidianas que ele me faz aos gritos, diz que sou imbecil, que meus textos são pura perda de tempo e que não sei falar inglês, muito menos escrever, entre outras coisas que acho melhor não divulgar: “Ela disse exatamente o que eu penso das suas crônicas!”

Bom, melhor parar por aí.

Para encurtar a história (vou ali chorar e já volto), assim que consegui respirar e digerir essa merda toda jogada sem refresco na minha cara (desculpem aí), fui finalmente ler o “trabalho” da revisora: poucas correções, todas bastante aceitáveis, com a única exceção, é claro, da modificação que ela fez para deixar bem claro que eu “estava para me casar com o Alan” — isso, há 35 anos, quando, estando eu a ponto de “desencalhar”, mamãe me recomendou que eu fugisse para casar. Estão reparando como estou me cuidando para fazer sentido?

Ok, deixa pra lá. Mandei a crônica aprovada e encerrei o capítulo, não sem antes pesquisar no Facebook e descobrir que minha mais recente arqui-inimiga é “editora de obituários”, não lindos obituários de gente bacana, como o de Oliver Sacks que Gregory Cowles escreveu no NY Times, mas de gente insignificante, simples cadáveres domésticos nada impactantes de uma cidadezinha qualquer dos Estados Unidos. Pronto. Me vinguei.

O bom de tudo isso é que antes de agir como adulta, aceitar as críticas, enfiar a viola no saco e tratar de melhorar mais, cheguei à conclusão de que nesta altura da vida escrevo apenas por amor, não por dinheiro nem por fama, mas para expressar algo que teima em escapar da atividade fervilhante da minha mente insana, e estamos conversados. Essa ousadia recente de traduzir a mim mesma para o inglês é apenas mais um passo na minha dura trajetória, na qual não apenas não tento escapar a nenhum desafio, como continuo inventando novos e me submetendo a eles com disposição e alegria, em resumo: não me dou folga.

Além do mais, mais do que nunca me vejo agora habilitada a dirigir a minha própria vida, na Carolina e no resto do mundo, e tchau procês.

Shalom!

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