Like a Brazil? Like a favela?

Old rusted padlockMan, I hate Brazil! — declaro para o Alan em “open English” no caixa do supermercado de terceira, onde tínhamos parado a caminho de casa para uma Smirnoff redentora.

Perante o olhar perplexo do empacotador, que logo interpretei como meio acusador — falaria inglês surpreendentemente? —, fui acrescentando sem nenhum sotaque que era brasileira, podia odiar o Brasil o quanto quisesse, ao contrário do companheiro ao meu lado, que como americano devia se limitar a ficar calado.

Como sempre estou me adiantando, não deveria falar sobre isso ainda, mas ando tão envolvida que resolvi ceder. Na mesa de edição, como vocês sabem, ou se não sabem já vou logo contando, está o misto de hilário e trágico relato da História do Brasil por ninguém menos que nosso autor mais vendido, Paulo de Faria Pinho, que, como todos sabem — sim, já estou me repetindo — gosta mesmo é de morar em Paris. E errado ele não está.

Ao contrário de mim, que não passo de uma brasileira vagabunda de terceira geração, Paulo, salvo informações em contrário — e com base em seu charme cosmopolita e impecável educação —, pertence àquela classe que antes da virada do século a gente chamava de “brasileiro quatrocentão”, portanto aquinhoado com plenos direitos à reclamação.

Mas lá pela metade do livro, chegando ao segundo Pedro, digo, Segundo Reinado, acabo mudando de opinião. Não é, como a princípio pode parecer, uma empreitada destinada a fazer pouco, criticar de tudo um pouco, mas sim uma declaração de amor ao país, meio espúria e na medida do impossível, é verdade. A gente custa, mas acaba entendendo que o que ele escreve é a pura realidade, tão absurda quando esmiuçada que mais parece ficção. Nesse ponto transparece uma emoção, um carinho e respeito pelo “Pedro das barbas brancas”, que nas palavras do próprio autor “foi sempre um moderado, um respeitador das leis e de princípios, sendo considerado o mais democrático de todos os governantes que o Brasil já teve e terá em toda a sua História. Se a dignidade, o respeito aos direitos, a honestidade, e principalmente seu enorme amor ao país tivessem sido seguidos pelos futuros presidentes e ditadores, tenho certeza de que teríamos outra nação”. Nem precisaria apelar para os holandeses.

Vamos combinar, essa mistura de amor e ódio é o que todos sentimos em relação ao Brasil, correndo o risco de piorar sempre. Principalmente em ano de eleição.

Voltando à nossa necessidade de nos embebedar para suportar, voltávamos Alan e eu de uma sessão com a justiça petropolitana, que, cá entre nós, mais parece a Casa da Mãe Joana, ih, rimou. Mas não foi por querer.

Não éramos os réus dessa vez, mas os requerentes, ou reclamantes, iludidos buscadores de reparação, sei lá. O que sei é que éramos inocentes, ingênuos litigantes cujo advogado havia recomendado que acionassem uma das maiores empresas financeiras do Brasil, que à boca pequena dizem pertencer ao filho do homem — aquele que usurpou, ou tentou sem sucesso usurpar a posição do velho Imperador como o “mais democrático”, mas acabou num furdunço burocrático de fazer gosto. Isso, para nem lembrar que inseriu à força no Brasil o conceito estrangeiro (porque estranho ao nosso cotidiano anterior) de “elite branca”. À qual, por sinal, D. Pedro obviamente pertencia.

Tudo havia começado no ano passado, naquela cidade à beira-mar onde a atual realeza ainda mantém parcela de seu reinado, lá onde havia sido encenada uma comédia de erros que já deveria estar no passado, não fosse o conselho do advogado. Nem quero mais lembrar. Mas fui obrigada, sentada ontem à tarde, depois do atraso regulamentar, em frente à figura impoluta de uma lei que se veste mal, se comporta mal, tinge os cabelos de laranja e de um azul nauseante as unhas das mãos — um retrato mal pintado do aparato legal no Brasil.

Devo reconhecer que enquanto pacientemente aguardávamos a audiência agendada — sim, estou mentindo, paciência passava longe do que eu estava sentindo — o advogado, que também chegara bastante atrasado (devia ter vindo na mula de D. Pedro e parado no meio do caminho para… deixa pra lá), mas não o suficiente para perder o horário marcado, já foi tentando tirar o corpo fora. A ação legal, compreendendo danos morais e materiais — embora a parte dos morais fosse um faux pass, porque no Brasil “empresa não tem moral”, quer dizer, “não sofre dano moral”, mesmo sendo reduzida a um negócio pessoal (nada sei da lei empresarial em outros países) —, passara depois de um ano de espera a ter “pouca chance”, talvez por ter corrido no Juizado de Pequenas Causas, que, aparentemente, não funciona para a “elite branca”, porque até meu jardineiro volta e meia fatura algum nessa instância. Mas eu não.

Francamente. Poucas vezes na minha vida fui maltratada e humilhada como naqueles cinco minutos de “tentativa de conciliação”. Não houve acordo, e por que haveria? A litigação é tanta, e tão frequente, que a advogada dos acusados pode ser considerada uma “funcionária do fórum”, onde dá expediente diariamente flutuando de um reclamante a outro, nem lhes custa nenhum esforço, quinze ou vinte insatisfeitos, qual a diferença? Enquanto o estagiário encarregado de “conciliar os interesses das partes” tentava digitar qualquer coisa no computador, três ou quatro rábulas de porta de cadeia, digo, chave de cadeia, não, digo, especializados em pequenas causas (provavelmente um deles teria servido ao meu jardineiro) travavam livremente no cubículo de dois metros quadrados uma guerra pela posse do melhor mexerico legal do dia. Para mim, nem um bom-dia.

Voltando para casa, entre mal represadas lágrimas, como não poderia deixar de ser, reclamo com o Alan da justiça de Petrópolis — a pólis de verão do justo Pedro —, quiçá do Brasil. Ele diz que não tenho motivos, que em Tijuana, por exemplo, é muito, mas muito pior, mesmo sugerindo que aquela corte de justiça mais parece uma loja de ferragens, onde em vez de julgamentos estão à venda velhas engrenagens.

— É — respondo. — Comparado ao inferno, o purgatório até parece bom.

Mas, claro, estou exagerando um bocado, ou não seria eu uma cronista. Do lado direito da estrada a montanha é bela, porém apinhada pela favela. Já o povo brasileiro, como mais que provado muito receptivo e hospitaleiro, é dos mais simpáticos entre os povos do mundo, isso lá também é verdade. Como dizia o saudoso João Ubaldo Ribeiro, gentil a ponto de morrer a tempo de ser citado na minha crônica deste domingo: “Viva o povo brasileiro!”

No que me diz respeito, infelizmente, esse arremedo de paraíso  já não é suficiente.

Um bom domingo procês, agora mais vazio sem o João Ubaldo.

 

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