Made in China

calvin3Minha primeira lembrança de produtos Made in China vem daquelas quinquilharias vagabundas nas lojas de R$1,99. Logo em seguida, daquela clássica sapatilha preta de tecido meio lustroso, bem chinesinha.

Feito na China? É fake, falsificado, falsa grife com certeza, copiada ilegalmente e vendida no camelô da esquina. Isso, para nem mencionar os brinquedos contaminados por chumbo e a pasta de dentes envenenada, lembram dessa?

Resultado: permeia a minha geração uma espécie de preconceito de aquisição envolvendo todo e qualquer produto fabricado na China, certamente um negócio da China. Para os chineses, é claro.

Eu deveria ter desconfiado quando começou a enxurrada de produtos eletrônicos fabricados na China, em Taiwan, para ser mais exata, embora essa distinção não faça mais nenhum sentido, ainda que uma consulta à Wikipedia resulte em mais confusão do que esclarecimento. Alan acrescenta sua prévia experiência com a expressão “feito na China” lembrando os ternos perfeitos de Hong Kong e as camisas sob medida que ele costumava encomendar quando era um businessman chique, coisa que custo a aceitar que ele realmente valorize depois de dez anos de Brasil reduzido a bermudas e camisetas pretas da Hering:

— Mas, Alan, naquela época Hong Kong não era chinesa, era inglesa!

— Como assim? A mão de obra foi sempre chinesa!

Ele prossegue amparado no Google para demonstrar que a qualidade e criatividade chinesas datam de milhares de anos, me mostra o primeiro relógio criado no mundo e termina espantado com a revelação de que os guerreiros de terracota enterrados portavam espadas banhadas em cromo muito antes de a cromagem ter sido inventada cá do nosso lado. Isso, sem nem mencionar a bússola, a pólvora e… o talharim. Além do glorioso papel, é claro, embora este, na minha santa ignorância, eu prefira creditar aos egípcios.

— Mas esses não são os mesmos chineses — insisto, a partir daquela mesma premissa de que não são mais os mesmos gregos, por exemplo, ou os mesmos egípcios.

Os chineses que estão por aí no momento são o resultado do achatamento do povo caprichosamente levado a efeito por outro de nossos heróis da juventude, o famoso Mao, não é mesmo?

Enfim, a partir de certo momento, seja por economia ou fomento, a Apple começou a produzir na China seus iPads, iPhones e outros “i”s (ui!), e, vamos combinar, os produtos Apple sempre foram considerados ícones de qualidade no mundo moderno, é ou não é? Apesar dos rumores de que as placas chinesas vinham todas com um chip de espionagem embutido, passamos a consumir sem refletir milhares de produtos Made in China, qualquer pessoa que abrir um computador poderá imediatamente confirmar isso. E, cá entre nós, não se pode sair por aí propagando que os produtos da Apple são de terceira categoria, eu não saberia, porque ao longo de todos esses anos tenho conseguindo me proteger da Applemania. Mas sou com certeza uma raridade, dinossaura sem nenhuma possibilidade de futura conservação.

Pulo para o presente. Como vocês sabem, estou de férias, nem deveria estar escrevendo crônica, mas justamente por isso tirei o dia e fui ao shopping tentar comprar um sapato, estando a minha linda sapatilha rasinha da Arezzo quase em frangalhos.

Aquelas imensas lojas de departamento nos shoppings americanos são um pesadelo à parte, que não faz parte desta crônica (que ao final se revelará freudiana) explicar a gregos e troianos, em resumo, detesto ir às compras! Mesmo assim, a necessidade me fez enfrentar, e adentrei a Dillards resolvida, sem pestanejar, indo direto à seção de sapatos femininos, outro pesadelo, que feiura, nossa mãe.

Garimpando em meio ao mau gosto imperante descolei uma sandália simplesinha (Alan odeia as minhas deliciosas Havaianas legítimas, diz que pareço uma faxineira com elas), que daria para usar pelo resto do verão já que o outono se avizinha, oba (continuo detestando o calor, não importa em que hemisfério ele me apoquente, ui, foi sem querer). Vai daí que olhei na parte de baixo da sola e duas características a condenavam ao repúdio obrigatório: a sola era sintética (atual eufemismo: “man made”), e a danada da sandália era Made in China.

Mamãe, de saudosa memória, me ensinou duas coisas: nunca se deve comprar um sapato com a sola sintética porque o pé esquenta muito; e nossos pés (quase chineses), ela calçando 33 e eu 34 (tamanhos do Brasil), tornavam quase impossível comprar um sapato nos Estados Unidos, como escrevi na outra crônica. Antes que me esqueça, mamãe também afirmou a vida inteira que meu cabelo não crescia, de nada adiantaria parar de cortá-lo!

Saímos da loja, mas em outros mastodontes do mesmo gênero, digo, lojas-âncora, a feiura era ainda maior. Voltamos.

E eis que quando vou ao caixa pagar a conta, dou de cara com uma vitrine de sapatos Calvin Klein, cada um mais lindo que o outro, e olhem que nem tenho mania de sapatos, tenho apenas uns dois ou três no armário, todos pretos, é claro. Quando olho os sapatos por dentro (a informação é obrigatória por lei nos Estados Unidos), vejo que são todos Made in China! E caríssimos, a sola quase tão icônica quanto os vermelhos Louboutin (é, surprise, surprise, embora não os cultive, também conheço um ou dois fetiches femininos).

Para encurtar a prosa que homem nenhum terá saco pra isso, cheguei em casa com o sapato na cabeça e fui direto à Amazon, onde não só constatei que todos os sapatos das grandes marcas são hoje em dia feitos na China, como muitos nem de couro são, mas de um material “feito pelo homem”, inclusive o maravilhoso que não tive coragem de comprar na Dillards. Porém, para minha sorte, estava em promoção na Amazon, por apenas 30 dólares e com frete grátis. Recomendo! Se não servir a gente devolve!

Ah, esqueci de acrescentar que meu tamanho de sapato nos Estados Unidos é 6, não só supernormal e encontrável em todo canto, como nem sequer é o menor número que existe, so sorry, mom. Só Freud explica.

Uma última nota: nada mais é sagrado neste nosso mundo demente, francamente. Pesquisando na Amazon, encontrei uma sola colorida adesiva para o seu chiquérrimo stilleto, voilà, faça de qualquer porcaria um Louboutin legítimo!

Quanto ao Alan, depois do sucesso do caso do sapato, está todo animado, planejando ir ainda mais longe: disse que vai à China comprar as maravilhosas portas sanfonadas de vidro duplo para a nossa casa, com argônio dentro e tudo (sem relação com o quase homônimo gás  sexual de Reich). Por apenas um décimo do preço.

Shalom!

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