Mal de Detran

Mamãe, não sei se já contei, adorava dirigir. Tinha orgulho. Na geração dela isso não era muito comum, dava um ar de independência, de modernidade. Num de seus caros aniversários — presente de aniversário pra mamãe não era qualquer coisa, não: teve o ano do brilhante, do conjunto de broche e brincos de brilhantes, do colar de pérolas, do vison e por aí vai, meu pai que se virasse para pagar —, o presente foi um carro, um Fusquinha zero só pra ela — o marido era um romântico, deu a chave numa caixinha forrada de cetim —, porque meu pai tinha outras ambições, um Chevrolet Impala rabo de peixe, por exemplo, ou um jipe de exército para ir ao sítio. Mamãe reclamava. No final, sei lá por que, ficamos só com o fusca, aquele que… ah. Melhor deixar pra lá.

Quando foi ficando mais velha, claro, ela gostava mesmo é que eu dirigisse pra ela, “choferasse”, como ela dizia. Eu detestava, porque levar mamãe a qualquer lugar sempre significava parar em outros dez lugares pelo caminho e resolver outros tantos probleminhas, mas com isso enfiei na cabeça uma organização mental da qual não consigo me livrar, perguntem ao Alan, podem perguntar. Até hoje, sair de carro significa um roteiro perfeito de coisas pra resolver, sem uma curva fora do lugar, obrigada, mamãe.

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