Máquina do tempo

PrintTenho torcido, tentado controlar minhas cotidianas sofridas emoções, mas, francamente, o mundo real não está ajudando. Vocês já viram o que anda rolando?

— 14100, já?

Não estou me referindo à joelhada maldita, nada disso, devo confessar que apesar da empolgação geral ando meio enjoada da Copa, um mês inteiro de patriotada — ops, desculpem, patriotismo — já está me fazendo mal, sei lá. Vamos ver onde isso tudo vai dar, agora sem Neymar.

— 17000.

Sinceramente, não creio que vá fazer uma enorme diferença, mas o que quero deplorar é a extrema violência com a qual vimos nos acostumando a conviver no dia a dia, e olhem que muita gente nem se dá conta.

Essa história do viaduto em Belo Horizonte, por exemplo, um acidente terrível, uma irresponsabilidade além da conta, nem é que tenha sido surpresa, sabem como é, mas temos tido muito sorte, que assim prossiga, dada a alta dose de improvisação que acompanhou os preparativos da…

— 18500.

E isso não é tudo, antes fosse. Tudo em que temos nos envolvido nos últimos 20 e poucos dias nem arranha de leve a superfície dos perigos que estão nos cercando neste mundo, meninos mortos a bala pra cá, meninos mortos por fogo pra lá. Animais. Nossa mãe.

— 19500.

O que mais me espanta é que nos estertores da modernidade — pensem bem, mais dia menos dia isso vai ter que mudar — a ideia maluca de H.G. Wells sobre o paradoxo de viajar no tempo vem adquirindo tintas de realidade. Temos, ao mesmo tempo, e misturados no mesmo enclave, a mais extrema contemporaneidade — celulares 3D ultramodernos, chips inimagináveis, cirurgias graves levadas a cabo 100% fora do corpo através de uma luz de alta frequência — e a mais regressiva Idade das Trevas — olho por olho, dente por dente, dedos decepados, califados dementes.

— 20500.

Vemos no mesmo dia, e ao mesmo tempo, o mundo inteiro amalgamado por sinais sem fio democraticamente disseminados e gente indefesa sendo trucidada, mulheres apedrejadas, impedidas de estudar e de optar pelo que quer que desejem, tratadas como objetos passíveis de se esmagar, fácil, fácil. Avançada laicidade que, se quiséssemos, enfim nos permitiria pensar, e no mesmo diapasão uma religiosidade abusiva, um deus implacável que a par com o da Bíblia mata, e sem dó manda matar, em nome de que valores? Não sei. Da política. De um poder sem limites e eivado de malícia.

— 22000.

Se não a estivéssemos vivendo, seria uma era de magia, no mínimo ficção científica, eu ao mesmo tempo escrevendo crônica no meio do mato numa máquina já agora anacrônica, porém ainda conectada ao mundo, e Alan descrevendo os milhares de refugiados carregados de doenças — arma química sutil, passando despercebida? —, condenando seus desafetos políticos à guilhotina, outro enclave do planeta em que as fronteiras já não se definem por linhas, mas por desprezíveis porém surpreendentes máquinas do tempo: o Texas, por exemplo, no século XXI, esbarrando no XVII ou ainda anterior do México vizinho, através do qual a América Central dispara seus meninos como se bombas-vivas fossem.

Nada disso sei se é mesmo verdade, porque hoje em dia, em tempos de sincrônica realidade, a verdadeira liberdade de expressão, na contramão do que seria esperado, vai ficando cada vez mais rala, esgarçada, intrincada nos fios manipuladores de líderes sem alma, desconectados do bem do povo, ligados apenas ao seu domicílio bancário e aos impulsos do próprio umbigo, tentáculos desgovernados enviando em wi-fi seus desvarios para nos tirar a sanidade mental.

— Desacelerou. 22500.

Dá às vezes a impressão de que já não estamos vivos. Somos todos zumbis da máquina virtual, perdidos numa dimensão intemporal onde a humanidade sonhada se enfiou numa daquelas bobeadas do espaço/tempo que Einstein apenas imaginou, inata deformação moral.

É. Falei que estava enjoada da Copa, mas aí o viaduto caiu. Ver o vídeo da motorista agonizante, logo em seguida morta, propagando-se pelo Facebook à razão de mil por minuto (Caetano acompanhou do computador, a poucos metros físicos do verdadeiro horror)… pô.

—  Pronto. Tiraram do Face.

Segundos depois, a Globo News assumiu. Brados débeis de pura emoção pedindo que nos protegessem daquele descalabro ao vivo foram para a puta que os pariu. Enquanto isso, um neomaslow qualquer bem protegido sob o escudo financeiro do Vale do Silício deu uma estudada boa nas reações dos animaizinhos humanos, é ou não é?

— Tiraram as escoras com o concreto ainda verde pra liberar mais o trânsito. Semifinal da Copa, sabe como é. Muita gente ia descer em Confins até terça-feira e passar por ali — lamenta pelo skype o Caetano, meu mano. Um acidente da natureza como tantos outros, só que, desta vez, da natureza humana.

Francamente. Alan, que está sempre certo e aqui em casa sempre dá o tom certo — o tom obrigatório, o da consciência de nossa fatal incompetência a que ele me obriga diariamente, pelo menos —, há dez anos ininterruptos esperando a bomba explodir sobre nossas cabeças iludidas, subliminarmente conduzidas pela corrente indomável das redes dissociais, aperta o botão de sua própria máquina do tempo. Com um copo de uísque na mão e uma palpável visão do fim dos tempos olha para a frente e contempla o paraíso.

Não dá mais para segurar. Não suporto mais, coração.

Tudo ao mesmo tempo agora e tchau procês.

 

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