Me pisa que eu gosto

capachoDesde que me dou por gente, sorry, devo confessar, nunca fui de sair e me manifestar, e olhem que na minha adolescência este país era de amargar. Outra coisa pela qual nunca me interessei, e que em alguns momentos cheguei a detestar, matem-me se quiserem, é a tal “cultura do futebol”. Custo a saber o que vem a ser um “pênalti”, um “escanteio”, quase confundo uma “grande área” com a outra, mas quando o pobre Marcelo sem querer fez gol contra, digo, na área contrária, não tive a mínima dúvida. Uruca!

Ainda bem que no decorrer da partida a impressão se desfez, ainda que controlada pelo japonês, ufa, e terminamos com a conclusão de praxe e um herói pra nos redimir de tanta sintaxe. Sintaxe futebolística, se é que vocês aí entendem, porque eu, francamente, só ando buscando a melhor rima, e ela foge, cada vez mais rara.

Outro dia no Facebook uma amiga lembrou que este “nosso” (meu, não!) governo conseguiu acabar com duas coisas consideradas indestrutíveis no Brasil: a Petrobras e o prazer de assistir os jogos da Copa. Mas o buraco é muito mais embaixo.

Pois é. Como eu ia dizendo, nos tempos da ditadura nunca fui de ir pra rua, sofria com as parcas notícias, mas me controlava, não ia arriscar o pouco que me consolava, casa, boas roupas, comida e uma família para me acobertar. Além de careta, sempre fui meio covarde e conformista, sabem como é. Pra dizer a verdade, sofro muito mais hoje por aqueles anos de chumbo do que quando os anos realmente se passavam. E sofro, digo mais, porque o que vimos enfrentando nestes últimos anos reaviva a ferida exposta como “nunca antes neste país”. Pelo menos, naqueles tempos fatídicos, as posições eram claras, e os absurdos sentidos às claras, embora, paradoxalmente, nunca soubéssemos de verdade o que estava acontecendo nos malditos “porões”. Hoje sabemos de tudo, até demais, pelas redes sociais, mas continuamos ignorantes dos verdadeiros objetivos da corja empossada. Seria mesmo só roubar? Custa-me acreditar.

Vejo um certo ódio intrínseco que não consigo explicar, agora sendo ampliado e devolvido na justa medida, “Dilma vai tomar…”, grossura, eu sei. Mas enquanto for livre, não me calarei. E assim a coisa vai.

Começou com a estranheza quanto à tibieza da festa de abertura, coisa que mal vale a pena comentar. Que vazio de alma seria aquele, pior, que “música” oficial seria aquela sendo impingida aos desacordes no país da música, carente de ginga e de graça quase a tombar do alto do salto? Isso, pra nem mencionar a base da grande bola sobre um papelzinho gabola que, como designer, me ofendeu.

Veio o hino, e ninguém mais conseguiu domar a fera popular: nem o Trio Tétrico na tribuna a nos desdenhar (Blatter, Dilma e Graça, não necessariamente nesta ordem de desgraça), nem tampouco o patrão FIFA, tentando se impor ao jogo do povo. À capela, cantou-se o hino inteiro, foi o que se viu, porque para tudo deve haver um limite, que uma vez atingido elevou à enésima potência o poder da opinião do público. Muito bem.

E o que dizer quanto à presidente? Vaias à parte, já sabíamos que não iria discursar, mas daí a escutar que sua covardia era na verdade uma “imposição da FIFA”, francamente, não a fez diminuir, mas aumentar.

Então, o Brasil gastou bilhões, multiplicados pelos bilhões de interesses escusos a nos ordenhar, e em nada “pôde” opinar? Não pôde ou não quis?

Na prática, ao que parece, seremos por um mês governados pela FIFA, mas nós é que estamos pagando o pifa, será isso mesmo? E o “orgulho nacional”? Vai pra FIFA que o partiu.

Verdade, nunca em tempo algum fui dada a esse tipo de patriotada, acho isso chato, fora de moda e coisa de população manipulada, mas a renovada vocação para capacho em que a máxima autoridade se compraz fez nascer em mim uma energia que desconheço, um amor desmedido por uma pátria que já não reconheço e que só não abandonei até hoje por falta de dinheiro e de oportunidade, ou, pelo menos, era o que eu pensava.

Do mesmo jeito que esse governo desacreditou as instituições, e fez tanta gente ter medo de torcer na “Copa das Copas” — grandiosidade é com eles mesmo —, fez o sentimento patriótico recrudescer, quem diria. Mas contra todos esses que nos fizeram passar por tudo isso, pelo menos assim espero. E nesse tudo incluo o constrangimento internacional, o contrato assinado para nos tirar a vontade soberana nacional, e que, acredito, estará limitado ao circunscrito espaço de meia dúzia de estádios. Mas é um símbolo viral do mal que esta gente pode nos fazer, como assim, aceitar tudo?

Desculpem, amigos, mas não estou numa boa fase, vítima talvez de uma temporada radical da qual, por mais que eu deseje, não estou conseguindo me libertar. Tenho admirado outros cronistas, capazes mais do que eu de encontrar sua graça em colocações mais propícias, e com isso proporcionando algum conforto, um consolo para mim, algo devido, talvez, quem sabe, a não estarem como eu 24 horas por dia sob constante ameaça de jugo estrangeiro, tudo conspirando para se tornar um simples confronto de culturas onde talvez, no fim das contas, a paixão de viver esteja gritando falta.

Tenho certeza de que quando meu coração se acalmar darei o devido desprezo a esses terríveis impulsos nacionalistas, nos quais me desconheço, a esse estresse memorialista que tem dia após dia me roubado a razão.

Isso também há de passar. Vamos torcer.

E um bom domingo procês.

 

 

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