Memórias para colorir

singles91Confesso, hesitei bastante para escrever esta crônica, uns cinco minutos mais ou menos. Afinal de contas, prezo bastante os meus três mil quatrocentos e poucos queridos amigos e amigas, e vários deles já estavam ficando chateados com a minha insistência em criticar em público a nova febre das multidões: os livros de “adultos” para colorir. Não consegui resistir depois que uma dessas amigas — muito mais próxima que as demais, aliás, principalmente por ser consciente e muito inteligente, além de escritora talentosa —, me enviou um vídeo que fazia pouco (pouco é muito pouco!) dessa popular “atividade antiestresse” no YouTube. E aí relaxei, me entreguei.

Cresçam! E só depois apareçam!

Os adeptos que me desculpem, mas gente grande colorindo figurinhas? Por todo lado que se olhe e veja, isso é completamente ridículo!

Alguns ainda tentaram me convencer de que se tratava de uma forma de arte, um jeito de exercitar a criatividade e com essa ilusão relaxar as tensões cotidianas, mas o vídeo na verdade conseguiu estragar tudo (sem trocadilho, vejam o vídeo e entendam se quiserem). A coisa, que eu nunca tinha visto ao vivo, era muito pior do que eu imaginava, muito mais rasteira ainda. E tenho dito.

Pior, tentaram fazer com que eu me sentisse culpada, me imiscuindo assim na vida dos outros e além do mais dando uma de superior, intelectual, capaz de ler um livro inteirinho sem nem uma figurinha sequer. Deveria, para o meu próprio bem, deixar as pessoas em paz, dar-lhes liberdade de ser, deixá-las viver à vontade, sem (a minha) censura. Quase conseguiram que eu visse a mim mesma como uma pessoa horrível, destas que nunca postam fotos de gatos, sabem como é. Monstro!

Cá entre nós, não é nova essa preocupação com um tipo de situação que infantiliza os adultos sem que estes realmente percebam, convencidos de que estão fazendo o seu melhor. No livro que estou editando, por exemplo, sobre hermenêutica ontológica — é, palavrão —, a gente aprende que era o que mais incomodava a Paulo de Tarso, ele mesmo, o “marqueteiro” do cristianismo — ops, desculpem —, para quem, depois do advento de Cristo, os homens “são agora filhos de Deus que atingiram a maioridade, não são mais adultos infantilizados” (Gl. 3:25).

É. Podem acreditar, não é nada cristão se deixar levar desse jeito pelas “coisas dos homens”, principalmente dos homens que só pensam em faturar.

Fiquei tão abalada que não conseguia deixar de pensar naquela pataquada. Acharam o termo antigo? Pois é. Alan me informou, solidário como um bom marido, que também bastante antiga é essa mania idiota de desenhos para colorir.

Começou nos anos 1950, antes de eu nascer, pasmem, até dá pra entender. Depois de anos de uma guerra horrorosa era um mundo muito necessitado de hobbies pós-traumáticos, como, aliás, o nosso de hoje, com o terrorismo islâmico tomando conta dos nossos sonhos mais caros como vi na TV ontem à noite. Baseava-se frouxamente na ideia de que Leonardo da Vinci desenhava um rascunho e numerava as partes com os números das cores para seus aprendizes preencherem com tintas (eu tinha escrito “pintarem”, mas apaguei), não me culpem se essa história for pura invenção, já que o gênio de da Vinci dá margem a tanta especulação.

O mote era: “Pinte uma tela a óleo na sua primeira tentativa”.

Tocava, como toda boa propaganda, uma corda sensível no íntimo de cada um: todo mundo sonha em ter certas aptidões artísticas, sabem como é, poucos se conformam com seu parco talento de apertadores de botões. Ou teclas. O problema de tudo isso é que mais tarde se descobriu (eu só descobri ontem) que a febre toda havia sido fabricada desde o início: a fila de pessoas que se acotovelava para adquirir a novidade na porta do Macy’s era toda comprada, quer dizer, havia recebido dinheiro para isso: ficar naquela fila desejando ardentemente adquirir com o dinheiro dado um produto que na verdade estava encalhado, velha história.

Deu certo. O empresário preocupado havia investido quinhentos dólares na empreitada, um quase nada se comparado aos milhões que amealhou, algo mais ou menos parecido com celebridades que pagam um monte de gente para adquirir seus livros, ou resenhas falsas na Amazon, ou…

Caramba. O mundo está cheio dessas maldadezinhas de gênios do marketing, e boa parte delas é originária dos Estados Unidos.

Alan me contou essa história toda muito revoltado, dizendo que vocês, “fucking assholes”, estão sendo vítimas do “bambolê do mundo das artes”. Ela havia tocado uma corda sensível bem no seu íntimo, algo sagrado que ele nunca tinha comentado.

— Meu pai adorava essa porcaria! Era um idiota!

Nunca havíamos falado nesses termos cruéis do falecido Daniel. Fiquei chocada.

Afinal de contas, o homem que nunca foi meu sogro havia morrido muito jovem de complicações de febre reumática, e a única coisa que eu sabia dele até hoje é que havia sido a primeira pessoa dos Estados Unidos a fazer uma cirurgia de “coração aberto”, saíra até no jornal. Ah, e também que havia inventado as latas para refrigerantes — can o’pop —, mas não até o ponto de vislumbrar aquele anelzinho que se puxa para abrir sem abridor — gênio pela metade, se é que vocês me entendem. Tivesse vivido mais e talvez tivesse chegado lá, quem sabe! Estaríamos milionários!

Pois é. Alan e eu somos unidos até mesmo pela tragédia da precoce orfandade: eu tinha vinte anos, ele apenas quinze, eventos verdadeiramente traumáticos que marcam a vida da gente. E que, no frigir da mente, nos transformaram nessas pessoas sarcásticas, desagradáveis e com ar superior. Intragáveis. Intolerantes. Fazer o quê.

E aqui cabe outra confissão: nunca me senti ridícula de jeito nenhum balançando o derrière no meio da rua em Belo Horizonte com aquele aro colorido de plástico em torno dos quadris girando sem parar para não deixar cair, ufa; mas eu era uma menina, dá pra entender, tudo o que eu queria era conseguir manter a coisa rodando. Além do que, todo mundo estava sacudindo o seu bambolê, quem seria eu para destoar, não é mesmo?

Um bom domingo procês!

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *