Merda no aspirador

merdobras2— Mas que idiota! Que criminoso! Que cretino! — vocifera Alan em frente à televisão, enquanto a meio metro de distância (como é pequeno este apartamento!) tento me concentrar, no silêncio da minha mente, no ebook que estou terminando de converter, com todos aqueles comandos enrolados, que, como vocês sabem, demandam atenção redobrada.

Da televisão vem a voz do presidente Obama, isso mesmo, o mais alto dignitário do Primeiro Mundo, fazendo um discurso panfletário em favor dos imigrantes ilegais. Como sou ex-Obamista de carteirinha, tenho que tomar cuidado com as minhas posições extremistas (entenderam, petistas?), não se pode virar a casaca dessa maneira sem uma boa justificativa, não é mesmo?

Mas, quanto mais penso, menos entendo. Alan (e outros jornalistas conservadores igualmente vociferantes na televisão) afirma que é um ato ilegal, e Obama se justifica dizendo que os tais imigrantes ilegais, além de viverem no país há mais de cinco anos (uma eternidade para eles), não terão, isto é, continuarão não tendo apoio do governo no que diz respeito à saúde, seguro social, ticket-alimentação e coisas do tipo, ou vocês pensavam que bolsa isso e aquilo era só no Brasil? A única mudança verdadeira é a garantia de que não serão deportados, agora, cá pra nós, vocês já imaginaram um ato de deportação envolvendo mais de 4 milhões de pessoas? Pois é.

E tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes, com a diferença de que os latinos talvez continuem votando no Partido Democrata, por pura gratidão de não terem recebido coisa nenhuma, sabem como é. E Obama passará à história como o presidente que não mudou em nada, entre outras coisas, o “pior pesadelo deste país”, este aqui onde estou vivendo agora.

É o que temo que aconteça no Brasil, em outra escala de gravidade, é bem verdade.

O Brasil, mais do que nunca, se encontra mergulhado num pântano de ficção, onde, desesperados, os da situação tentam transformar a inócua, dispensável, e no entanto com toda certeza iníqua presidente Dilma na maior “estadista da história”, por “estar permitindo a ação da Polícia Federal” no buraco negro cada vez maior imposto pela corrupção.  Vamos combinar, a presidente só está lá a “coordenar a ação” por uma coincidência nefasta, uma conjuntura histérica, ops, histórica, em que se tornou impossível seguir roubando, e mesmo assim posso garantir que muito contrariada por ter que permitir que se continue tentando fazer justiça, dar um jeito mínimo que seja nesse furdunço chamado Brasil.

A revolta é tanta que pouco a pouco vai cedendo lugar à indiferença, porque há um limite para o que a mente humana consegue digerir e suportar. Sim, sabemos que no Brasil sempre se roubou, mas daí a ter gente que posa de intelectual dizendo que já se roubou muito mais ainda… pô. Peraí. Ninguém me contou, conheço uns dois ou três empresários que decidiram no frigir dos ovos votar contra a cesta em que estavam todos os seus ovos porque a obrigatória propina extrapolou qualquer dimensão, passou a minar a estrutura da administração.

Outra coisa que ninguém parece considerar a “nível estatal” é que o Brasil, como, aliás, todos os demais países do mundo, encontra-se graças à globalização e à informatização dos negócios (informática = ampliação da informação, já perceberam isso?) inserido num contexto muito maior. A executiva da Petrobras, por exemplo, não apenas cometeu crime de corrupção local, mas também no foro internacional, pois levou seu pacote de bondades para ser negociado na Bolsa de Nova York, fosse por cobiça, improbidade administrativa ou falta de inteligência mesmo, ou eles pensaram que se safariam ad aeternum?

No Brasil de hoje a competência parece tão rara, e tão pouco valorizada, que aparentemente apenas um grupinho manipulado de vinte e poucas empresas têm a capacidade de manter o país rolando, justamente as tais corruptas, corruptoras, corrompidas (é só impressão minha ou a metáfora “bola de neve” caberia aqui como uma luva?) que levam o Brasil “para frente”. Sem elas, alegam, não haveria mais país, há que protegê-las, mas pô, peraí de novo. Estaríamos voltando para trás, para a era dourada do “rouba mas faz”?

Como prova a sabedoria do povo, “ninguém é insubstituível”, felizmente.

Cá entre nós, sempre foi um desafio entender o Brasil, e isso tampouco está melhorando. Mas não me venham justificar a atual onda de exposição (ou de busca e apreensão, sei lá) colocando a pecha de “justiceiros” no Partido dos “Trabalhadores”, justamente no titeriteiro da hora por trás dessa embolada geral. Não fosse por outro motivo, bastaria a impressão generalizada de que a corja empossada está mentindo, jogando mais “farofa” no ventilador para nos cegar quanto à verdadeira origem do grande poder corruptor, é a tal estratégia do “farol no fim do túnel” botando a galera pra correr do trem, estão me entendendo?

O problema é que estamos todos tontos, é isso, o Brasil todo está uma tonteria só.

Isso me lembra um episódio que tive que enfrentar, umas dessas infelicidades rotineiras a que a provecta idade  (nossa ou dos outros) nos submete. Vou lhes poupar os detalhes sórdidos, mas depois de terminada a urgência, no meio da madrugada, lá estava eu condenada a um banheiro coberto de merda por todos os lados, chão, banheira, paredes, toalhas, lençol e esfregões maculados, cocô na pia tirado das roupas manchadas, e eu ia fazer o quê? Não tinha sido preparada para uma coisa dessas, além de sempre ter me orgulhado de “ser capaz de fazer tudo”, menos passar roupa e lavar banheiro.

Mas a necessidade, como vocês sabem, é a mãe da criatividade, e naquele momento eu não tinha outra opção. Uma vez que a vítima principal estava lavada, trocada e descansando na cama, comecei a labuta, e fui limpando, desinfetando, pano após pano espirrando, enxaguando, sem um pingo de energia sobrando para uma lágrima que fosse, e garanto a vocês que não estou exagerando, lá estava eu, a designer, a escritora, aquela que um dia vangloriou-se de ter sido chamada “a vanguarda do Brasil” lavando a merda alheia só de calcinha, camiseta e havaianas pretas e nem uma palavra de reclamação.

Terminada a faxina, tomei uma ducha quente, lavei os cabelos, depois de limpa me perfumei como pude com todos os cremes à minha disposição, tomei meio Frontal com um copo de água com gás gelada e fui dormir. No dia seguinte, o sol ia alto quando acordei. O banheiro estava limpo, sem sinal de cheiro, lençol e toalhas já secos depois de uma noite dependurados no trilho do chuveiro. Dobrei, guardei, e fiz o melhor que pude para esquecer o ocorrido e seguir (de bem) com a vida.

O Brasil está senil, ou bêbado, para dizer o mínimo. Mas “enquanto há vida, há esperança”, amor, alguma boa vontade e um vidro enorme de Lysoform à disposição, não importa quem esteja ocupando no momento o posto de desinfecção. E para a tranquilidade de todos e o conforto geral da nação, resta uma última providência crucial: para evitar problemas futuros, é vital demitir a péssima enfermeira que exagerou no laxante, se é que vocês me entendem, desculpem aí a grosseria da narrativa, mas isso também faz parte da vida, é tudo verdade, podem acreditar.

E um bom domingo procês.

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