Meu reino por um peru

“Mas Thanksgiving é uma festa religiosa, Alan?”, pergunto ao meu marido americano de sete anos, que me encomendou para este novembro um jantar especial. Tá certo. Mútuas ameaças de morte à parte, ele merece. Em algumas ocasiões, como o Dia de Ação de Graças e o 4 de julho, por exemplo, ele fica tristinho, coitado, acabrunhado, com saudade dos filhos — é o que ele diz, mas tenho pra mim que é mais por causa da comida, mesmo: o indefectível churrasco público da Independência, que não dá pra substituir pela feijoada de sábado nem por decreto… e o peru de Thanksgiving, com purê de batatas e cenouras carameladas, tá bom, não custa nada, vai. Tudo pra me redimir do meu endêmico esquecimento, nunca me lembro nem de Valentine’s, imaginem do Dia de Ação de Graças, para mim como um outro qualquer, é a tal idiossincrasia cultural, sabem como é.

“Não, é um feriado familiar americano, nada a ver com religião, é uma tradição nacional instituída por George Washington em 1789”, ele informa, encarando com a maior paciência a minha ignorância terceiromundista. Vai que eu acredito: como todo mundo sabe, os Estados Unidos são, digo, é, um país espiritual, até no dólar confiam em Deus, embora esse “deus”, para alguns, seja o deus do consumo, mas não espalhem por aí. No dia seguinte aoThanksgiving, por exemplo, com aí por volta de uns 99% dos cidadãos curtindo um feriadão (fora os comerciários, mas estes não são gente), de volta à casa da família ou não, não tem coisa melhor do que ir às compras, não é mesmo? É a tal “Sexta-Feira Negra”, outra importante instituição, nome estranho, vocês dirão, mas Alan novamente esclarece, e pelo que ele me explica a sua mais correta tradução seria “Sexta-Feira Azul” — o dia em que o balanço das empresas de comércio passa de vermelho para azul, se é que vocês me entendem, e toca de inundar o mercado com as mais inacreditáveis promoções, como, por exemplo, Alan acrescenta, “o melhor smartphone do mundo por apenas 1 centavo de dólar”, é isso mesmo, mais “20 anos de contrato exclusivo com alguma operadora de telefonia”, claro, americano não dá ponto sem nó. Nem nós.

O que não sei se vocês sabem, e Alan me confessa entre divertido e embaraçado, é que este ano, pela primeira vez na gloriosa história do Primeiro Consumidor, as lojas abriram, imaginem, já à meia-noite de quinta, nem deu tempo de fazer o quilo, francamente. Isso é que é vontade de gastar dinheiro impunemente (no good deed goes unpunished), sem contar as filas quilométricas para conseguir aquela TV de 42 polegadas por apenas 200 dólares. Tô fora. Ainda bem que o Kindle já é baratíssimo sem nada disso, ouvi dizer que custará no Brasil apenas 150 pratas, mas… não espalhem… E sem contar que o nosso comércio tupiniquim já tomou posse da tal “Black Friday” sem nem ao menos saber o que significa isso, e sem ter nada a ver com isso: é mais ou menos como se os americanos — norte-americanos, não custa esclarecer, como evidenciou aquele exigentíssimo amigo de Facebook, segundo o qual “somos todos americanos”, uau —, de uma hora para outra, inventassem um “saldão de carnaval” ou coisa que o valha. Com a presente inversão econômica em curso no surpreendente capitalismo global, vamos combinar que não me espantaria nada.

Tudo bem. Estabelecidas as bases do jantar, pesquisadas e imprimidas as receitas protocolares em inglês (“Vamos rechear o peru com farofa de passas, certo, Alan?” Errado. Erradíssimo. Receita de recheio americano é com cubinhos de pão de milho amanhecido, mais aipo, cenoura e cebola refogados também em cubinhos no azeite e vamos em frente, nem sob tortura eu confesso que em vez de caldo de galinha dei liga com cerveja aos demais ingredientes), só faltava ir em busca do peru, coisinha simples: segundo a Ivete, minha “consultora doméstica” favorita, havia peru à vontade em todos os supermercados, ela até já tinha visto.

A Ivete, vamos combinar, sabe tudo o que se pode desejar aqui na Região Serrana. É a rainha das dicas de como chegar e o quê e onde encomendar, a um ponto tal que Alan sugeriu que a gente sugerisse ao Globo (ui!) uma coluna semanal denominada “Pergunte à Ivete”, com respostas imperdíveis no Globo Serra para os ricaços locais, locais de fim de semana, claro. “Imagine”, acrescentou ele, rindo à beça da minha cara desanimada, “se a Ivete consegue materializar antes de você o sonho de ser colunista do Globo…”, aí sim eu poderia dar graças verdadeiramente, não que eu ainda acalente essa obsessão antiga e besta, um vício, Deus me livre. Alan não sabe nada de mim, nem temos conversado direito, então… ok. Tá tudo dominado entre a gente.

Pois na sexta da semana passada, tranquila e preparada, saí ao comércio local em busca do tal peru-antes-do-natal, mas não houve jeito. Até pro meu açougueiro, que prometeu me retornar com quilos congelados de seu fornecedor do Rio, eu pedi o tal peru… e nada. Telefonei até para as lojas do centro, centro de Petrópolis, mas, gente, comprar peru em meados de novembro é quase como desejar ovo de páscoa em setembro, estivesse eu grávida e o filho certamente nasceria com cara de coelho, sabem como é. O peru do Alan, como disse aquela minha amiga pelo skype no outro dia, estava correndo um sério perigo. Já era sexta-feira, e o Zona Sul do Rio, único supermercado do país a fornecer antes do tempo combinado a iguaria, só teria entregas na Serra na próxima… sexta-feira, Sexta-Feira Negra como todos sabem: tarde demais para o meu peru dar as graças.

Mas como eu sou Noga, e não nenhuma outra Joana, encontrei logo a saída, imaginem se não. Comprei o peru pela internet no Zona Sul (antes que vocês me perguntem, não, não estão me pagando nada pelo comercial gratuito, mas na Coluna da Ivete, ah, podem esperar, todas as dicas serão mercadologizadas como é praxe negociar, quer dizer, otimizadas pelo merchandising jornalístico), mandei entregar na casa de mamãe no Leblon e pedi à enfermeira do plantão, que muito convenientemente mora em Itaipava, of all places, que me trouxesse o dito cujo de ônibus na segunda-feira. Meu carma é bom, obrigada mesmo, senhor. A crucial questão da ave estava resolvida.

Só precisei de na segunda à noite pegar a estrada quase à meia-noite em direção à rodoviária do Bingen, a 20 e tantos quilômetros de névoa aqui de casa, eu não deixaria a pobre da Fátima arrastar meu peru gelado de cinco quilos por todas as baldeações necessárias para chegar à dela em Madame Machado, não é mesmo? Sou abusiva, sim, mas nem tanto: no fundo no fundo, apesar da chutzpá típica dos meus contos, tenho bom coração e razoável educação no trato com os fornecedores e amigos, coisas raras neste mundão ultimamente, tá certo, ponto pra mim.

O resto, pra resumir, foi pura burocracia. O saco plástico não-inflamável que a Ivete recomendara para garantir a casca crocante do bicho, também apregoado como muito fácil de encontrar, foi outra missão impossível de se encomendar, a não ser pela internet, tarde demais a apenas dois dias do sagrado jantar. Mas ela, infalível como sempre, me trouxe alguns da outra casa chiquérrima onde presta assessoria semanal, et voilà: às quatro em ponto da quinta-feira estava o nosso peru a assar, só me custou um pouco parar de trabalhar, tudo por amor ao meu doce marido, tão fácil de agradar. Comparado ao cordeiro Pascal, vocês se lembram, até que o peru foi bem tranquilo de solucionar, principalmente por conta da fiel ajuda da Ivete às quintas-feiras. Eu cheguei lá! No Natal e no ano novo estarei de férias, podem apostar. Vai ser tudo à base de champanhe e sanduíche, eu, hein… Pra mim este ano já chega de heroísmo amoroso, eis-me aqui, senhor, e dou graças por todos estes dias de doméstica.

E um bom domingo bem azulzinho procês, embora na Serra continue chovendo…

 post publicado tambem no Cronicas da KBR

 

 

1 Response

  1. compra-se tudo pela internet, menos o amor, ou melhor, ate o amor, vocs se conheceram pela net num site pago, nest pas?
    vi na TV que uma mulher jogou spray de pimenta nos rivais para as compras da 6 feira azul, rs…eu gostraria de ter ido. ainda bem que ela não passou por perto de mim
    e muita saude para todos nos!

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