Meus dois amores

Brasil-IsraelMesmo antes das redes sociais, a verdade foi sempre a primeira vítima da guerra.
Roger Cohen, para o NY Times

 

“Brazil is operating with ‘a double standard, and has become part of the problem rather than trying to contribute to the solution. This behavior explains why Brazil, which is an economic and cultural giant, remains irrelevant in the political arena’”,[1] foi o que disse o porta-voz da Chancelaria de Israel. Em português, pela mão de um jornalista sensacionalista, e talvez contra Israel, como a massa dos “especialistas” nacionais, talvez ainda pela fala literal porém mal traduzida de “nosso” ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo (talvez Figueiredo precise “escovar o seu inglês”, ou a sua integridade diplomática, vai saber) a coisa virou uma acusação de que o Brasil é um “anão da diplomacia”.

Fala sério. É preciso falar muito sério.

— Vou sofrer com a crônica de hoje — faço um alerta para o Alan, que já não suporta mais me ver sofrer por tantas coisas que me aborrecem no dia a dia, tá certo, “aborrecem” tem sido um eufemismo para o que tenho sentido.

Vou começar explicando que o diplomata israelense ( acho que foi um diplomata, me desculpem se eu estiver enganada) enfatizou bastante que “o Brasil é um gigante econômico e cultural”; quanto à nossa diplomacia escorregadia, que sempre, com o perdão da generalização, pisou na casca de banana, especialmente sob a batuta de Lula e seus asseclas, ele diz apenas que é “irrelevante”, algo comprovado até mesmo pela recusa internacional em nos dar qualquer relevância no cenário mundial.

Enquanto tantos “analistas” escrevem artigos proclamando a “verdade”, eu, que sou cronista, e não jornalista, só me sinto confortável escrevendo sobre a minha verdade. E, amigos, tenho chorado.

Como enfatizei na crônica passada, não passo de uma brasileira vagabunda de terceira geração, mas os que me conhecem pouco (tenho muitos leitores recém-chegados, e a cada dia chegam mais, ainda bem) merecem uma explicação, que deveria começar por meu estranho nome, que noutro dia um interlocutor meio “mal” intencionado interpretou como um dado sensualmente a meu favor, mas que me força à constante soletração, um pavor.

Sou nascida em Israel, o que faz de mim uma legítima “sabra” (figo da Índia: espinhoso por fora e doce por dentro, é como se descrevem , muito bem por sinal, os nativos de Israel). Meus avós vieram para o Brasil na juventude, e conta a lenda que vovó deixou por lá, entre os túmulos da família (em Safed, na época parte da “Palestina”), o de um famoso sábio judeu, outra coisa que eu poderia usar a meu favor, desta vez intelectualmente: a escrita, de certa forma, está no meu sangue. Mas também o sentimento de ser uma “eterna estrangeira”. Papai e mamãe emigraram para Israel à época da Guerra de Independência, em 1950, o que se está a meu favor eu não sei, mas, certamente, me qualifica bem mais do que aos curiosos de plantão para escrever sobre a trágica atual situação.

Não, não vou encher os ouvidos de vocês com uma litania de como o antissemitismo tem crescido em nossos dias, algo que nunca senti quando era jovem no nosso país. Sim, porque o Brasil é o meu país. Mas tenho outro também. Entenderam?

Claro que uma guerra sangrenta não faz a alegria de ninguém, a não ser, quem sabe, dos que a exploram para sua própria agenda política, e não vou explicar do que estou falando. Nem precisa. O que deve e demanda ser comentado é a falta de informação com que temos nos deparado. Gente até muito bem intencionada acredita que “Israel deveria desistir, arrumar as malas e partir”, mas partir para onde? Como se desloca todo um país?

Bem. Impossível, não é. Por exemplo, o lamentável avanço das facções fundamentalistas no Oriente Médio tem feito fugir do país natal muita gente boa. Só os manifestantes populistas acham que gente como a gente quer se submeter a tanta sandice, como manequins de vitrine mascarados e, um pouco pior, clitóris forçosamente extirpados: segundo a ONU, 130 milhões de meninas e mulheres passam por essa prática, e com a ascensão do ISIS — não, não se trata aqui daquela bela deusa egípcia frequentemente invocada quando se fala dos direitos das mulheres, mas do mórbido califado que vem tomando conta de grandes cidades no Iraque, Síria etc. — esse número deve aumentar exponencialmente.

Mas alguém que fala um absurdo desses (e olhem que se trata de alguém de quem gosto muito mesmo, o que fere mais ainda) tem a mais vaga noção do que significa deixar para trás o seu país natal? E ainda mais devido à invasão do seu território nacional? Acredito que não.

Tá bem, não passará um minuto antes que meus opositores digam que isso é uma tristeza para os palestinos também. E eu concordo, mas lembro por outro lado que não faz muito tempo (2007) Gaza era um Estado independente, até que o extremismo, entregue ao Hamas, crescesse além da conta. Em teoria, ainda é. Mas foca-se tanto no terrorismo que não sobra energia para garantir a vida a seus habitantes. Aliás, como disse um de seus líderes no outro dia, “assim como os judeus amam a vida, nós amamos a morte” (e isso inclui a de seus próprios irmãos de fé).

Eu poderia gastar preciosos caracteres da minha crônica, que tem espaço limitado, para explicar aos mal informados  que a absoluta disparidade no número de vítimas de um e outro lado se deve, principalmente, à tática deprimente de se usar mulheres e crianças como escudos humanos, e, por outro lado, à superioridade militar de Israel, que não se reflete no tamanho de seu território. Poderia apelar para os artigos extremistas do Estatuto do Hamas que muita gente descreveu muito bem antes de mim.

Mas estou cansada. E acima de tudo, muito magoada, ao ver minhas duas pátrias trocando insultos de forma desbragada. Trago o Brasil no cérebro e Israel no coração, e minha reação ao que fazem os dois países tem enfrentado gigantesca desproporção.

O Brasil, que para onde eu vá seguirá sendo a minha nacionalidade de adoção — francamente, devo confessar que com tanta vergonha que venho sentindo ultimamente meu amor ao Brasil tem se resumido ao idioma que mais amo no mundo, o único no qual consigo me expressar emocionalmente, embora domine outros, inclusive o hebraico —, me causa uma sensação de desconfiança extrema; tudo o que espero da atual liderança deste país é o que há de pior, de mais corrupto, mentiroso e incompetente, de uma burrice tão grande que quase chega a ser demente. Já Israel, que tem sido tratada internacionalmente como o Judas global, assassino inclemente, embora eu não seja partidária da política de seu primeiro-ministro me provoca uma impressão diametralmente oposta: faça o que fizer, tenho total e incondicional confiança em sua competência, inteligência e integridade nacional. Isso, apesar de as acusações aparentemente “racionais” de seus detratores parecerem provar que o contrário é verdadeiro.

Como todos sabemos, em tempos de noticiário online e propagação em redes sociais é muito fácil manipular os dados para que atendam os mais escusos interesses. Não preciso escrever mais nada. Fui.

E um bom domingo procês.

 

[1] O Brasil está operando com um padrão duplo, e se tornou parte do problema, em vez de tentar contribuir para sua solução. Esse comportamento explica por que o Brasil, que é um gigante econômico e cultural, permanece irrelevante na arena política.

 

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