Mother Noga

nogamercedes— Se por acaso eu desaparecesse, você acha que seria capaz de pegar o volante e sair dirigindo? — Alan me pergunta, enquanto dirige o nosso Mercedes dourado em direção a Charleston, onde um peru bem temperado nos espera na casa de nosso filho Erik.

Rápido retrocesso: compramos o carro já faz mais de um mês, e embora inicialmente eu o tenha apelidado de “banheira”, acreditando que seria grande e pesado demais para eu dirigir depois de uma vida apegada a Gols 1000, nosso novo Mercedes antigo tem se mostrado robusto e extremamente confiável. Mas Alan não me “deixava” tocar nele, não faço a menor ideia se os dois eventos estão ou não ligados, tudo somado ao fato de que “levei pau” recentemente no exame de rua do “DETRAN” local como já contei.

Estamos ambos animados com a nossa “aventura” na estrada, mas descontando o Thanksgiving, ando muito irritada com o Alan, que vem dia a dia desafiando a minha tolerância cansada e a minha paciência já esgotada com seus novos tiques de rei da cocada americana. E minha pronta resposta, resultado instantâneo de meus insones pensamentos dos últimos dias, corta o ar dentro do carro como uma faca amolada:

— Se você desaparecer vou direto pro aeroporto e volto pro Brasil, tá pensando o quê? Que não sei viver sem você?

Ah, vocês não sabem, mas Alan é mestre nessa coisa de “desaparecer”. Estou muito bem distraída no supermercado, quando, de repente, ele some do meu lado, ou pior, andando pela rua em Downtown Greenville, por exemplo. O mais aflitivo é que o homem se recusa a usar um celular. Vocês devem se lembrar que já o perdi várias vezes no Brasil, a pior delas na pracinha de Correias, quando cheguei a acionar a polícia. E no Brasil ele até tinha um celular…

Deixo passar. Essa coisa de apego que comecei contando, por sinal, vale um comentário à parte: ando meio espantada com meu apego ao Brasil. No outro dia, por exemplo, sonhei que encontrava um casal de brasileiros aqui no nosso condomínio, engrenava num papo, depois apareciam outros, e logo eu estava cercada de brasileiros, concluindo que Haywood Pointe era uma espécie de “Brasil no estrangeiro”, se é que vocês me entendem (não, até hoje não encontrei nenhum brasileiro em Greenville, embora saiba que o irmão da esposa do meu primo mora aqui).

O sonho, deixa eu explicar, que para todo sonho há sempre uma explicação, variando a profundidade inconsciente da especulação, fora aparentemente motivado por minha descoberta poucas horas antes, quando da minha mesa escutei o locutor da luta que Alan assistia apresentando todo empolgado o “Barboza, from Brazil”, que, aliás, venceu a luta com louvor, oh, Deus, como odeio esse MMA, enfim, fiquei toda excitada com  a brasileirada. No mesmo dia, esgotada depois de uma longa jornada de trabalho, Alan na cama já derrubado, aluguei um filme na Amazon que sem nenhum motivo em especial, “por milagre”, como na hora qualifiquei — não vão vocês ficar pensando que estou voltando ao espiritualismo, embora o filme tivesse algo a ver com isso —, veio com legenda em português, ah, quanta saudade de uma legenda em português! O filme, infelizmente, era ruim à beça, mas a legenda uma delícia, prevalecendo altaneira sobre a ronqueira do marido.

Voltemos enfim ao tema principal da crônica. Deixando de lado o conforto dobrado de passar um feriado, estrangeiro embora, na casa de um filho, recepcionada com o surpreendente e carinhoso apelido de “Mother Noga”, dou um fast forward e estamos na manhã seguinte, quando embarcamos por volta das 10h00 em nosso Mercedes dourado, de volta “pra casa”, como a gente se apega rápido a qualquer coisa, não é mesmo?

Chegamos à autoestrada sem nenhum desvio equivocado, sob as bênçãos de um onisciente GPS, claro. Logo em seguida paramos num lugar horroroso para tomar café, porque na casa do Erik só tem chá e Alan estava reclamando que não estava bem acordado. Foi aí que percebi que algo estava (muito) errado e eu ainda não tinha percebido: estacionou direto sob uma placa que dizia “Proibido estacionar, sujeito a multa e reboque”.

— Alan, você não pode estacionar aqui! Tira o carro já! — e ele nem aí, soltou o cinto, levantou e saiu trancando a porta.

— Quem disse?

— Alan! Não pode! Você quer sair do café e não encontrar mais o nosso carro?

Ele me deu as costas e saiu andando.

A verdade é que eu tinha botado na cabeça que por algum motivo não conseguiria dirigir o Mercedes, e tal crença vinha prevalecendo há mais de 30 dias, cada vez mais arraigada. Tinha até conversado a respeito disso com uma amiga, também brasileira, que me confessou que aqui nos Estados Unidos só dirige esporadicamente, e mesmo assim só nas redondezas de sua casa.

Agora, no entanto, eu já não tinha como escapar da acachapante realidade: Alan estava muito estranho, fora do normal, under the influence de alguma substância que eu desconhecia, ou simplesmente com uma puta ressaca incapacitante depois do porre de Thanksgiving, sei lá.

O fato é que embora ainda estivesse fisicamente lá, sua mente parecia ter “desaparecido”, como ele mesmo havia antecipado no dia anterior, e eu não tinha outra saída a não ser assumir o volante do nosso Mercedes. Mudei para o banco do motorista, ajustei o assento e o encosto e em seguida a altura do volante (o carro tem comandos automáticos para tudo, o banco vai para cima e para baixo, para a frente, até o encosto do pescoço pode ser ajustado à vontade para adaptar-se ao pescoço de quem dirige, imaginem), soltei o freio de mão e arranquei.

Para minha surpresa, o carro não deu o costumeiro arranco automático de gente acostumada a uma boa e dura embreagem, ao contrário, deslizou suavemente como uma aeronave taxiando em direção à vaga do outro lado do estacionamento.

Depois do café continuava óbvio que Alan não podia, ou não queria dirigir. Retomei meu posto recém imposto e voltamos à estrada, minhas mãos agarrando o volante com toda a força das minhas inseguras suposições. Dirigir o Mercedes estava fácil, devo confessar, mas as mãos tão tensas que chegava a doer.

O tanque estava quase vazio, era preciso abastecer. Peguei a saída seguinte. Não faço ideia de como isso aconteceu, mas o desvio não nos levou a posto nenhum, era apenas uma estrada reta, desimpedida, em direção ao nada. Aí perdi o controle e me desesperei. Entre soluços e lágrimas, me entreguei:

— Alan, what did I do?

E ele, com a absurda calma dos drogados:

— Errou. Retorna.

— Mas posso fazer a volta assim, no meio da estrada?

Fiz. Retornei. Mas a saída seguinte se impunha, e dessa vez cheguei direitinho ao posto de gasolina e estacionei junto à bomba disponível. Como vocês sabem, tudo aqui nos Estados Unidos é muito fácil, muito prático. O problema é que não há tempo para pensar, você precisa decidir tudo muito rápido porque tem gente na fila esperando. E tudo é bastante diferente do Brasil, desde as ferramentas do banco online e os métodos da lavanderia coletiva até o posto de gasolina, onde, terror dos terrores, você precisa abastecer sozinho.

Enquanto passo o cartão na bomba e me preparo para tirar a mangueira de combustível,  com o rabo do olho vejo Alan se afastando.

— Alan! Você vai me ajudar, não é?

Bem, para encurtar a história, fui obrigada sem anestesia não só a dirigir na autoestrada americana, onde a velocidade mínima permitida — mínima, é isso mesmo! — é 45 mph, sendo a máxima 75 (72 a 120 km/h), como também a botar gasolina sem ajuda nenhuma. Em poucas horas meu Mercedes e eu já funcionávamos como um só corpo, eu rindo e contando piadas em inglês, com a ressalva de que o carro é tão leve, mas tão leve e macio que sem perceber você já excedeu o limite de velocidade, isso para nem mencionar a facilidade do “piloto automático” que ainda nem entendi como funciona, pois é, é ridícula a minha ignorância, fazer o quê.

Quando estacionei em Greenville intacta, e em perfeita segurança, Alan disse que se sentira muito bem no banco do carona. E pude enfim dar graças de verdade, “a day late and a dollar short”,[1] como se diz aqui nos Estados Unidos. Hoje vou dirigir até Paris Mountain, essa coisa pega, oba.

E um bom domingo procês!

 

 

[1] “Com um dia de atraso e um dólar de menos”, em tradução livre.

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