Muita areia

netobama

Confesso que baqueei esta manhã quando percebi que já era sexta-feira. De novo?

Alan levantou-se muito bem disposto, tomou uma ducha, voltou carinhoso. Fazia sol lá fora, um evento bastante raro nos últimos tempos. Enquanto tomava café e editava a crônica do dia no blog da KBR, um périplo corajoso de Vânia Gomes pelas íntimas misérias da nossa Corte inabalável — misérias nossas, não “deles”, claro —, percebi que não tinha vontade nem incentivo para escrever. Além da falta que me faz a impositiva beleza da saudosa Maria Comprida do outro lado do Vale, o mundo está numa merda de fazer gosto, vamos combinar. Mais ainda quando a gente se sente no “centro que decide”.

Durou pouco. Digo, a falta de desejo de escrever. Quando me sento, como sempre a musa rola, mesmo que de musa hoje em dia tenha muito pouco. Ainda na cama Alan e eu comentamos o seriado a que assistimos ontem à noite, “Band of Brothers”, sobre a verdadeira miséria mundial na Segunda Guerra, embora, claro, Alan preveja há dez anos uma miséria ainda maior num suposto embate com o espírito de fera iraniano, coisa de que sempre duvidei.

— Nossa, ainda bem que não temos que enfrentar uma Guerra como essa.

— Enfrentaremos uma pior.

— Mas na Europa era muito mais grave do que esse caos no Oriente Médio.

— Desta vez vai ser em Nova York mesmo.

Tá bem. Ele exagera, eu acho, com sua mania de “estar uns dez anos à frente da realidade”, mesmo que muito de sua precocidade realmente acabe acontecendo, como o fato de termos usufruído bons dez anos de Brasil e agora estarmos a salvo do caos econômico, por exemplo. Sem mencionar, é claro, que quem quis sair fui eu, ele lá, com permanente saudade dos filhos mas bem apegado ao espírito da “nossa” montanha.

Não está nada bem. Com tanta divulgação de tudo o que acontece, o que inclui com ampla benesse vagas ideias ainda em curso e acordos inacabados — haja notícia para a voracidade ao vídeo 24 x 7 — o mundo se tornou um imenso teatro, onde tudo que deveria ser transparente acaba sendo encenado “para a arquibancada”, e a gente nunca sabe onde está realmente.

Há no ar uma vasta campanha de desinformação, uma aguerrida confrontação de opiniões. Aqui nos Estados Unidos, a “cena” da semana foi o drástico discurso de Bibi Netanyahu, primeiro ministro de Israel, que como parte da nossa comunidade do coração nos toca fundo, causa um impacto significativo. Tenho Netanyahu, devo confessar, na conta do mais hábil político vivo no mundo. O sujeito é uma águia, olhos de laser e asas de rapina dando sombra (e cuca fresca) aos judeus de todo o mundo, que por conta da (nada) frágil insistência do Estado de Israel em continuar existindo nos permite viver sem ir para lá, uma terra onde o bicho come sem ter para onde correr.

Não quero falar de Netanyahu nem de seu posicionamento contra o Irã. Concordo com alguns pontos e discordo de outros, certamente partilhando a forte impressão de que não se pode colocar um prazo para qualquer acordo ao final do qual qualquer mudança de atitude não inclua obrigatoriamente um profundo exame de comportamento e intenções, ufa, francamente. Dez anos passam num piscar de olhos da história, quase tão rápido quanto a chegada da próxima sexta-feira, e a automática suspensão de controle ao termo desse prazo seria um suicídio nuclear, algo como liberar um facínora da cadeia antes do tempo regulamentar, conceder-lhe a liberdade condicional sem o acurado interrogatório de uma comissão abalizada — mas que mesmo assim pode falhar, e costuma falhar mesmo.

O que me irritou de verdade em todo esse episódio — já que ver o político israelense aplaudido de pé tantas vezes chegou a ser um discreto deleite, mesmo sabendo que se tratava de uma carta marcada para definir a hegemonia republicana na casa parlamentar americana —, foi o espaço nobre concedido pelo vetusto NY Times — vetusto no segundo significado do dicionário, isto é, “deteriorado pelo tempo” — ao embaixador do Irã, que quase ouso definir como o “embaixador de Satã”, tá bem, peguei pesado. Lembrou-me um dos precoces sinais de “fraqueza moral” exibido pela “democracia” do jornal, quando deram espaço de opinião ao igualmente desprezível Muamar Kadhafi, o falecido terror da Líbia, nem acreditei.

Pode até ser que eu esteja alcançando aquele ponto na vida em que se pode dizer que “um jovem que não é de esquerda não tem coração, e um adulto maduro que não é de direita não tem cérebro”, não sei. O que sei é que esta disposição atual de dar voz a todas as vozes, sem distinção, é como botar lenha na fogueira da amoralidade que tem se alastrado pela modernidade, um sintoma detectado até mesmo nas escolas primárias americanas, por exemplo. Já não se ensina às crianças que existe um “padrão moral” e que nem tudo é permitido, porque “não pega nada bem”.

Mal comparando, é como dar a seu filho pequeno um incentivo para enfiar o dedo molhado na tomada e “aprender pelo choque”, estão me entendendo? O sério problema é que com um choque desses podemos terminar dizimados, estou exagerando, eu sei, mas seria um belo gesto de “adeus à nossa humanidade”, e não estou me referindo a um “comportamento tipicamente humano”, mas à extinção física da espécie humana, aniquilamento de verdade. E da verdade também, claro.

O que podemos concluir é que não existe uma verdade, e hoje em dia mais do que nunca cada um pratica a sua própria versão de atualidade. O que nos coloca, vamos definir, num “estado esquizofrênico de realidade”. Ninguém sabe de verdade o que virá a seguir, ou o que está se desenrolando nos bastidores das veleidades, dos exageros do poder, algo que Netanyahu quase nos entregou — em outras palavras, ameaçou nos entregar caso sua agenda seja contrariada — quando mencionou “acordos secretos” entre ele e Obama que não podem ser divulgados, mas que ele, Netanyahu, sabe que ocorreram.

Tomara que seja algo mais que uma ameaça velada, porque se tem uma coisa que me deixa realmente passada é o fato de ter apostado tantas fichas na excepcionalidade de Obama para terminar nessa mediocridade toda, uma pretensa ingenuidade disfarçada de diplomacia excepcional, para efeito político (inter)nacional.

Por falar nisso, Alan me disse ontem, todo triunfante, que o chefe da comissão que concedeu a Obama o Nobel da Paz foi demitido, imaginem, o primeiro caso de demissão nessa comissão, aparentemente motivado por ter se enganado redondamente ao laurear Obama precocemente. Na porta de saída o sujeito ainda declarou que “seria realmente legal se o Presidente Barack Obama devolvesse o prêmio”, que que é isso, minha gente!

Pois é. Pouco espaço me sobrou para a preocupação que tem me causado o caos administrativo no Brasil, de onde ainda retiro o meu pão de cada dia, como todo mundo sabe a cada dia mais caro, ainda pior se for pago no caixa em moeda estrangeira como é o meu caso. Embora seja crucial para a minha sobrevivência física e moral, uma das consequências diretas deste nosso governo anormal é que o Brasil a cada dia mais se distancia da cena política mundial, da qual, imaginem, um dia, e não faz tanto tempo assim, quase se tornou peça fundamental, uma tristeza.

É muita areia na cara tentando encobrir nossa clara visão, vamos combinar, um deserto de boas intenções e oásis nenhum à vista. Como diria o velho Rubem, é mesmo de amargar.

E um bom domingo procês.

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