“Narrativa” de uma reta final

"Três bandeiras", encáustica sobre tela de Jasper Johns, 1958;

“Três bandeiras”, encáustica sobre tela de Jasper Johns, 1958.

Francamente, não me lembro de um ano em que eu tenha perdido tantos amigos de uma só vez.

Bem, fazer o quê. E não quero dizer que os perdi “para a  morte”, nada disso, embora na minha idade isso vá se tornando cada vez mais comum… Mas que os perdi no Facebook.

Tudo começou aí no Brasil, por conta da radical virada política, na qual se demonstrou que aquele partido que estava no poder por uns… humm… mais ou menos 14 anos, era um bocado corrupto, e pior, indubitavelmente incapaz de governar.

Quando falo neste assunto aqui nos Estados Unidos, tenho certeza de que o pessoal não entende de que tipo de corrupção eu estou falando, ou de que tipo de incompetência. Tivemos uma sorte danada de conseguir manter o país vivo e funcionando. Vejam, por exemplo, o que ocorreu, e ainda está ocorrendo na Venezuela.

Mesmo assim, o Brasil ficou dividido. E a comunidade de artistas e autores na qual eu deveria me encaixar — mas certamente não me encaixo, nunca me encaixei — estava seriamente empenhada em negar a realidade. E assim continua. O que descreve a atual “intelligentsia” bem melhor do que qualquer outra coisa.

No final, essas mentes iluminadas não tiveram chance, e a verdade prevaleceu. Vale lembrar que, no Brasil, foi infinitas vezes mais fácil perceber a verdade verdadeira do que está sendo nos Estados Unidos, por exemplo. Bastou prestar um pouco de atenção no encolhimento do emprego, da renda, da infraestrutura.

Não sei por que, mas meus instintos mais profundos vêm insistindo, já faz algum tempo, na ideia de que o que ocorreu no Brasil constitui um “estudo de caso” — nesse caso, bem-sucedido, felizmente —, um exemplo claro do que vem acontecendo num mundo em que a esquerda gloriosa vem progressivamente (ok, desculpem o trocadilho) se transformando na “esquerda regressiva”.

Tenho visto esse termo sendo utilizado com bastante frequência, mas esta semana fiquei contente de ver que ele foi adotado por um dos meus “gurus” do passado, Michael Schermer, editor da Skeptic Magazine e colunista mensal da Scientific American. Comecei a ler o Schermer regularmente por ele ser uma espécie de “cético oficial”, numa fase da minha vida em que eu estava convencida e amplamente envolvida com o sobrenatural e a espiritualidade. Para vocês terem uma ideia, nessa época eu dizia que era “xamã”, pensem bem. Mesmo assim, sempre dei um jeito de seguir duvidando, mantendo-me saudavelmente cética, aberta à possibilidade de que as minhas verdades não passassem de mitos. Acredito que sempre precisei de ter alguém, ou alguma coisa, me forçando na contramão, sei lá, para impedir que eu viajasse demais na maionese, derivasse de vez para o reino fantasioso dos meus desejos — uma tarefa que hoje em dia é desempenhada com perfeição pelo meu marido Alan.

Voltando ao Schermer, esta semana ele tuitou o que ele mesmo qualificou como “o melhor resumo de um só parágrafo a respeito do problema da esquerda regressiva, do vitimismo feminista e do politicamente correto” que ele já tinha lido. Concordei com tudo, e por um breve momento não me senti tão “sozinha neste mundo”. Vejam que tremendo poder tem o “compartilhamento do pensamento”.

Então, como eu ia dizendo, este ano perdi um bocado de amigos, inclusive algumas novas amigas americanas perdidas para o “vitimismo feminista”, um dentre os múltiplos males que têm nos afligido nesta nossa época de intenso compartilhamento de fortes opiniões por gente que, não faz muito tempo, dificilmente se arriscaria a abrir a boca, que dirá se fazer ouvir .

Vocês acham que isso é bom? Acham que é “liberdade de expressão”?

Eu não.

Uma ampla maioria desses novíssimos donos da verdade, apontados como exemplos a serem seguidos e investidos do direito de manipular o público pelo simples fato de frequentarem a rede social, mal sabem o que estão dizendo. Sua “linha de pesquisa” se resume àquilo que ouviram falar — informações equivocadas, ou no mínimo incompletas, frequentemente desmentidas antes de o dia terminar. Trata-se, na verdade, da contínua manipulação dos manipuladores num ambiente mental tão fortemente parcial e sujeito a flutuações que eu o descreveria como “incestuoso”. Não faço ideia de por que este termo me veio à mente, mas o acatei mesmo assim.

Aqui nos EUA, para mim um ambiente de troca de ideias completamente novo, no qual tive a rara oportunidade de me mostrar de um jeito nunca antes cogitado, já que ninguém me conhecia, não custei muito a me posicionar do lado errado, naturalmente contra meus óbvios colegas “intelectuais”. E desta vez, num círculo muito mais perigoso, com consequências muito mais sérias do que no Brasil. Afinal de contas, não se trata apenas do futuro dos americanos, mas também do futuro da civilização ocidental como costumávamos conhecê-la.

Isso, estou falando das eleições americanas, nas quais me posicionei a favor de Donald Trump, ele mesmo, sujeito horroroso, nojento, idiota, ignorante, misógino, racista, preconceituoso, desonesto, sonegador de impostos e agarrador de xoxotas. Será que esqueci alguma coisa? Provavelmente.

Uma das minhas perdas mais sentidas e lamentadas nesta temporada de amigos perdidos ocorreu quando critiquei um deles por sua adoração explícita de Michelle Obama. A criatura me cortou imediatamente, nem tive chance de me explicar. Tudo bem, sei muito bem que nesse caso eu estava brincando com fogo. Michelle Obama é território proibido, uma santa nacionalmente incensada, um ícone sagrado. Mas não é nada difícil entender a minha atitude se considerarmos que o amigo em questão é uma pessoa muito famosa no Brasil, amplamente conhecido por seu eterno ativismo contra o status quo, crítico social badalado e um ácido luminar do mundo teatral… que agora se bandeou para o lado da esquerda regressiva, como tantos de nossos ídolos mais admirados. Só que, aparentemente, ele ainda não sabe. Como milhões de outros como ele, meu ex-amigo acredita firmemente que está do lado dos justos, batalhando, não só pelo bem comum, mas pelo bem absoluto. Mais um manipulador que se deixou manipular para variar, figura impoluta no meio altamente valorizado e amplamente disseminado da grande rede social. Uma pena.

Ironicamente, minha decisão de “votar” em Trump (todo mundo sabe que por ser imigrante não voto aqui nos EUA, apesar de que, no atual estado de “corrupção” do sistema eu bem que poderia votar, se quisesse de verdade) me mantém firme e forte no terreno “do contra”. Mais ironicamente ainda, sou contra tudo aquilo que sempre defendi quando era contra o status quo na minha juventude — como feminista, não nos slogans e palavras de ordem, mas nos atos mesmo, já que me fiz por mim mesma e sempre fiz questão de ser uma mulher completa e indubitavelmente independente de qualquer homem, exceto, talvez, no quesito relacionamento, já que acabei me revelando extremamente careta e conservadora no nosso “admirável mundo multigênero” —, exatamente o mesmo status quo que hoje eu tanto critico. De novo.

Há umas poucas semanas, devo admitir, eu estava bastante desanimada, não por causa dos fatos, mas por causa da “desconstrução dos fatos empreendida pela mídia”; quer dizer, porque eu acreditava que Donald Trump seria o candidato da mudança, e ele se encontrava em pleno declínio por conta de seu infinito (e muito atrasado) estoque de escândalos pessoais. Mas agora não estou mais.

Chegamos, finalmente, à reta final desta temporada eleitoral, felizmente, já que está todo mundo exausto, caindo pelas tabelas (e pesquisas). E, embora ainda persista uma leve possibilidade de que ocorra um “efeito Brexit”, acabei entendendo que tudo aquilo que a gente apoia e defende acaba tendo um certo efeito na prática, mesmo que a gente neste momento ainda ignore qual seja.

Só por curiosidade, numa aventura social tão marcada por “narrativas” como nunca se viu (vamos combinar, o próprio termo “narrativa” adquiriu um novo sentido) fico tentando adivinhar quem vai acabar ocupando a “casa” mais importante do país. E, não importa o que aconteça, prefiro acreditar que seremos sábios o bastante para lidar com o que rolar, e mudar o que não estiver nos agradando — e quando digo nós, quero dizer humanos, e a longo prazo.

É o que nos resta, não é mesmo?

Por coincidência, numa nota mais pessoal, eu também me encontro numa espécie de “reta final”. E embora não saiba exatamente em que direção estou caminhando, pelo menos sei em que casa estarei: naquela que estou construindo neste momento, no alto de uma montanha, onde, provavelmente, deverei ter dificuldade para acessar a internet, o que deve colaborar para eu me isolar (pelo menos em parte) deste insensato mundo conectado.

Deus me ajude. E Deus ajude os Estados Unidos da América.

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