Narrativas

lies2Há alguns anos, uma de minhas melhores amigas, que além de escritora era também publicitária, foi contratada para a campanha de um candidato do PT à prefeitura de uma pequena cidade no interior de Minas Gerais.

Depois de um mês de “imersão” no QG da campanha, minha amiga voltou impressionada com o nível de corrupção que tinha testemunhado, e me falou que pretendia escrever um livro a respeito.

Dei o maior apoio. O PT naquela época ainda estava no auge da popularidade, embora já houvessem consistentes rumores de propina e má administração. E embora a gente esperasse que o partido se desse mal nas eleições municipais, não foi o que na verdade ocorreu.

Minha amiga deu um tempo. Depois decidiu adiar seu projeto, que, no final das contas, nunca foi concretizado. Ela acabou mudando de ideia, e aproveitando, mudou de ramo também, e hoje se dedica à construção imobiliária.

Fico pensando em quanta gente boa por aí tomou essa mesma decisão de não falar o que sabia e o que estava vendo, e não culpo esse pessoal de jeito nenhum. Para a nossa geração, denunciar qualquer coisa que tenha a ver com o governo constituiu por um bom tempo algo bastante perigoso, já que crescemos durante a ditadura, os infames “Anos de Chumbo” (chumbo aqui significando bala, mesmo). Embora, é claro, hoje em dia exista no Brasil uma democracia madura e total liberdade de imprensa; é nisso pelo menos que a gente prefere acreditar. Por outro lado, qualquer pessoa medianamente bem-informada sabe que “para que o mal triunfe basta que gente de bem decida não fazer nada”, desculpem aí.

Enfim, o que se pode fazer. As pessoas são livres para escolher.

Hoje, quarta-feira, enquanto estou escrevendo, o Senado se prepara para votar o que será provavelmente o “último suspiro” de Dilma Roussef. Depois de idas e vindas e um bocado de drama, mais parecendo uma novela disfarçada de reality show, a presidente vai ser destituída por 180 dias, provavelmente para sempre. Vamos nos livrar de suas supostas boas intenções e péssimos resultados, que quase acabaram por destruir o país. Isso, para nem mencionar a imposição constante de visões de esquerda, defendendo a ideia de que os partidários do PT são os donos da verdade e da “bondade humana”. Imaginem.

Donos da incompetência e da desonestidade, isso sim. E isso deverá ser provado no final. Na verdade, demos a maior sorte por ainda nos restar um país que poderá se recuperar, com o tempo e um governo em que se possa confiar.

Na contramão da lógica mais comum, já que nosso país não passa de uma “república  de terceiro-mundo sem relevância”, vou me arriscar a afirmar que o Brasil de hoje deveria ser considerado uma espécie de “mapa do tesouro” para resolver o “problema da esquerda”. Tudo bem, eu entendo muito bem que vocês talvez nem saibam qual é esse “problema da esquerda”, ou qualquer coisa nessa linha. Mas basta parar para pensar e analisar com calma o que está acontecendo neste momento na temporada eleitoral nos Estados Unidos, ou nos derradeiros meses do governo Obama, para entender do que se trata.

Esta semana, um artigo chocante publicado no New York Times expôs sem meias palavras para o público em geral a noção de que o povo americano foi e tem sido manipulado para acreditar em fatos que, na verdade, não passam de mentira pura. Vamos combinar que, de um jeito ou de outro, dava para imaginar qualquer coisa rolando nesse sentido, mas a esse ponto? Se a realidade não estivesse tão flagrante, eu me recusaria a acreditar que tal coisa pudesse acontecer nos Estados Unidos, imaginem; mas lá estava, tudo muito claro, explicado nos mínimos detalhes, incluindo a “narrativa” que deveria infalivelmente nos convencer da justa necessidade do Acordo Nuclear com o Irã (não sei se vocês sabem, mas a grande maioria do povo americano era contra esse acordo). No artigo, os jornalistas são tratados com desprezo, como se fossem crianças de escola, meio imbecis. E que dizer do povo em geral? Daqueles que (bem ingenuamente, acredito), confiam nas instituições, nas incensadas ideias dos “fundadores” da América?

Como estrangeira (e iludida), confesso que fiquei espantada. E ainda tem mais.

O Facebook acaba de ser acusado de “manipular” as notícias (aqui nos EUA o Facebook é considerado uma espécie de portal, linkando os sites de noticiário), favorecendo os esquerdistas, ops, liberais, em detrimento dos conservadores. Isso, dizem, para agradar o “chefe”, o que incluiria o fato de ele ser contra Donald Trump.

Tudo bem. Todo mundo tem direito à sua opinião. Mas não à “manipulação da opinião”, não é? O que deveria, a meu ver, abranger tanto a equipe do Facebook como seus usuários, ou estou ficando maluca?

Liberdade de imprensa e amor à verdade não são os únicos valores americanos sendo desafiados ultimamente. Longe de mim pretender parecer “careta” ou preconceituosa, mas o que começou como uma “colorida” campanha de direitos para os gays está agora se degenerando num estado geral de abuso e perversão de fazer corar a Sodoma de Pasolini. Peço desculpas por minha linguagem radical, mas me enchi de vez! O pior é que tudo isso nada mais é do que um mero sinal dos atuais rumos da nossa sociedade. Infelizmente.

Crianças e adolescentes têm sido como nunca antes encorajados a duvidar de seu próprio “gênero”. A moral e a família tradicional têm sido desprezadas, rotuladas como retrógradas, num mundo onde certo e errado nada mais têm de “absolutos”. Muito pelo contrário: tudo hoje em dia é passível de discussão. A “educação” está sendo transformada num campo de batalha, onde ideólogos dedicados jogam pesado, para ganhar. E o prêmio que eles mais ambicionam é a “verdade do futuro”, cada vez menos discutida porque a pluralidade de pensamento tem sido cuidadosamente afastada das universidades, por exemplo, que boicotam as vozes conservadoras. Isso vem acontecendo nos Estados Unidos, mas, pelo que sei, o Brasil não fica muito atrás.

Pessoalmente, detesto teorias de conspiração, mas está ficando cada vez mais claro que estão tentando nos impor uma “agenda esquerdista”, diminuindo cada vez mais o espaço de contestação. Agora mesmo no Brasil, por exemplo, pessoas que tinham se afastado da esquerda porque, afinal de contas, não estava dando para defender a corrupção no PT, já estão voltando a cerrar fileira. Pensamento e verdades estão sendo “processados” em vários cenários, não só na política. Esta semana, por exemplo, li num artigo que Freud teria dito que “é impossível ignorar a que ponto a civilização é construída com base numa renúncia ao instinto”. Para meu profundo desânimo, o autor — de quem gosto bastante, por sinal —, pretendendo atacar uma fala de Trump em defesa do uso de sua intuição, se “esqueceu” de informar ao público leitor de que Freud na verdade não estava falando de política, mas de sexo, dos impulsos sexuais. Para ser exata, da pulsão de morte [Todestrib] como contraposição ao instinto de sobrevivência [Lebenstrieb], descrito como Eros.

Freud nunca disse nada no sentindo de negar a “intuição” que utilizamos na tomada de decisões. Pô, peraí. E, mesmo que tivesse dito, teria sido desmentido, já que a ciência hoje em dia reconhece sem sombra de dúvida a importância da intuição nesse processo.

E por aí vai.

Todo mundo sabe que na antiguidade a História era frequentemente reescrita pelos que se saíam vitoriosos em guerras de vida e morte. Mas nada se compara à atual prática de manipular o próprio pensamento, um estado de coisas no qual, para além de uma muito festejada “democracia da informação”, certas ideias são qualificadas como mais “morais” que outras, e, portanto, as pessoas que as defendem são “melhores” que as outras. Contra quem estamos combatendo, afinal? Indo mais fundo, será que estaríamos melhor arranjados se um desses “lados” terminasse eliminado?

Duvido.

Recentemente, o incêndio que queimou (e continua queimando) um estado inteiro no Canadá tem sido atribuído ao “aquecimento global”, culpando ferozmente a indústria “suja” de extração de petróleo no local. Li no mural de uma amiga canadense que gente que perdeu tudo, e foi forçada a deixar suas casas, está sendo acusada de “atrair a própria desgraça”. Peraí. Trata-se exatamente daquela mesma mania horrorosa, muito popular na Nova Era, de se “culpar o paciente de câncer por sua própria doença”, uma ideia no mínimo muito injusta.

Esses “escrevinhadores de narrativas” são tão descuidados que desprezam a História, e manipulam bancos de dados sem o menor constrangimento. E já que estamos falando de desastres da natureza, o que dizer, por exemplo, da tempestade de poeira ocorrida em maio de 1934 nos Estados Unidos, há exatos 82 anos? De acordo com os registros, “numa maciça tempestade, toneladas de partículas de solo voaram através das “Great Plains” nos Estados Unidos atingindo até Nova York, Boston e Atlanta”. Será que a terrível seca que provocou o fenômeno também se deveu à atividade humana?

Ok. Como escritora, tenho direito a “criar uma narrativa” e jogar à vontade com seus elementos. Trata-se, basicamente, da essência do meu trabalho. Quando junto num mesmo texto fatos diversos, ocorridos em épocas diferentes, estou procurando, definitivamente, manipular as crenças das pessoas, ou criar uma história que torne a realidade mais fácil de entender. Mas faço questão de sempre esclarecer meus métodos, sempre enfatizando a inevitável presença de um exagero que é crucial para o sucesso desse gênero literário intitulado “crônica”. Também costumo insistir no fato de que tudo que escrevo não passa da minha própria opinião, meu jeito de ver e entender as coisas, que, aliás, não imponho a ninguém, a não ser a mim mesma.

Já essas pessoas que descrevi mais acima, encarregadas de nossas “narrativas cotidianas”, podem não ser assim tão inocentes, nem tão bem-intencionadas. Cuidado. Elas querem você.

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