Nem toda forma de horror vale a pena

A famosa cena do hermafrodita no "Satyricon" de Fellini.

A famosa cena do hermafrodita no “Satyricon” de Fellini.

Amei este artigo. Apesar disso, foi difícil de ler até o final, assim como é difícil engolir toda essa propaganda sobre “transgênero”. Estamos tornando nossa experiência humana tão complicada e insuportável que daqui a pouco todos aspiraremos a ser macacos, ops, será que fui preconceituosa? Desculpem. Como uma “mulher-desde-o-berço” e uma autêntica “ela” (por falar nisso, como escritora adorei o neologismo “elea”[1]), adoraria que pudéssemos nos concentrar em questões cruciais, como, sei lá, arte, filosofia, reflexão profunda, tudo bem, um erotismo que não é transformado em caricatura. Desculpem. Estou com raiva. Uma pessoa, sim, nasce com um gênero. Poucos de nós costumavam ser chamados “hermafroditas” (tipo de anomalia e raridade biológica que os índios escolhiam para serem “xamãs”, seres sagrados), como vimos mais recentemente no sensível filme argentino “XXY”, e também no clássico de Pasolini, “Caligula”, oi? Quem é esse tal de Pasolini aí? Um ativista transgênero? (Carta enviada ao NY Times a respeito do artigo “O que faz uma mulher”, em 7 de junho de 2015)

Vamos combinar, com toda a passeata gay em São Paulo (aconteceu alguma coisa lá, não sei bem o quê) e toda a “agenda editorial” da mídia, pelo menos do NY Times, não sei bem por que motivo dando tanta pinta para a “transformação de Caitlyn Jenner”, o assunto teria passado em branco para esta cronista… não fosse a rejeição do meu comentário no mesmo NY Times, rejeição aliás mais tecnológica do que pessoal, pois quando consegui terminar a breve mensagem em inglês para o jornal os comentários já tinham fechado e, bem, apesar de umas 789 pessoas terem comentado, aparentemente a coisa não foi adiante nas “cartas para o editor”. Isso, para nem mencionar a aparente decadência do Império Americano atualmente em curso, segundo o Alan apenas uma estratégia para distrair a nossa mente dos verdadeiros problemas.

Ops. Será que mirei num alvo e sem querer atingi outro? Será que todo esse movimento é para provar aos ativistas que estando plenamente aceitos — sem sofrer nenhum tipo de rejeição pública, digo — já podem se recolher em paz a seus lares e seus pares?

Não funcionou bem assim. Acompanhei os comentários, e a grande maioria era contra esse estado de coisas em que todos devemos enaltecer a raridade querendo se alçar à categoria de normalidade.

E já que me meti nesse furdunço de fazer gosto, terei que manifestar a minha opinião. Toda essa questão de “transição”, na verdade, não se aplica a gente com problemas de gênero de verdade, do tipo, para ser franca, que trazem no mesmo corpo um pênis e uma vagina tendo (ou não) que optar por um ou por outro como o personagem do filme argentino, mas de homens que gostam de pintar as unhas e de se vestir de mulher, ou também o contrário, para que não me acusem de “sexista”, mulheres que gostam de amassar os seios e se vestir de homem.

Não é o pior, ou estaríamos apenas discutindo uma questão de comportamento, e, francamente, cada um que se comporte do jeito que quiser. O caso se torna mais grave quando, mesmo não chegando ao ponto da cirurgia castradora, leva a pessoa a se envenenar sistematicamente com altas doses de hormônios injetados simplesmente para satisfazer uma psique problemática, porque, pão-pão, queijo-queijo, quantas dessas pessoas não são nada mais do que homossexuais normais, mas com um “desejo” a mais?

Fica mais curioso ainda quando o homem que vira mulher se apaixona por uma mulher que virou homem, nesse caso a coisa seria o quê? Nem Tim Maia explica.

A questão é que quando a questão (ui) atinge a grande mídia, tendemos a pensar que de perto “ninguém é normal”, ou, ao contrário, é tudo normal. Mesmo se automutilar ou se entupir de drogas inadequadas ao seu mal, ó, desculpem a minha falta de tato.

Embora não pareça ser este o fato, aproveitando o ensejo que hoje (sim, escrevo às sextas-feiras) é dia dos namorados no Brasil, o que deveria ser explicado como o “dia oficial do amor”, ou pelo menos dos enamorados, o que quero discutir é a falta de amor, ou, por outro lado, como esses pobres-coitados resolvem depois de transformados a questão do verdadeiro amor, que como tudo mundo sabe é a única coisa que no final interessa. Amar. Ser amado. E estamos apaixonados.

O que eu queria mesmo apontar é que justamente nesta semana dos namorados (que para mim é a verdadeira, ainda não me adaptei ao tal dia dos namorados por volta do carnaval, como Alan nunca se adaptou à nossa data romântica por volta do dia dos pais, entenderam?), por coincidência ou não, esbarrei na mesa de edição com um dos mais importantes romances da literatura brasileira, que, aproveito para confessar, nunca me animei a enfrentar, uma mancha na minha cultura? (Guimarães Rosa escrevia assim, gostava de afirmar um fato consumado fazendo uma pergunta). E dentro dele uma das mais românticas declarações de amor que já li… que embora não tenha terminado desse jeito, por quase todo o texto correu o risco de ser um daqueles amores que antigamente eram massacrados, mas hoje são endeusados.

Deixei meu corpo querer Diadorim; minha alma? Eu tinha recordação do cheiro dele. Mesmo no escuro, assim, eu tinha aquele fino das feições, que eu não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da idéia. Diadorim — mesmo o bravo guerreiro — ele era para tanto carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume no pescoço: a lá, aonde se acabava e remansava a dureza do queixo, do rosto… Beleza — o que é? (…) Ele fosse uma mulher, e à-alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão e no fazer — pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! (Grande sertão: veredas, 1937)

Toda a ironia da situação (não é spoiler, mas o segredo mais divulgado da literatura brasileira) é que o jagunço machão se via irremediavelmente apaixonado pelo outro jagunço ao seu lado (e não podia aceitar isso, por “preconceito”, educação, “manipulação social”), que, na verdade, era uma mulher travestida de homem porque gostava de guerrear, ou outro motivo qualquer que talvez seja explorado no livro, e só na morte o tal segredo (que, vamos combinar, vazava para tudo quanto era lado) é revelado. Tarde demais.

Talvez, e isso não creio que Rosa tenha arriscado, Diadorim preferisse amar uma outra mulher, ou tivesse medo do pau levantado, sei lá, não querendo sexo com o colega apaixonado nem pintado de dourado, entendo muito bem a dor do pobre Riobaldo, que dela sofria mesmo sem saber do que se tratava, uma coisa que nenhum desses artigos e bombásticos recados aborda em momento algum: a atração habitual que se processa entre um homem e uma mulher em alguma camada sutil da consciência, uma espécie de aura, cheiro, feromônio, coisa de animal.

Tudo isso escrevo (e sinto), claro, porque sou uma reles heterossexual, fazer o quê. E também por ter considerado que o clássico de Guimarães Rosa aborda a questão de um jeito muito mais sofisticado, profundo, sentido, erótico, eu quis escrever humanizado, mas me acovardei, porque a grita seria grande, e outro termo tão justo não encontrei, um problema comum ao nível das capas de revista.

E para concluir a história vou simplificar um bocado: esse pessoal que anda por aí querendo a qualquer preço (ou custo) ser valorizado coloca seu problema de um jeito superficial demais da conta, esmaltes, cintas, brocados, e por conta disso não leva de mim nem um centavo. Só desejo que sejam ignorados.

Resta uma nota confessional, mais um vexame do meu nível cultural: amarguei uma dúvida se o filme mencionado na carta ao NY Times era mesmo o “Calígula” de Pasolini (1979) ou na verdade o “Satyricon” de Fellini (1969), saudades do tempo em que o cinema era mesmo a sétima arte, quais eram mesmo as outras seis?

E um bom domingo procês.  

 

[1] A carta foi escrita em inglês, então ralei para traduzir a mim mesma para o português, para variar. Em inglês a questão do gênero na escrita é bem marcante, e o ótimo neologismo original da autora é “hirself”.

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