Neurótica: uma autorradiografia

Analista bioenergético observa paciente que a seu comando esperneia no divã

Alan, como vocês sabem, não me dá moleza: critica todos e tudo que eu falo ou faço, deve ser a tal prerrogativa do falo, ops, desculpem, do macho. Vive repetindo que sou “mercadoria estragada”, não tenho mais jeito, que tudo de bom que eu pudesse ser um dia foi alterado em definitivo enquanto cresci com meu ego esmagado; aí ele para por um dramático segundo ( :XXXXXXXX, um segundo de silêncio) e segue com a homenagem à minha falecida mãezinha cujo defunto ainda está fresco, tenha piedade, homem.

O que ele não sabe, porque eu escondo muito bem, melhor que minha recém adquirida garrafinha de bolso para uísque, é que apesar dos anos de terapia gritando, esperneando e abraçando quem eu não queria — como se vê no vídeo, trecho escolhido de um incrível documentário da BBC — continuei pela vida anal como era desde criancinha, e viva Freud. Prova disso é que passei os últimos 30 minutos redobrando os lençóis e toalhas no armário do banheiro, e meu sonho agora que estou ficando rica é contratar uma camareira de hotel aqui pra casa, afinal de contas, faço questão de tudo muito bem ordenadinho e as dobrinhas todas sem uma ruga sequer, quem hoje em dia consegue isso? Pois é: por mais que fizesse nunca consegui “destruir o policial dentro da minha cabeça” como era obrigatório na minha época, e sempre me senti meio besta socando travesseiro e tentando espernear daquele jeito no consultório da psicanalista, vamos combinar.

O resto, aqui.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *