Nisht ahin, nisht aher

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— Alan, aqui nos Estados Unidos também é assim, muda tudo toda hora? — pergunto, referindo-me ao fato de que a Receita brasileira acaba de acrescentar cinco novos campos obrigatórios à emissão de notas fiscais, me deixando perdida para variar.

— Claro que não. Isso é coisa de república de bananas, Rússia, China — sem nenhum preconceito, por favor. A parte “onde grassa a impunidade” ele não acrescenta, só pensa, mas como boa adepta do indispensável “jogo de cintura” tenho que ler até pensamento, sabem como é.

Isso aí. Por mais que eu tenha tentado prever que problemas teria por estar nos Estados Unidos administrando uma empresa no Brasil, tendo inclusive comprado um certificado digital obrigatório válido por três anos e renovável por outros três (vocês acreditam mesmo que o atual modelo brasileiro de certificado digital  vai durar essa eternidade toda?), não foi só o formulário de notas fiscais que mudou esta semana, mas também o aplicativo de segurança do Banco Itaú, até aí, tudo bem, já que o dispositivo antigo era apontado por 10 entre 10 antivirus como um arquivo “suspeito” (nada a ver com seu emissor “Gas Tecnologia”, obviamente), além de ter apenas uma estrela na cotação do Chrome, uma estrela, isso mesmo, uma vergonha mundial para o maior banco nacional.

O problema é que para se ter acesso ao aplicativo novo é preciso um celular no Brasil, e para conseguir instalá-lo tive que enfrentar uma teia kafkiana, da qual fui resgatada pela gentileza de minha gerente petropolitana e pela generosidade do meu mano Caetano, que tem sistematicamente quebrado todos os meus galhos neste período de adaptação à minha voluntária condição de autoexilada.

Conclusão: nem tente brincar de emigrado se você não tem uma base potente de pelo menos um amigo muito paciente e dedicado radicado no Brasil, entendeu bem?

Outra amiga rebate no Facebook qualquer possível “euforia de liberdade” por ter escapado a tempo à (cada vez mais) ilógica e corrompida Pátria Amada Brasil: “Nosso dinheiro vale uma merreca no exterior — fato — e o plano de saúde pago há tantos anos, por exemplo, tem que ser deixado para trás”.

Tá bom. Mas será que estando de alguma forma inserido na sociedade americana alguém vai fazer questão de tratamento médico no Brasil? Não sei. Não tenho plano de saúde, nisht ahin nisht aher, como diria vovó — em prosaico português “nem cá nem lá”. O negócio é torcer para não ficar doente, ainda mais com tanto anúncio de remédio na televisão — algo que nunca se vê no Brasil, uma sorte, vamos combinar —, com ênfase em todos os mortais efeitos colaterais, uma espécie de forçosa propagação oral da nossa conhecida bula obrigatória por lei, quase escrevi “burla” mas consegui me controlar. Ufa.

Taí: “nisht ahin nisht aher” é a mais perfeita definição de como tenho me sentido, isso, para não apelar para a velha lenda esopiana da gralha e da pomba, ah, vocês não conhecem, sobre a gralha que se disfarça de pomba mas nem assim consegue ser aceita entre as pombas, ou seria o contrário?

Afinal, serei gralha ou serei pomba? Pelo menos no nosso terreno em Paris Mountain só se escutam gralhas, ou corvos, e temos tentando não prestar atenção à noção cinematográfica de que um corvo grasnando é sempre sinal de algum futuro mal, mas é só neurose, deixa pra lá. Ou então uma mera característica local.

A verdade é que, como lembrou uma amiga — que esta semana me estendeu a mão para “aliviar meu fardo, que anda muito pesado”, ou vocês estão pensando que emigrar é arroz com feijão? —, tendo nascido em Israel, vivido em Belo Horizonte, morado no Rio, em Brasília e em Petrópolis e vivendo hoje em Greenville, nos Estados Unidos, estou mais do que qualificada como observadora destacada, destacada do ambiente que a cerca, digo, acostumada a se sentir isolada, um incômodo danado que só consegue ser levemente relativizado pela ubiquidade do Facebook.

De cada lugar onde morei carrego comigo uma ou outra pena (pena de gralha, claro, ou seria de pomba, “pomba” tendo hoje em dia uma reputação meio falha?), mas de Minas, devo confessar, trago uma personalidade inteira, um legítimo “retorno do recalcado”, poderíamos dizer, tendo a infância e adolescência para reforçá-la. E o mineiro, como vocês sabem, é intrinsecamente um desconfiado, o que tem causado ao Alan certo sofrimento, devo reconhecer. E ele não deixa barato de jeito nenhum.

Prometi a ele que uma vez nos Estados Unidos o deixaria livre para me controlar, mas quem disse que consigo me entregar? Desconfio, desconfio sim, é minha primeira natureza, que nem naquela história do sapo e do escorpião, mas chega de fábulas por hoje. Crescendo no Brasil, como poderia ser diferente?

Começando pela minha família tradicional judia mineira, tenho que lidar diariamente com um descrédito cotidiano que nem sei de onde vem — fui sempre razoavelmente inteligente e bem-sucedida — ou se a bem da verdade ainda está lá, agora que nos custa um bocado a gente se comunicar, apesar de Skype, Facebook etc. Mas como entendi esta semana, embora esteja tentando fervorosamente usufruir da minha recente liberdade de estrangeira — traidora, diriam alguns — formei um “calo” mental que nunca deixa de incomodar.

Isso, pra nem mencionar os prévios maridos, um que me traía ostensivamente e outro muito provavelmente. E sem deixar de fora os empreiteiros, como aquele de Itaipava que nos ofereceu a “garantia de seu bigode”, algo que Alan nunca esquece nem deixa de enfatizar.

É, o Brasil traumatiza a gente. E é justamente nesse quesito de empreiteiro, melhor dizendo, de empreitada, que tenho sofrido agora frente ao Alan a “síndrome da promessa quebrada”. Não consigo deixar tudo a cargo dele e pronto, principalmente por estar me sentindo insegura, uma eterna vítima das adversas circunstâncias, o que se era fato incontestável no Brasil aqui nos EUA parece apenas uma velha mania de perseguição.

Fato é que avançamos um bocado esta semana, devo reconhecer, enquanto no Brasil avança a impunidade anunciada, fato nada inusitado para quem, como bem lembrou o contador que consultamos e que mantém negócios com brasileiros, já enfrentou nem se sabe quantas moedas diferentes e uma realidade angustiante onde “era preciso pagar o almoço antes de comer, pois depois da refeição custaria o dobro”. Encontramos um arquiteto e um empreiteiro que me parecem confiáveis, gente boa, simplesmente, hopefully também competentes, ou certamente iremos nos estrepar, restando apenas a fossa séptica para nos consolar.

Aí foi a vez de Alan desconfiar, só porque o arquiteto gostou do meu projeto, se é que vocês me entendem, reconhecendo que havia ali a mão de um profissional, brasileiro embora. Ou em última instância, apenas para me provocar. Ou seria a velha neurose a me limitar?

Pois é. Só me resta “desapegar para transformar”. Tô fazendo o melhor que posso, juro.

E um bom domingo procês!

 

PS, porque no Brasil sempre há um PS: a crônica já estava pronta quando recebi um comunicado oficial de que a Singular Digital, com quem a KBR há quatro anos fez parceira pioneira para publicação sob demanda, sempre, aliás, com resultados frustrantes e desastrosos, acaba de fechar as portas deixando os clientes com as calças na mão. Chocante, apesar de todos os avisos, do destino e das lâmpadas queimadas sem reposição, para não mencionar as capas descoladas e os erros de impressão… Nossa mãe.

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