Noga Sklar e seus dois maridos

noga dois alans

Como saber se um advogado está mentindo?
Basta conferir se a boca dele está se mexendo.

Popular piada americana

 

Papai adorava advogados. Isto é, adorava pelo menos determinado advogado, o famoso Dr. Raul, a quem considerava não apenas um conselheiro, mas um dileto amigo. É o único tom destoante na minha total e definitiva admiração por papai, que para mim sabia tudo, sabem como é, nunca diminuída nem desmascarada porque não houve tempo hábil para isso.

Meu pai morreu num acidente de carro com um de seus mais próximos amigos — o pobre Moisés dizia que “seguiria o Abrãozinho até o fim de sua vida”, e viajava para o Rio no banco atrás dele, sua última viagem, como já contei inúmeras vezes em minha carreira de autocronista. Dr. Raul, dedicado e competente, perdeu uma ação indenizatória por motivos até hoje não esclarecidos, visto que o motorista que matou Abraão Lubicz, pai de dois filhos, aos 42 anos de idade, estava bêbado, dirigindo um caminhão na contramão da BR3. O lado esquerdo do fusca verde ficou destruído. Coisas da vida.

Enquanto se desenrolava o inventário e a família se embolava em chocado estado funerário, todos e quaisquer pequeninos conselhos e ações do Dr. Raul, presentes e pregressos, se revelaram desastrosos, sem a menor exceção. Entre eles, uma barbeiragem que me afetou ainda mais de perto, pois o filho da mãe imbecil acabou perdendo o prazo para a minha opção de nacionalidade antes da maioridade, não me considero disposta o suficiente para relatar o quanto isso me perturbou por longos e inseguros anos.

Então, peraí, deixa eu contar, vamos avançar no tempo uns 36 anos. Estávamos Alan e eu na Polícia Federal no Rio de Janeiro, providenciando os documentos para o nosso casamento, que tinha menos de 30 dias para se realizar, ou Alan seria “convidado” a se retirar — pois é, tudo na nossa vida é tenso assim, sendo o marido um procrastinador nato e eu uma complicada de carteirinha —, quando descobri que sem uma certidão de nascimento de brasileira, para a qual seria essencial o termo de opção de nacionalidade deixado abandonado na morte do meu pai pelo competentíssimo e abalizadíssimo Dr. Raul, não haveria casamento nenhum, nem a certidão anterior valia nada, nem o título de eleitor, nem passaporte, identidade, CPF. Nada.

Amigos, me esgoelei. Por conta daquele pequeno detalhe do meu “passado”, a cada vez que eu precisava de qualquer documento, ao longo da minha vida inteira, era um terror a ansiedade que eu enfrentava. Isso, para nem mencionar as constantes ameaças da polícia de fronteiras desejando me tornar apátrida em meu próprio país, tentando me enfiar goela abaixo o famigerado passaporte amarelo.

Minha pequena sorte foi que num ano desses aí, como tudo sempre muda no Brasil, mudou também a lei que me concedia o direito de opção, e o prazo irremediavelmente perdido aos 18 anos também perdeu sua validade. Eu estava, portanto, habilitada a requerer a qualquer tempo a nacionalidade, mas devido à urgência do Alan e aos intrincados meandros da burocracia nacional, iria precisar de um advogado.

Não posso reclamar desse, que, recomendado por um cliente de meu irmão, foi rápido e eficiente de verdade. Em menos de dez dias tive que comparecer ao cartório da Ilha do Governador para recolher a minha preciosa Certidão de Nascimento, estourando de nova e de status de legalidade. Eu tinha na época 54 anos de idade, recém-nascida para os anais brasileiros, e até uma crônica escrevi para justificar no processo a minha premente necessidade de optar, foi praticamente minha estreia no negócio de confessar, e me lembro até hoje do que escrevi, algo que certamente hoje em dia, depois de tantos escândalos e amoralidades perpetrados no território da brasilidade, hesitaria um bocado antes de afirmar: “Minha alma é brasileira”.[1]

Casamos, Alan e eu, e o que ocorreu entre o nosso casamento e os acontecimentos desta sexta em que escrevo não preciso contar, já que a minha vida é não apenas um, mas (até o momento) 10 livros abertos para quem os quiser ler.

Acontece que a situação se inverteu, e para que não fosse eu a bola preta da vez, teria que iniciar o pedido de Green Card junto à aterrorizante imigração dos Estados Unidos, processo para o qual é pensamento corrente de que é mister contratar um praticante do Direito. Muito bem.

Alan viajou para visitar nosso filho em Charleston e aproveitei, com a minha já explicada simpatia por tais postulantes, para explorar o assunto na internet. Quando ele voltou, três dias depois, já tinha preenchido todos os detalhados formulários e me decidido por um “voo solo”. Mas Alan não se conformou com isso, vamos combinar que a insegurança dele quanto à falta de um advogado era quase tão grande quanto a minha própria relativa à possibilidade de ter que entregar meu destino a um. E como aqui no país dele é ele quem manda, começamos a assuntar.

A primeira pessoa com quem topamos, uma “paralegal” brasileira super recomendada, dotada, infelizmente, de um assustador linguajar de analfabeta (eu ia dizer “empregada doméstica”, mas me detive a tempo), me disse ao telefone que precisaria “de todos os documentos possíveis” (sem especificar quais), e mais, que Alan e eu teríamos que nos casar de novo. Tentei imaginar a surrealista situação frente ao juiz de paz, com toda a necessária comprovação que lhe apraz:

— Nome?

— Noga Lubicz Sklar.

— Nome do noivo?

— Alan Sklar.

— Estranho, vocês dois têm o mesmo nome? E qual é seu estado civil?

— Casada.

— Mas se a senhora já é casada, como pretende se casar novamente?

Como se não me bastasse um Alan Sklar, eu deveria agora me tornar Noga Sklar Sklar, soou absurdo demais para ser o padrão. E, cá entre nós, uma rápida pesquisa  revelou online que os Estados Unidos não somente obviamente aceitam um casamento legal, como o rejeitam apenas no caso de o país onde ele foi celebrado praticar a poligamia, quase o mesmo crime civil para o qual a para-advogada pretendia me aliciar. E que ainda não é o caso do Brasil, ainda não descemos tão baixo na comunidade internacional.

Pois é. Além de mal saber se expressar, a mulher ainda teve a cara de pau de me contar o caso de uma sua cliente que estava “tentando” obter um Green Card… há cinco anos! Para piorar, descobri na internet — incrível internet — que a tal paradoutora havia sido processada há alguns anos pela Justiça americana por casamento fraudulento para fins de imigração. Então tá.

Foram mais uns dois ou três, cada um mais caro que o outro, não vou cansar vocês com os detalhes dessa chateação, que aliás só ocorreu mesmo por causa da insistência do Alan, e até envolveu contra a minha vontade outro amigo nosso de quem agora me sinto devedora, muito sem graça por não ter aceitado a sua própria doutora, fazer o quê.

Só vou resumir por conta de ilustração que no ramo da “imigratoriedade” nos Estados Unidos grassa a picaretagem por todos os lados, tem até gente vendendo formulários que são baixados de graça no site da própria imigração — mas que país é este! — e sites que cobram para preenchê-los com um nome de domínio tão enganador que, se você não prestar a maior atenção, acaba pensando que está lidando com o próprio governo… e será tarde demais se você só descobrir depois de passar o cartão.

Desses escapei por um triz — de pagar, mas não de preencher o cadastro, e de agora ter que lidar com a insistência de que vou “perder o prazo dos meus formulários incompletos”, por email, por telefone, é assédio de tudo quanto é lado. Do jeito que a coisa vai, já estou quase contratando um advogado para defender os meus direitos de consumidora, pois é, vivendo e aprendendo.

Resta lembrar que vivendo aqui nos Estados Unidos não deverá ir muito longe minha ojeriza à ajuda de advogados, porque são parte integrante do modus operandi local, escapar, quem há de. Felizmente, muito em breve, teremos na família um  advogado brilhante, excelente escritor ainda por cima, sortuda, eu.

Depois de ter postado o meu processo esta manhã, assinado, selado e registrado, me confesso aliviada: completou-se o meu ciclo de uma vida inteira atribulada com dificuldades de nacionalidade, ou pelo menos assim espero.

Dubium lex, sed lex. E um bom domingo procês.

 

[1] Essa crônica faz parte do meu primeiro livrinho de crônicas publicado pela KBR, Um Kindle pra chamar de meu, gratuito em formato ebook na Amazon brasileira.

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