Noventa e três noites

PrintNão sei se vocês se lembram, mas já contei como o maravilhoso colchão do nosso apê de Paris mudou nossa vida quando lá estivemos para os meus 60 anos, em 2012, embora obviamente não tenha causado o mesmo impacto quando voltamos dois anos mais tarde, há um ano quase exatamente, para os 70 do Alan. Terá envelhecido o colchão ou teremos nós? Ou será tudo isso saudade de uma Paris que já não há, infectada à nossa revelia por uma paranoia compreensível, mas que é de matar?

Pô. Peraí. Eu tinha um compromisso comigo mesma de pegar leve desta vez, afinal de contas, ninguém mais aguenta tanta brabeira tantos meses em seguida. Tá todo mundo precisando de um refresco, reconheço, alguns colunistas chegando ao extremo de pedir férias extras.

Vai daí que de volta ao Brasil — em 2012, melhor esclarecer antes que o inconsciente se precipite em conclusões — nosso primeiro ato foi comprar uma cama nova copiando a da Rue Galande, e gente, a cama era tão boa quanto, tenho certeza de que até hoje tem gente desfrutando, mas não nós, que a deixamos para trás como (quase) tudo o mais.

Chegando a Greenville, como vocês bem sabem, montamos acampamento na sala por várias razões, uma delas se elucidando apenas recentemente, nas noites geladas do Hemisfério Norte, a um tempo cortantes e deliciosas… desde que se ligue o aquecimento, é claro.

Pois é, o aquecimento. Funciona apenas na sala em Haywood Pointe, é isso aí. O quarto é um gelo total, só ultrapassado em temperatura (negativa) pelo Polo Norte dentro do closet, e eu que odiava desde sempre o calorão, hein? Et voilà, na sala nos instalamos quando, a bem da verdade, era ainda quase verão, enxergamos longe, ou já imaginaram a trabalheira?

Enfim, entre uma medida temporária e outra, de olho na casa nova — por ironia, em Paris, Paris Mountain desta vez — cuja obra até o presente momento ainda não deslanchou por motivos vários, decidimos que um bom colchão seria de lei, embora a cama propriamente dita não passasse de um estrado de pinho vagabundo. Não chegamos ao extremo de comprar um daqueles totalmente automáticos com controle remoto que resolve até ronco de marido (ou de mulher, embora a simples menção desse assunto seja um bocado constrangedora para mim), não sei bem se oferece conforto total ou uma vaga lembrança de cama de hospital, mas tentamos nos aproximar o máximo possível da lembrança de Paris, França, incluídas as obrigatórias memórias românticas.

Um parêntese necessário seria o comentário de que certas coisas são absurdamente caras nos Estados Unidos, principalmente se multiplicadas por três (exagerando e já adiantando o rumo do nosso câmbio), entre elas… um colchão. Pelo preço do conjunto inteiro em Itaipava (colchão e box), Alan parcelou em seis vezes no cartão e naquela noite mesmo deixamos de dormir no chão. Foi um alívio. Temporário, embora.

Um dos fatores primordiais abordados na venda desses colhões, ops, colchões modernos (juro que foi sem querer, mas decidi deixar, estou tentando o meu melhor para soar hilária, mesmo estando no ponto de fissura da curva bipolar, o que frequentemente resulta em simples grossura, vulgaridade, mesmo, vocês vão me desculpar), é que a pessoa deitada ao seu lado pode se mexer, se virar, se levantar para ir ao banheiro quantas vezes quiser que você nem vai perceber, e no caso do Brasil isso era razoavelmente verdade. Já nos Estados Unidos… no primeiro dia Alan já foi reclamando que eu me mexia demais e não o deixava adormecer. Eu, com o espírito esmagado pela nunca antes imaginada síndrome do exílio que não me larga, nada respondi, nem para lembrar as situações em que ele roncava (bem específicas, por sinal, não é coisa habitual, dependendo bastante do tipo e dosagem do sonífero consumido).

Prosseguimos. O problema é que o caríssimo colchão — hum mil, quinhentos e setenta e cinco reais e trinta e sete centavos ao câmbio comercial desta sexta-feira — não prosseguiu com a gente, e foi se deformando com o tempo.

Não sei como descrever isso delicadamente, com a finesse de uma lady que Alan exige do meu inglês, francamente, mas no lugar frequentemente ocupado por nossas glúteas adiposidades aos poucos uma depressão foi sendo agravada, a um ponto tal que esta semana Alan decidiu fazer valer seus direitos de consumidor e me pediu para localizar a nota de compra impecavelmente arquivada. Noventa e três noites maldormidas tinham se passado, e por sorte a garantia do colchão, com direito a devolução, se estendia a cem dias…. e aqui se faz necessário mais um parêntese.

(Babem, se quiserem, mas aqui nos EUA o direito do consumidor costuma funcionar de verdade, “no questions asked”,[1] com a raríssima exceção da Zara — que me mandou uma camiseta furada e não quis aceitá-la de volta com a desculpa esfarrapada de que tinha passado pelo controle de qualidade —, bem, na verdade foi a exceção que confirma a regra na qual, brasileira, não confio de jeito nenhum, mas Alan, sim, sem pestanejar.)

Pois Alan foi lá, levou duas fotos do colchão tiradas no celular e marcou a retirada daquele monstro do nosso apartamento naquela noite mesmo, tudo isso sem nem me consultar, pois é, ele tem andado desatencioso à beça comigo, acho que contaminado pela infame misoginia local que já comentei. Para amenizar o problema e não nos deixar sem ter onde dormir por sabe-se lá quantas noites mais, até encontrarmos um substituto à altura, chegou em casa triunfante com um colchão inflável, bomba embutida e tudo, adquirido no Walmart por meros 50 dólares (para efeito de comparação, apenas cento e trinta e um reais e cinquenta centavos ao câmbio desta sexta-feira).

Bom, para encurtar a história, nem vou mencionar o alerta no Manual de Instruções, avisando que conforme as condições de uso e a temperatura do ambiente o colchão poderá explodir sem aviso prévio. Alan plugou o superbalão na tomada próxima à cama e fomos dormir… bem, ele foi dormir, porque eu, confesso, fiquei tão alarmada com a possibilidade de explosão que naquela noite fiquei trabalhando no projeto da nossa casa até as quatro da manhã, quando fui obrigada pela exaustão a enfrentar a parada de qualquer maneira.

Pior a emenda que o soneto, fala sério, nunca uma frase feita foi tão verdadeira. A cada leve virada o inflado range, eu acordo, Alan reclama, diz que pareço uma manada inteira de elefantes (ignora obviamente seu próprio e pesado movimento), nem preciso comentar que estamos mais longe do que nunca dos nossos arroubos românticos dos tempos de Paris, se é que vocês me entendem.

Have a nice Sunday, pigs![2]

 

[1] “Sem perguntar nada”.

[2] Não se ofendam, “pigs” é a exata tradução do Google para o meu mineiro “procês”.

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