O aperto do cerco eleitoral

raceusSe existe uma sensação incômoda nesta vida é quando se tem uma forte impressão a respeito de alguma coisa que contraria o senso “comum”, ou, pelo menos, a óbvia opção da maioria. Como agora, nesse caso violento do assassinato de nove pessoas numa comunidade negra em Charleston, na Carolina do Sul, imaginem, pertinho daqui.

O “sul profundo”, que pode ou não incluir a Carolina, onde estou morando, é considerando por sua herança do “cinturão do algodão” como uma panela de pressão sempre prestes a explodir, embora, no dia a dia, como já disse, eu não me sinta num lugar racista. Machista, sim, mas não racista, seriam as duas coisas relacionadas para além da rima? Tudo bem, talvez eu esteja iludida.

A triste verdade é que o ser humano tende, de um jeito ou de outro, a excluir de seu círculo de preferências (nem sempre de convívio, como no caso de homem e mulher, ou a raça humana estaria extinta) o diferente de si, seja por sexo, religião ou cor de pele. O lado terrível de todo esse componente altamente combustível é a possível (e provável) exploração política com base na adulteração, nem tanto dos fatos, mas de seus motivos.

Creio que é o que está acontecendo. Tem certas coisas que como estrangeira eu não entendo, embora em 10 anos de casamento intercultural já tenha acumulado certo entendimento internacional. Afinal de contas, este é um lar politizado, e frequentemente muito polarizado.

No outro dia, por exemplo, Alan disse que seria um bom caminho a ser explorado se eu me dispusesse a escrever sobre a política americana, agora que as tensões eleitorais começam a se acirrar: dentro de um mês e meio ocorrerá o primeiro debate presidencial para 2016, desta vez limitado à miríade de candidatos apenas do Partido Republicano, e tenho prestado atenção, tenho até gostado da visão da mesma Fox News que eu odiava à época da primeira eleição de Obama. As coisas mudam.

Brinquei com ele que desta vez não teria a mesma graça (pra quem não sabe, escrevi um livro sobre a primeira eleição de Obama, francamente a favor dele, enquanto Alan era radicalmente contra), pois a princípio estamos de acordo em várias coisas, entre elas a conveniência de se eleger um republicano, apenas não está claro qual. Quase todos até agora têm mais defeitos do que qualidades, mas tirar os Democratas do poder, principalmente se a candidata for mesmo Hillary, tornou-se uma prioridade tão grande, guardadas as proporções, quanto tirar o PT. Vamos torcer para que não venham as mesmas consequências, pois de absurdos o mundo está tão cheio que já nem os comporta mais.

Mas voltando ao assunto principal desta crônica que eu ainda não disse qual é, talvez porque estou hesitando, é curioso constatar a tendência que as coisas têm de se revelarem o contrário do que delas se esperaria, por exemplo: o país que elegeu Obama, o primeiro presidente negro, era não sei quantas vezes menos preconceituoso do que o país que hoje se depara diariamente com a carta racista sendo jogada a torto e a direito, mas que negócio estranho é esse?

O (mal) exemplo vem do alto. Michelle Obama, quem diria, andou se lamentando para um público de estudantes — o futuro do país — sobre o quanto teria sofrido discriminação na Casa Branca depois de para lá ter se mudado, segundo ela na “forma de uma obrigação de demonstrar aos críticos em potencial que saberia como se comportar, apesar de ser negra” (livre interpretação, pois já não me lembro do texto exato que ouvi na televisão), mas cá entre nós, nunca ouvi esse tipo de crítica, e mesmo que alguma houvesse por baixo dos panos, não é ela a senhora da casa? Não atingiram ela e seu marido o grau máximo de poder no mundo ocidental, a eles concedido por escolha da vasta maioria? (Me refiro à primeira eleição, em 2008, quando Obama era o grande darling da mídia e do mundo, embora tenha perdido o posto hoje em dia, e por demérito próprio.)

No fundo no fundo, não importa que preconceitos a tenham ferido, porque quando Madame Obama sobe ao palco de uma universidade para proferir um discurso não é uma simples ativista de direitos dos negros que ali está, mas a toda-poderosa FLOTUS (First Lady of the United States, Primeira Dama dos Estados Unidos), uma prova viva de que este país como um todo não tem preconceito contra negros, ou estou ficando maluca?

A verdade é que desde que Obama se tornou presidente não ocorreu a esperada levantada na autoestima dos negros (desculpem, mas não vou cair nessa de afro-americanos), mas sim o contrário. E dia após dia a questão racista vem sendo revalorizada, eu até apostaria que interesses escusos a têm mantido acirrada, só não sei bem interesse de quem. Porque se for apenas intriga da oposição, leia-se republicanos, conservadores, brancos elitistas, vamos combinar que Obama tem feito o jogo deles direitinho, e isso é um motivo a mais para eu ter desgostado dele ainda mais, pois considero um crime contra a humanidade ter reacendido essa chama malvada que andava quase apagada, seja através da manipulação da manada, ou da política governamental de paternalismo explícito, estratégia que nunca deu certo em lugar nenhum.

O que sei é que a crise está se aprofundando, e os focos de violência racista se alastrando para além do controle da polícia, posta na berlinda não como um instrumento da segurança pública, mas como agente provocador dessa mesma violência, devido entre outros fatos à morte (provavelmente) acidental do rapaz negro em Baltimore no mês passado, ou retrasado, sei lá, perdi a conta já.

É tanta coisa com que se lidar que a gente perde também a noção da coerência, me desculpem o assunto árido da crônica, que me foi empurrado goela abaixo com os assassinatos de Charleston na última quarta-feira.

Igualmente curioso é Obama ter levantado a hipótese de o crime ter sido provocado pela facilidade do porte de armas local, justamente quando o direito a portar armas de fogo tem sido ressaltado pela mídia conservadora e pelos candidatos da mesma ala (ou laia, diriam alguns). Francamente, parece coisa orquestrada. Mas nós, brasileiros, sabemos muito bem que se uma pessoa anda mal-intencionada não será impedida de fazer o que quer, cometer o crime que quiser, por ter a posse de armas dificultada, ou não haveria violência no Rio de Janeiro, por exemplo.

Já quanto à razão de o assassino em massa ter escolhido matar negros, e não brancos ou amarelos, podemos tecer algumas hipóteses, nenhuma delas afetando o motivo crucial, que é seu estado francamente demencial: só um louco sai armado à rua para matar várias pessoas de uma vez, como já ocorreu inúmeras vezes nos Estados Unidos, onde massacres do gênero são quase uma prática cultural, infelizmente. E agora considerem este violento — e violentamente instável, imagino — pós-adolescente de vinte e um anos, há pelos menos seis, isto é, desde os 15, sendo incentivado a odiar negros por poderes que não desejo nomear. Em que tudo isso poderia resultar? Que isso esteja sendo usado para as pessoas se sentirem ameaçadas como vítimas de um grande evento racista é um favor para o matador, que estava “planejando” começar uma guerra civil. Estamos colaborando com este objetivo.

Não tenho a solução, mas tampouco me meti a ser presidente da nação. E se este presidente que aí está falhou em tudo, até mesmo em defender seu país de um mal nacional em nome do qual conseguiu se eleger, mas que, à época de sua eleição, estava mais latente do que real (e não custa repetir, ele mesmo é a prova viva disso), então ele será capaz de quê? Se está em busca de um legado pra chamar de seu, que legado acabará sendo esse? O de um presidente negro que em vez de unificar a nação fez questão de dividi-la, para depois acirrar a divisão? Que em vez de proporcionar um bom exemplo aos seus “irmãos” usou seu poder para enfraquecê-los mais? Mas que droga de paradoxo seria esse?

A questão é complexa demais para ser tema de crônica, sim, reconheço. E enquanto perco meu tempo escrevendo, o poder da situação, amparado pela mídia sedenta de ação, já se aproveitou do clima de lamentação para qualificar a atuação do delinquente como “crime de ódio racista”, já estão dizendo que a igreja atacada era um ícone na luta pela libertação dos escravos (por ironia do destino, ou não, na sexta-feira, dois dias depois do crime, comemorou-se a libertação dos escravos nos Estados Unidos), que foi palco de um discurso de Martin Luther King, e por aí vai , mais um degrau deplorável na escalada rumo a uma sociedade dividida. Triste fim de um projeto de mudança.

Alan, por seu lado, levantou-se bem cedo e foi ao correio renovar seu passaporte vencido, já se preparando para a tal guerra civil.

Em tempo, o fato de eu considerar o criminoso de Charleston um maluco não quer dizer que acredite que ele deva usar essa desculpa para se safar de uma punição. E a dele não será pequena: a Carolina do Sul tem pena de morte, e está considerando aplicá-la.

Um bom domingo procês.

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