O Califa al-Baghdadi

HARUN— Alô! É da casa da família Kaware? Aqui é da FDI.[1] Estou ligando para avisar que sua casa será bombardeada em cinco minutos. Saiam daí já! Shalom! Salaam!

Com esse incrível telefonema começava mais um lamentável capítulo da intrincada disputa no Médio Oriente, se oriente, rapaz, já nem sei mais o que estão disputando, se a luta é por terras, por teimosia ou por simples idiossincrasia — nada tendo a ver com a dramática realidade as quatro primeiras letras dessa palavra tão complicada que provoca azia, ui.

Enquanto isso, ali bem perto, vai a humanidade traçando por mera inanidade um de seus pesadelos mais inimagináveis e largamente anunciados, é isso mesmo. Vocês nem queiram saber o que está para acontecer, não vai ter 1001 noites, por mais escuras, que se comparem. Sexy Scheherazade (não é a da Bandeirantes) enrolando o Rei da Pérsia? Esqueçam. Mulher não tem vez nesse nosso futuro negro, nem voz, muito menos top sensual rebordado de pedrarias, nada disso. Mulher fica bem calada se quiser sobreviver, seu élan vital ferozmente disfarçado por baixo da negra burca e estamos conversados. Por outro lado, tampouco existe mais a fantástica Pérsia dos nossos sonhos alados, com seus gigantescos budas derrubados, sabem como é. Harun al-Rashid reencarnou bem menos sofisticado (embora alegue um PhD, em estudos islâmicos, ah, bom), por ironia do destino autodenominado “califa al-Baghdadi”, embora reste não conquistada a ancestral capital Bagdá, ainda bem — como lembra o Alan, fica logo ali, ó, apenas cinco minutos de táxi distante do novo califado.[2]

Califado do mal, não se deixem enganar de jeito nenhum. Não estão para brincadeira, 44 quilos de urânio em estoque, estão até já anunciando seu próximo passo, caso ninguém leve a sério o tanto que já foi dominado:

— Este é meu conselho para vocês [ó infiéis!]. Se houver resistência, conquistaremos Roma e possuiremos o mundo, se Alá quiser.

Do outro lado, digo, cá do nosso pacífico e ingênuo lado, confiamos no nosso taco, no nosso talento não só para adiar o rumo da História contando infindáveis causos e assim salvar o mundo, como também para espalhá-los aos quatro cantos de um globo bem caprichado, cada vez mais globalizado pelo acesso grudado à internet, nosso ponto de vista equivocado convenientemente ampliado pela lente de milhões de amigos conectados, telefone sem fio, se é que vocês me entendem. Faremos chover celulares 3D pela árida Terra de Israel que nos foi biblicamente prometida, como a tantos outros.

Pensando bem, a tal Terra Prometida hoje em dia não pertence aos judeus, mas a todos nós. Suas brilhantes conquistas nos campos mais nobelizados da tecnologia benquista têm sido franqueadas a cada um de nós em nossos pequenos tabletes coloridos, alguns vistos, outros engolidos numa bem-vinda jornada por novas curas das piores doenças, e não estou falando do radicalismo religioso nem do obscurantismo litigioso.

Mas como sempre nada chega ao zero (inédito conceito arábico que mudou a inteligência do mundo entregue numa bandeja por um matemático persa, bons tempos, “como pode nada ser alguma coisa”,  perguntavam os gregos, imaginem o vácuo antes desconhecido conferindo um novo sentido à vida no planeta, tempos incríveis), parece que estamos vivendo agora uma reversão das expectativas, um leve vislumbre de algo positivo em meio a tantos escombros prometidos. Imaginem de novo, deflagrado por uma chamada humanitária no celular.

Pois para nossa surpresa aprovação parece que o mundo despertou, enxergando o óbvio absurdo dos alvos surdos na terra de Israel, muito mais amplos e profundos do que sonha todo dia a nossa vã filosofia, pois trata-se na verdade de uma guerra de dois mundos bastante diversos e os valores deles oriundos. Até Ban Ki-Moon despencou do mundo da lua para advogar o direto à defesa de um povo na mira dos mísseis como um jantar servido à mesa. Fala sério.

E como em tudo na vida o buraco é muito mais embaixo, num vago exercício de futurologia fica fácil perceber que não queremos viver no planeta sonhado há bem mais de 1001 noites por al-Baghdadi: a Basílica de São Pedro transformada numa mesquita e a longa evolução do Código de Hamurabi tendo regredido a um sumário olho por olho, dente por dente, nós todos convertidos à força em putrefatos zumbis, restos arrastados de nossa avançada civilização como predizem tantos filmes de Hollywood. Pois é. Maldição.

Possam as pulgas de mil camelos infestar seus sovacos, que massacre em Copa das Copas que o quê. Depois não digam que não avisei.

E um bom domingo procês. Tchau.

P.S. – As simpatias políticas internacionais dão tantas e tão rápidas reviravoltas que enquanto eu esperava 36 horas para publicar a crônica o mundo se voltou contra Israel, como de hábito, de que adianta escrever tanto, derramar a lógica e o coração? Bem que eu estava estranhando. Triste.

 

[1] Forças de Defesa de Israel.
[2] Parece loucura, mas é tudo verdade.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *