O desafio da língua

worldÀ medida que vai se aproximando o fim desta saga, digo, meu primeiro ano em solo americano, torna-se obrigatória uma reflexão sobre o que me move, o que pretendo, para onde ir agora que estou aqui.

E nada me parece tão difícil, e tão distante, quanto a conquista do desafio de dominar a língua inglesa, deixando claras, claro, duas coisas. A primeira é que não recebi nenhum almoço grátis, não se enganem, quem pretende emigrar não pode se permitir se enganar. Cada passo trilhado foi complicado, angustiante, mas quando ultrapassado ficou no passado. Seguimos adiante.

Quanto à minha proficiência no novo idioma, digamos, preciso me demorar mais no assunto, um ponto crucial no meu relacionamento com o Alan que tanto me pressionou como me humilhou, me fez sofrer, chorar, me rebelar. Enquanto vivíamos no Brasil, eu tinha todas as condições de relegar esse tipo de aborrecimento ao segundo plano, se é que vocês me entendem. Minha sobrevivência não dependia disso. Eu tinha o domínio, não só do ambiente circundante, mas também do nosso casamento. Afinal de contas, falar e escrever para mim, assim como editar e até traduzir, eram atividades naturais, condições nas quais eu tinha crescido e navegava quase inconsciente, com total desembaraço. Assim como todos vocês aí no Brasil.

Só que chegando aos Estados Unidos as coisas mudaram de escala, e de figura. Embora para a maioria falar inglês seja um ato automático, para mim cada palavra enunciada passou a ser um desafio monumental, com a óbvia exceção dos habituais “onde é o banheiro”, “por favor”, “obrigada”, passando pelo coloquial “the book is on the table”.

Fui levando, enquanto se impunham as demais prioridades. Mas aí a realidade desabou sobre a minha cabeça. Com o dólar nas alturas e subindo cada vez mais, minha única chance de sobrevivência futura, nem ousando o “sonho americano”, seria me inserir no mercado local, embora mantendo o meu prestígio no solo nacional. Brasileiro, digo.

Desde que aqui cheguei, embora a KBR esteja enfrentando a crise brasileira com agenda cheia e compromissos na mesa, toc toc toc, o valor de todos os meus contratos foi reduzido a menos da metade: é o lado negro de uma crise que não deixa ninguém de lado, ou vocês pensaram que bastava ter conseguido sair a tempo do nosso país combalido?

Custei, mas o choque se impôs, e através de um convite que parecia positivo, um passo certo na direção ambicionada. Quando o convite veio, exultei. Iria publicar minhas crônicas numa revista, e em inglês! Que sucesso, não?

Minha meta estava ali, claramente definida. Me tornaria conhecida, e daí em diante poderia me estabelecer como tradutora, e até quem sabe editora num país em que educação e cultura não estão relegados ao último elo da cadeia social como no Brasil

Não seria tão fácil como a princípio parecia, se é que alguém pode considerar “fácil” tantos anos de treino numa língua estrangeira mais a disposição de enfrentar qualquer desafio. Meu currículo facilmente incluiria mais de 20 títulos que eu até podia não ter traduzido sozinha, mas tinha revisado e preparado para publicação, posto no mercado. Maravilha.

Tinha gato escondido. A princípio tentei reagir, reclamar, vítima de coisas demais para resolver. Mas o gato estava fora do saco, minha gente. Não havia como enfiá-lo de volta sem muito trabalho e muito sofrimento.

Eu ouvira muitas vezes autores brasileiros comentando como seu trabalho havia sido adulterado na tradução, parecendo até bem conformados, pois “se assim não fosse jamais entrariam no mercado global em inglês”. Só fui descobrir na carne como o problema mais sério dessa adaptação não é a qualidade da tradução, mas do texto original.

Outros valores, muito diversos dos nossos, norteiam a noção de qualidade literária na língua inglesa, e mesmo que optasse por ser revisada por profissionais locais, percebi que a questão envolveria uma profunda reavaliação do meu próprio trabalho de autora, e que sorte a minha que eu mesma poderia me dispor a enfrentá-la.

Enquanto durou, foi até divertido culpar o Alan — meu personagem favorito, sem o qual, reconheço, minhas crônicas não teriam a metade da graça — pelo tédio que demonstrava enquanto editava meus textos. Afinal de contas, como me disse uma amiga psicanalista a título de consolo, “já estava fora de moda marido despeitado com o sucesso da esposa”.

Pois bem. Confrontada com uma crise existencial de monumentais proporções, vi-me reduzida a duas opções: ou abriria mão para sempre daquilo que me é essencial e me faz mais feliz, ou me disporia a reaprender na marra a escrever. Optei pela segunda. Veremos até onde chegarei.

Estou nesse ponto agora, entre desencorajada e esperançosa. Pode ser que prossiga. Pode ser que desista. Em ambas as situações não serei poupada de muito trabalho, grandes desafios e até um toque de humilhação. O bom é que ultrapassei o pico da crise depressiva. Ou não. Outros picos virão.

Talvez minha produtividade seja afetada, e eu não compareça com novos textos com a costumeira regularidade. Minha prolixidade certamente sofrerá, e estando a ela confrontada não poderei me obrigar a nada. Se no meio disso tudo eu sumir por alguns períodos, já sabem. Estarei ocupada em me reinventar. Mas eu volto. Podem esperar.

***

Uma nota para meus leitores no Brasil: esta crônica encerra meu próximo livro, “Welcome to America”, que conta a saga do meu primeiro ano nos Estados Unidos. Tenho que confessar que não sei quando vou publicar, porque será também meu primeiro livro em inglês, a versão em inglês deve sair primeiro, ainda este ano, antes do Natal, e ainda estou traduzindo, depois vai para a revisora etc., trabalhão! Além do mais, vou entrar voluntariamente naquele período meio cinzento entre dois livros, e como não paro de escrever há quase três anos, pois escrevi sem parar até nas minhas últimas férias em Paris (fev 2014), vou dar uma refrescada! O mundo vai ter que se virar sem mim! Daqui a pouco eu volto, tá? Tchau procês e um bom domingo!

 

PS. E como a vida não para no ponto, depois que escrevi essa crônica que, por óbvio, não foi escrita esta semana, encontrei uma excelente revisora com quem já estou trabalhando e botei pra rolar meu novo projeto de KBR internacional. Vem coisa muito bacana por aí. Aguardem! Animadíssima!

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