O dia seguinte

Famous-Facebook-Status-21967-statusmind.com— O que você vai fazer amanhã? — Alan me pergunta, às quatro da manhã, na insônia da vez.

Respondo um pouco distraída, sem olhar para ele, enquanto o polegar desliza sobre a tela do celular exibindo as últimas postagens no Facebook. Vou tentar fazer um vídeo para o lançamento do livro de um de nossos autores. Vou trabalhar no projeto da casa. Vou começar efetivamente a tradução do meu romance para o inglês, meu próximo compromisso profissional. Nada. Não vou fazer nada. Vou só ficar ligada.

Estou tão ligada que, devo confessar, não teria saído crônica, não fosse o vício, e o alívio que me traz o ofício… Passei a semana toda participando ativamente do fórum aberto no Facebook, injetando energia, desabafando, para evitar sucumbir à depressão e à letargia.

Tenho vivido nos últimos dias numa espécie de estado de “suspensão animada”, ou melhor, dividida, não só entre dois países, mas entre duas linhas de vida: enquanto de “corpo presente” me ocupo dos compromissos e de algumas urgentes, inadiáveis decisões, minha mente está em boa parte investida na cena política brasileira e nos resultados da votação do impeachment.

Embora esteja a salvo de testemunhar, como me contou uma amiga, a dor das “ruas vazias porque as pessoas estão sem dinheiro até para a passagem de ônibus no fim de semana”, ou de ver ao vivo o descalabro da Esplanada dividida, sinto-me como se estivesse fisicamente no Brasil. Em quase dois anos de “autoexílio” ainda não consigo sentir de verdade que “não estou mais no Kansas”, ops, em Itaipava. Se lá estivesse, em meio a toda a “orgia golpista” estaria curtindo gostosos fins de semana e almoçando na Pizzaria Matilda, aberta recentemente por uma de minhas amigas. É. Pode ser. Por outro lado, estaria tendo bem mais dificuldade de enxergar uma saída, já que provavelmente estaria inserida na “massa desprovida de trabalho e de esperança”, não sei, nunca se sabe.

Meu corpo presente e mais a percentagem disponível da minha mente seguem desenvolvendo o quinto ou sexto projeto de arquitetura da nossa casa em Paris Mountain — aquele desenvolvido profissionalmente pelo muito bem pago arquiteto americano se revelou “inconstruível”, pois é, picaretagem não é propriedade do modus vivendi brasileiro — agora que, finalmente (conto com cuidado para não dar muito azar), encontramos um empreiteiro disposto a nos “ajudar”.

Precisamos de “ajuda”, é isso mesmo! Ajuda para construir nossa casa da forma lógica, limpa, fluida e confortável que nos agrada, o que, de certa maneira, foge totalmente (muitas vezes não consigo descobrir por que) ao padrão local, mais dado a arroubos rococós do que almeja nosso lema bauhausiano, “a forma segue a função”. Já tivemos a obra recusada por uns três ou quatro empreiteiros! Só de olhar nosso projeto! Quem diria que ainda teríamos saudade dos bigodes do nosso empreiteiro brasileiro…

Acredito que, devido à simplicidade que desejamos para o acabamento, todos concluem antecipadamente que o percentual que poderiam eventualmente apurar não satisfaria seus padrões primeiro-mundistas, sei lá. Aqui ninguém quer trabalhar por pouco dinheiro, muito menos por amor ou idealismo, amadorismo, sabem como é. A não ser que, por um descuido do destino, Bernie Sanders acabe eleito, e não, não estou torcendo por ele. Francamente, já tive a minha cota de governismo esquerdista para o que me resta de vida.

Segundo o Alan, todos têm uma hipoteca e uma família para sustentar. O que inclui, obviamente, a violência, ops, insistência da turma do telemarketing. Caramba! Não se pode pedir uma informação online neste país sem que passem a te perseguir pelo telefone! É preciso uma cautela que eu ignorava, para se proteger dos ataques dessas vítimas comissionadas. No outro dia caí na besteira, por exemplo, de informar meus dados numa rede de universidades para obter informações sobre cursos de inglês. Fui incapaz, outro exemplo, de especular para conseguir um seguro automotivo melhor, pois a cada vez que informava meu nome, endereço e telefone (sempre falsos, é claro, mas não contem para ninguém) tinha que repetir tudo em mais de cinco formulários diferentes sem nunca chegar a receber as estimativas, caso insistisse em evitar derramar meus verdadeiros dados.

Mas o pior mesmo foi quando sucumbi à tentação de me inscrever num “prêmio internacional para mulheres de negócio” ou coisa parecida, insistentemente oferecido no Linkedin, pensando em com isso abrir novos caminhos, ingênua, eu. Era cedo de manhã quando recebi o telefonema de Nova York. Uma mulher parecendo muito dedicada me informou que minha solicitação tinha sido “aceita”, mas que, para completar o processo, era necessária uma entrevista de quinze minutos.

— Vai em frente — falei.

Foi como entregar o ouro ao bandido. Vamos ver aonde isso vai chegar, pensei. E enquanto a mulher me usava para seus comissionados fins, eu cá do meu lado a usava para levantar um pouco minha combalida moral de exilada, e toca a contar a “importância” da minha atuação no mercado brasileiro de ebooks e toda essa velha toada que vocês já conhecem de cor e salteado. Ao mesmo tempo, num terceiro nível de pensamento, eu ia relembrando como o Brasil estava mal, tudo que eu pudesse ter feito de bom e real tendo mais uma vez se esvaído e perdido a relevância frente à urgência do presente momento.

Meus “quinze minutos” terminaram abruptamente quando a mulher quis me impingir uma taxa única de módicos 950 dólares em troca de um “selo de honra” vitalício, rapidamente substituída por outra de apenas 560 dólares válida por cinco anos e em seguida, num último movimento desesperado, por cento e poucos dólares para um ano de “experiência”. Quando hesitei — Vou pensar, te retorno a ligação — a mulher perdeu o controle completamente, e quase gritando, bateu o telefone na minha cara, deixando rolar por água abaixo todo o esforço dos últimos quinze minutos para me convencer do “meu próprio valor”, antes de, obviamente, me informar que eu precisaria pagar por isso:

— Mas você não leu o regulamento antes de se inscrever?

Bem que eu tinha tentado. Mas no ansioso, emaranhado formulário, muito bem urdido para obter dados pessoais das futuras vítimas desse tipo de golpe publicitário, não tinha conseguido descobrir de antemão quanto esse “prêmio” me custaria.

Nosso mundo ideal conectado em rede está se tornando uma selva virtual, meus amigos. E isso excede em muito, com armas de insuspeito poder criativo, a virulência política nos dois lados da cena corrupta brasileira. Às vésperas da votação do impeachment, sigo contando voto por voto a cada dez minutos, sem me atrever a sequer pensar na possibilidade de que não passe no congresso, tamanho o alívio que consigo vislumbrar após sua aprovação, não importa que provações ainda tenhamos que enfrentar para manter o curso nos desejados trâmites democráticos.

Hora de apelar para aquele Churchill básico, “a democracia é o pior sistema de governo que existe, com exceção de todos os demais”, pois é, agora imaginem que ainda hoje tem gente nos acusando de “golpistas”, apelando para os mais baixos argumentos e linchamentos morais na tentativa de nos convencer de suas ilibadas noções de justiça social. Ontem mesmo li um desses intelectuais iluminados declarando que “Lula é o maior líder político brasileiro vivo” e que “não existe razão para nos submetermos a um governo ilegítimo”. Ilegítimo, mas respaldado pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal, instituições garantidoras da democracia, para nem mencionar o peso da população.

De minha parte, desenvolvi uma tal ojeriza pelo “maior líder vivo” que enquanto corria ontem à tarde, quando o vi com sua língua presa vociferar no noticiário da BBC, fui obrigada a desviar os olhos, uma reação que só tive em duas ocasiões: a primeira, quando era criança, na cena dos leprosos em “Os dez mandamentos”, quando mamãe me avisou para não olhar; a segunda se repete até hoje, sempre que vejo pessoas se injetarem com heroína — livres associações permitidas.

É isso aí. Em pouco mais de vinte e quatro horas poderemos estar diante de um novo quadro no Brasil, meus amigos, e torço ardentemente por isso. Poderá restar ainda muita sujeira, muita poeira no nosso caminho. Mas pela primeira vez em nossas vidas não a estaremos varrendo para debaixo do tapete, e só isso já tornará mais respirável o nosso ar. Para nem mencionar que, progressivamente, será permitido a cada um de nós voltar a dormir uma noite inteira e retomar o rumo de nossas próprias vidas, rudemente sequestrado pela ousadia criminosa daquele que em breve verá o sol nascer quadrado, se Deus quiser, e ele há de querer. Já está querendo, precisando provar que é mesmo brasileiro.

Bom impeachment para todos nós!

1 Response

  1. Clara A. Colotto says:

    Bonita crônica! Fluida, intensa, honesta e apaixonada.

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