O eterno mito da sogra malvada

babyfoot1Vamos combinar: esse negócio de literatura confessional é uma empreitada de alto risco, e como tal deveria ter suas compensações. Além do mais, para evitar a potencial destruição de casamentos, famílias e amizades de longa data, é altamente aconselhável empregar doses homeopáticas de pseudônimos, noms de plume e pseudos que tais para contrabalançar o grau de verdade e transparência, além do deslocamento de caráter (um conceito evolucionário que poderia ser traduzido como “cada macaco no seu galho”), mesmo considerando que, claro, nestes casos específicos a literatura resultante infelizmente já não poderia ser qualificada como “confessional”.

Dito isto, no outro dia dei de cara com uma amiga que estava muito perturbada, num estado realmente lamentável. Não consegui exatamente me identificar com o problema dela, já que, como muito bem me esclareceu uma amiga psicanalista, sem jamais ter sido mãe não poderei ser sogra nem que a vaca tussa. O mais próximo que eu poderia chegar de uma situação estressante como essa seria caso eu decidisse estabelecer uma relação de amizade com os filhos de meu marido e respectivas esposas, o que obviamente seria do meu agrado, nem preciso lembrar. Quer dizer, caso eu estivesse minimamente habilitada a formar e manter relacionamentos agradáveis e tranquilos com as pessoas de quem gosto.

Conclusão: essa ingrata tarefa de se tornarem íntimos da minha persona marcante fica praticamente a cargo deles, dependendo totalmente de quanto quiserem se esforçar para levá-la a cabo.

Voltando à minha amiga, coitada, ela me contou que acabara de acontecer o primeiro arranca-rabo “inevitável” entre ela e sua nora (pelo menos é assim que minhas amigas de Facebook descrevem a complicada relação nora x sogra), com quem por sinal, até aquele momento ela vinha se dando bastante bem, pelo menos para uma principiante. O pior de tudo é que a pobre mulher nem sequer teve uma chance, já que a garota veio com tudo para cima dela, ou pelo menos era esta a versão da minha amiga. Mais penoso ainda foi o fato de que a menina parecia estar se iludindo, se deixando levar pela acachapante propaganda política praticada pela mídia americana num típico ano eleitoral.

Dessa última parte aí devo confessar que entendo alguma coisa, como vocês bem podem imaginar. Como estrangeira, imersa pela primeira vez na vida neste ciclo eleitoral, vivo confusa e perdida com os acontecimentos, como já expliquei em crônicas anteriores. E, falando sério, é praticamente impossível descrever como esta campanha eleitoral em particular tem se revelado surpreendente e angustiante até agora, mesmo para os mais experientes cidadãos americanos, que nunca se cansam de repetir isso, seja na TV, nas redes sociais ou em qualquer outro ambiente que nos venha à cabeça. Ando tão exausta com tudo isso que até parei de tuitar, e também de ler tuites. Ainda visito de vez em quando o site do NY Times, mas tomo o máximo de cuidado para não me aporrinhar demais, me limitando às páginas culturais: leio aqui e ali uma resenha de livro, a crítica de uma peça de teatro ou de um filme recém-lançado. Temas que, como vocês bem sabem, têm se mostrado bastante irrelevantes no momento… ou será que isso só acontece comigo?

Enfim, convidei minha amiga para um café, e enquanto a gente ia caminhando para o Starbucks aqui do lado, ela finalmente entregou o que mais a estava incomodando, seu temor mais profundo: estava disposta a fazer o que fosse para garantir o amor de seus netos ainda não nascidos (e nem mesmo concebidos), coisa para a qual, com certeza, não existe garantia nenhuma. O amor, como mamãe me ensinou, precisa ser “conquistado”, e demanda um “esforço”. Pois é, é isso mesmo que vocês estão lendo. Acabei ficando desse jeito, traumatizada, coitadinha. Por conta das crenças arraigadas de mamãe, que fez questão de inoculá-las em mim, tornei-me incapaz de simplesmente me entregar, amar e me deixar amar e deixar a vida rolar.

No caso da minha amiga, a implicação mais séria foi que em sua briga com a nora, a jovem noiva — talvez-futura-mamãe, mas ninguém-sabe-bem-quando — decidiu proibi-la de visitar os netos, imaginem. Adiantou-se um bocado no tempo, a menina, que nem se casou ainda. Um legítimo balde de água fria!

Tentei entender o que estava acontecendo e ofereci minha solidariedade à pobre coitada. Mas estava difícil. Para piorar, eu não conseguia imaginar de jeito nenhum o que se passava na mente de uma mulher grávida, tendo que lidar com seu corpo sacudido, inundado de hormônios descontrolados.

Não me entendam mal: como a maioria de vocês, sempre acreditei que gestações são períodos privilegiados e abençoados para uma mulher, uma espécie de realização máxima para esses seres “nascidos para procriar”, por assim dizer. Mas como nunca passei por isso pessoalmente, tenho que me basear nas opiniões alheias, e também, é claro, em pesquisas e nos artigos que leio. Ou edito, já que milito nessa categoria.

Tanto é, que por aqueles dias eu estava trabalhando num texto que, para minha máxima surpresa e espanto, descrevia a maternidade como pura violência e tortura. De acordo com os dois autores, pertencentes a gêneros humanos diversos (entre os vários que hoje em dia querem porque querem nos convencer que existem), a sensação de ter um outro ser crescendo dentro de você só pode resultar num incômodo indescritível, coisa desagradabilíssima. Além disso, a já mencionada onda de hormônios frequentemente resulta num estado de coisas que só pode ser comparado a uma psicose, para nem lembrar o aborrecimento inacreditável que é ter o pé de uma outra pessoa encaixado sob as suas costelas, sua bexiga com a capacidade incrivelmente diminuída e a extrema inconveniência de ter sua barriga constantemente chutada pelo lado de dentro, pior ainda, de ver membros humanos se delineando por baixo da sua pele — um verdadeiro pesadelo, somente comparável a certos filmes de horror de segunda categoria dos anos 1980, quando técnicas de 3D e efeitos especiais digitais ainda não existiam.

Juro por Deus, meus amigos, não estou exagerando nem um pou… bem, talvez eu esteja exagerando um pouquinho. Mas era esse mesmo o conteúdo do tal artigo, cuja conclusão justificava o “mais do que natural” impulso filicida, somado ao ódio e à manipulação sexual dirigidos ao infante recém-nascido assim que ele se encontra fora do útero.

Fiquei pensando. E cheguei a duas conclusões. A primeira foi ter entendido a sorte que tive de ter sobrevivido a todos esses impulsos assassinos e tendências invasivas por parte dos meus pais, tanto físicas quanto mentais, apesar de tantas questões resultantes da educação com as quais ainda tenho que lidar. A segunda foi que, por mais que eu tentasse, não conseguia imaginar nenhuma alternativa viável para manter a humanidade no seu devido rumo que, ao mesmo tempo, pudesse poupar as pobres futuras mamães de tal obrigatório sofrimento. A não ser, é claro, que futuras conquistas tecnológicas — entre elas, como eu estava lendo hoje mesmo, um jeito muito melhor e mais prático de atingir o orgasmo através do sexo com robôs — nos permitam, sei lá de que jeito, gerar e gestar um bebê através de um aplicativo no celular.

Honestamente, fico agradecida, feliz de saber que provavelmente estarei morta e enterrada quando se materializarem as assustadoras análises e predições “liberais” e “respeitadoras da diversidade” que têm cercado os mecanismos mais básicos de sobrevivência da humanidade.

Quanto à minha amiga, à guisa de consolo fiz questão de lembrar a ela que “os mais bem-traçados planos de ratos e homens terminam frequentemente num fracasso retumbante”.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *