O famoso kibutz de Bernie Sanders

U.S. Democratic presidential candidate Bernie Sanders delivers a speech at a campaign event in Chicago, Illinois, in this file photo from September 28, 2015. Sanders, Hillary Clinton’s biggest rival for the Democratic presidential nomination, is expected tol be a tenacious brawler in the prime time Democratic party's debate on Oct. 13. REUTERS/Jim Young/Files

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Há coisa de uns poucos meses, por volta de junho do ano passado mais ou menos, minha melhor amiga de infância, também brasileira, que também mora aqui com seu marido americano, me ligou pra falar de uma reunião de arrecadação de fundos para o incipiente candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Bernie Sanders.

— Imagina! — ela me disse, toda animada. — Se ele for nomeado, talvez venha a ser o primeiro presidente judeu dos Estados Unidos!”

Não dei a menor pelota.

— Quem é esse tal de Bernie Sanders? — perguntei para o Alan.

Naquela época, Hillary Clinton não só era a líder indiscutível nas pesquisas, mas a primeira e única candidata democrata. Logo depois apareceu Sanders, como uma opção à época meio descartável, um cara meio velho demais, insignificante, vindo de um Vermont distante, Estado gelado americano quase encostando no Canadá.

Pois esta semana, vendo Sanders saindo da Casa Branca depois de uma reunião com Obama, confesso, fiquei balançada. O velho tinha chegado longe, contra todas as expectativas, com seus 49% nas pesquisas.

Lembrei do meu pai, um sionista idealista que em 1950 deixou tudo para trás e emigrou para Israel, dias depois de seu casamento com a minha mãe. Numa das cartas maravilhosas que ele mandou para ela durante o breve namoro, ele escreveu: “em Eretz, não seremos mais estrangeiros. E não vamos mais nos preocupar com dinheiro”.

Papai, um dos fundadores de Ein Dorot, um tipo de kibutz preparatório em São Paulo, escreveu que “as boas coisas da vida são difíceis de obter, mas devemos ser fortes o suficiente para superar todos os obstáculos, quando temos certeza de que o que procuramos é justo, e é o que realmente queremos. E eu tenho essa certeza”.

A vida em Afikim, o kibutz onde eu nasci, a uns oito quilômetros de Tibérias, que fica à beira do mar da Galileia, não era assim tão fácil. E a superação dos obstáculos tampouco foi tão gratificante. Mamãe ficou doente, e meus pais decidiram voltar para o Brasil, muito contra a vontade do meu pai. Pelo menos, foi no que acreditei por um bom tempo, mas bem mais tarde minha tia me contou que não foi bem assim. Meu pai estava na verdade profundamente decepcionado com os conchavos políticos dentro do kibutz, uma instituição que, no frigir (do pó) dos ovos, lhe pareceu bem distante de seus lindos sonhos idealistas.

De volta ao Brasil, papai se tornou comerciante, um empresário, até morrer em 1972 num acidente de carro, como já contei. Tinha 44 anos. E embora falasse bastante sobre o assunto — e na minha cabeça eu acreditasse que ele pensava muito a respeito — não conseguiu voltar a morar em Israel.

Em 1970, passei um ano lá trabalhando num kibutz, bem a tempo de experimentar a tal divisão radical de todos os bens, e também a deliciosa falta de preocupação com dinheiro no dia a dia. Mas quando voltei ao país em 1998, as coisas tinham mudado. No kibutz onde a minha prima morava com sua família, todo mundo queria “possuir” seu próprio carro (heresia!) e viajar para a Europa. Pior, o horror, estavam usando cartão de crédito para comprar comida no mercadinho local. Hoje, não sei a quantas anda essa cultura progressista.

O que eu quero dizer com isso é que o socialismo saiu da moda, e não demonstrou ser tão bom assim para o progresso humano, fortemente baseado na ambição pessoal e na competição. É o que eu penso, pelo menos. E não acho de jeito nenhum que o socialismo vai ser bom para os Estados Unidos, um país fortemente capitalista, baseado na livre iniciativa, na liberdade de ação e nos ganhos de capital, ganhos muito individuais, para dizer o mínimo.

Agora, no que concerne às outras ideias de Bernie, tenho uma ou duas coisas para acrescentar.

Em primeiro lugar — ele tem esse jeito característico de falar, e essa coisa pega — faculdade gratuita e tudo grátis, como todo mundo sabe, deu no que deu aqui no Brasil. A universidade federal, que um dia já foi sensacional, está decadente, por conta da falta de recursos e também devido à influência política na escolha de seus professores e reitores. Quanto à prática social de dar de graça e “ajudar os pobres”, bem, resultou no mais grave e disseminado exemplo de corrupção que este país já viu. Hoje em dia, ouvi dizer que cada proposta, cada iniciativa de investimento tem que “pagar seu preço” para as autoridades, mas tenho certeza de que as duas coisas não estão ligadas de jeito nenhum, como estou dando a entender. Eu é que sou uma bruxa egoísta, elitista, sem coração.

Em segundo lugar, no que se refere ao famoso Obamacare, tenho algo ainda mais “íntimo” para compartilhar. Como nova residente, descobri que sou obrigada por lei a comprar um seguro-saúde do programa, ou serei multada. Mas o plano mais barato teria que me custar 650 dólares por mês, quase o preço do aluguel, e, francamente, não dá para bancar uma coisa dessas. Para nem mencionar que confio na minha saúde e não estou a fim de ser obrigada a nada. Então decidi radicalizar e “ficar fora da lei”, correndo o risco da multa. Que, aliás, é bem insignificante, tipo aquela que a gente paga por não votar, entenderam?  O destino da minha boa saúde este ano coloco nas “mãos de Deus”, e daqui a um ano, se Deus quiser, poderei usufruir do Medicare. Ou assim espero.

Além do mais, devo confessar que aquele sotaque estranho e o jeito do Bernie falar certas palavras me incomodam bastante, mas quem sou eu para criticar, certo? Alan pode responder, com toda certeza. Muito a propósito, em determinadas situações Bernie e Alan são tão parecidos, mas tão parecidos que os apelidei no outro dia de “Bernizão & Bernizinho”, dois judeus mais ou menos da mesma idade, ambos ex-hippies etc.

Alan, é claro, jamais poderia ser presidente dos Estados Unidos. Como todo mundo sabe, baixinho não entra no Salão Oval.

Por outro lado, do jeito que as coisas andam, a ideia de um judeu na Casa Branca é realmente muito interessante. Eu sei, eu sei. Embora tenha sido criado como eu mesma fui, não só no judaísmo, mas dentro dos princípios judaicos e de suas noções de integridade, Sanders raramente menciona que é judeu, nem a mídia tampouco enfatiza esse aspecto de sua família e tradição. O que, como todos sabemos, faz de você o que você é.

Pensei cá comigo. Quando era candidato, Obama sempre fez questão de negar suas raízes islâmicas, mas como presidente nunca deixa de comprová-las, pelo menos em suas escolhas diplomáticas. Pode até ser que o mesmo aconteça com o Bernie, sei lá. A verdade é que é bem difícil ignorar a cultura em que se foi educado. Mesmo que seja sutil, essa influência sempre aparece quando uma decisão se impõe.

Só Deus sabe como nós, judeus, andamos necessitados de um aliado na Casa Branca. Ok. Mas isso não quer dizer que vou virar a casaca de repente e passar a apoiar o Bernie para presidente. Ainda estou traumatizada pela minha torcida organizada a favor de Obama, em ambas as eleições, e Alan conseguiu me convencer de que a única culpada pela falta de apoio desse governo ao Estado de Israel sou euzinha aqui… Foi com esse argumento impositivo, aliás, que ele me fez mudar de ideia, e finalmente “mudar de lado” na política americana.

Bem. Meu assunto esta semana, antes de eu me empolgar toda com essa visita do Bernie à Casa Branca, era que ultimamente tenho me sentido confusa, enganada pelas aparências na política. Pouco dias antes do caucus de Iowa, tudo que eu vejo e escuto me parece ser o oposto do que realmente acontece, e não estou pronta para escolher ninguém. Afinal, levando em conta a minha educação fortemente idealista, eu nunca poderia criticar o estilo atraente, sensível, inovador e convincente dos esforços retóricos de Obama. Que orador mais comovente! Lágrimas nos olhos e tudo o mais! Infelizmente, é tudo discurso. E com pífios resultados. Por outro lado, o triste estado em que se encontra o mundo atualmente é a prova mais contundente do que eu queria dizer. E isso é tudo.

Pois é, meus amigos queridos. Neste derradeiro parágrafo sinto ter que desapontá-los. Quem chegou até aqui meio engabelado pela minha promessa enganosa de revelar finalmente o maior enigma, o “segredo mais bem guardado” destas eleições americanas, isto é, o nome do kibutz onde Bernie passou um bom tempo aos vinte anos, e que talvez tenha sido crucial para “moldar suas visões políticas”…

Tá bem, vocês vão ter que me desculpar, porque não faço a menor ideia, ok?

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