O inverno de nosso contentamento

Aquilo com o que se consegue conviver muda com o tempo.

Kathryn Harrison, para o NY Times

 

A mesma mão que afaga crava a adaga, e a próxima serei eu, penso, destemperada, enquanto observo os inúteis esforços de Alan pra se livrar da gatarada que invadiu nosso terreiro abençoado, depois de ele adotar com carinho seu Clinton de pelo dourado, tratado por ele desde antes de ser desmamado, como eu já disse, a salmão e filé mignon. A mãe desnaturada, com olhos ferozes e muito mal-intencionada, rouba diariamente a ração caprichada destinada à sua cria em crescimento, tá nem aí, despertando em Alan uma irritação de assassino da qual, em minha ampla loucura, vejo em mim a vítima em potencial.

Algo o corrói por dentro há dias e não sei o que é, se a saudade dos filhos, a próxima viagem para visitá-los ou a lenta agonia que venho experimentando nos últimos dias sem nenhum disfarce, e que, por algum motivo que me escapa à psique, acredito que ele não consegue suportar.

O resto, aqui.

 

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