O mal-estar da petização

buddhaO silêncio é uma característica das sociedades mais avançadas, ele “fala” do respeito ao próximo.
Arthur Dapieve, para O Globo

Tive uma semana difícil, além da crescente sensação de estar presa numa panela de pressão cheia de merda prestes a explodir. Pelo que pude apurar, o Brasil, num momento de ele próprio julgar, escolher e punir, está se radicalizando, se dividindo entre duas correntes de comportamento, e não estou me referindo à clássica divisão entre direita e esquerda, entre oposição e situação, entre dois ou mais times que em breve se enfrentarão democraticamente, caso em que apenas a “hooliganização” das opiniões seria motivo para a gente se preocupar.

De um lado, estão os que estão pensando — como uma amiga de quem gosto muito, e que numa boa conversa até me aliviou temporariamente dos medos que estão me incomodando — que “quanto mais merda, melhor”, pois, segundo acreditam firmemente, dos escombros de todos esses escândalos surgirá finalmente uma sociedade mais limpa, íntegra, uma justiça funcionando, mais ou menos como a pele nova que está se formando por baixo da descamação provocada por um ácido contundente que nos corrói, mas, inteligente, corrói apenas a velhice, a feiura, tudo que não presta e que não podemos apreciar.

De outro, pouco valendo uma menção, pois vamos ficando mais fortes na convicção de que certamente sairão perdendo, estão os que apreciam a situação, justificam os crimes evidentes com algum mal-ajambrado assistencialismo de ocasião. Usam como arma a culpa intrínseca dos “bem-nascidos”, que, “como sempre na história deste país”, estariam sugando uma energia que deveria ser redistribuída para os menos favorecidos.

Mas quem seriam os menos favorecidos? Aqueles que, “por insistência do destino” são mantidos na indigência, carentes de tudo, sem saúde, trabalho ou cultura? Ou aqueles que, infelizmente, por uma espécie de “loteria genética” além de nosso controle humano, vieram a este mundo desprovidos de inteligência, curiosidade, criatividade e sede de conhecimento, coisas que, para mim, são os verdadeiros motores do mundo?

Muito além do nosso umbigo, a “pulverização de fortunas” vem sendo apontada por gente especializada como a única solução para os males do mundo, é verdade. Confesso a minha perplexidade. Não entendo as agressivas baterias voltadas contra a “elite” por quem dela tanto se beneficiou, queridinhos, privilegiados da mídia, que herdaram, sim, não só a fortuna física, como também uma “superioridade cultural” cultivada no lar original. Ah, deve ser a velha premissa DDO — dinheiro dos outros.

Quem sabe, ao contrário, a possibilidade de acumular fortuna e transmiti-la aos descendentes seja, em vez de uma ameaça, um incentivo à produtividade e autorrealização humanas? Não vejo, sinceramente, por que a fortuna pessoal deveria ser por princípio um crime convenientemente punido com a pena de morte — morte ao dinheiro! — por quem tem sede de “igualdade social”.

A não ser, é claro, as múltiplas fortunas amealhadas criminosamente pelos próprios arautos desta “justiça do trabalhador pobre”, que têm ofendido e enxovalhado o nosso empobrecido cotidiano, meu deus, como é que ninguém enxerga que quanto maior a interferência em nossas vidas privadas maior a possibilidade de corrupção?

Estamos sendo vítimas de um turbilhão de desigualdades, sim, de uma ditadura dos incompetentes, isso sim, do ímpeto vingativo de gente que de outra maneira não conseguiria subir na vida, aproveitadores, redes de parentes, dos que se tornaram excessivamente poderosos.

Convenhamos. Grandes fortunas contemporâneas, as maiores, vêm sendo construídas rapidamente por gente que, de seu, no princípio da vida, só tinha mesmo um cérebro hiperativo e empreendedor — e acumuladas tão rapidamente que o Estado controlador nem consegue acompanhar os novos caminhos que descobrem, como a economia online, por exemplo, que cresceu exponencialmente antes que a conseguissem sufocar, bom pra ela. São as inspiradoras “fortunas de garagem”, que aqui no Brasil, infelizmente, não encontram cenário encorajador, ceifadas pela raiz por um emaranhado de regulamentos protecionistas e leis que impossibilitam a livre iniciativa, a integração com o resto do mundo, a mera criatividade de quem tem alguma iniciativa, digo, de quem consegue, apesar da pressão impositiva, “enxergar fora da caixa”. Não estou falando, é claro, de quem se aproveita de qualquer brecha para desviar o caixa.

Tristes tempos. Tempos violentos.

Meu medo maior é que a nossa revolta seja inútil, que o mal engendrado por esse assistencialismo fútil esteja infiltrado em nossas melhores correntes de pensamento, como um câncer em avançado estado de metástase embora invisível superficialmente, uma sociedade dos desfavorecidos, em outras palavras, uma ditadura do desfavorecimento, movida única e exclusivamente pelo ódio à sua condição subalterna que por mérito próprio não conseguem superar.

Gente bem-intencionada (ou não) tem sonhado com uma teórica justiça social que teria como base um impulso destrutivo contra tudo que hoje em dia consideramos “bem-sucedido”. Não me saem da mente as cenas aterrorizantes da turba insana invadindo palácios e decepando cabeças, arrastando em seu tsunami justiceiro monumentos milenares, símbolos de beleza, de humana riqueza, material e intelectual, em suma, serei rasteira: uma aristocracia da estupidez. Quem iria gostar de viver num mundo assim?

O que estão nos impondo, ou querendo nos impor, é uma sociedade que mais do que tudo valorizará a mediocridade. E isso tem me causado um pânico tão grande que a simples menção de palavras-chave como “igualdade, oportunidade, programa, compromisso, comunidade, sustentabilidade” me provoca arrepios.

Tudo o que quero é um Estado que fique calado. Trabalhe com transparência, é claro, honestidade é bom, eu pratico e gosto. Mas com discrição, sem alardear aos quatro ventos sua incômoda presença, como uma viúva carente. Dê a quem precisa um bem-estar básico, saúde, comida, educação e tranquilidade cotidiana, tudo bem, não passa de obrigação. Mas deixe livres aqueles que verdadeiramente constroem as melhores possibilidades de sobrevivência no futuro, os que criam, os que ousam, os que produzem, a “elite pensante”, o “gene inteligente”. Que, obviamente, não pode ser julgado e controlado por quem é incompetente e só pensa na melhor maneira de se apoderar do que não lhe pertence.

Longa vida aos generosos, aos que com sua mente nos levam para frente, sem se importar com o fato de que atrás vem gente. E estamos conversados.

Um bom domingo procês.

 

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