O outro lado da moeda

segurofuneralTudo bem que esse longo assunto da obra da nossa casa em Paris Mountain me faz virar bicho, mas nada me preparou para a onda de ódio com que escancarei a gutural garganta e apontei para o Alan minhas garras de fera. A coisa borbulhou sem controle de dentro de mim quando ele criticou pela enésima vez a planta de locação que deveria ser apresentada ao município de Greenville — onde estávamos apelando para uma alteração no afastamento obrigatório da rua que facilitaria a construção, tendo em vista a pirambeira que é o nosso lindo terreno. Francamente, parecia uma cena de “O exorcista”, só faltando o vômito verde correspondente.

No dia seguinte, quando ele percebeu que eu havia enviado a minha versão, e não a que ele queria, a cena se repetiu sem alteração.

Mais um dia se passou, eu cortando um dobrado em busca de maior controle de minhas reações — se continuasse desse jeito, não sobraria casal para curtir a casa nova, nos assassinaríamos mutuamente com certeza antes da cumeeira —, quando, numa ida ao banheiro, notei traços de sangue.

O que é isso! Mais essa agora!

Tá certo. Eu não deveria revelar tais intimidades em público, mas, entendam, tendo adentrado a menopausa há cerca de uns sete anos, o fato era muito inesperado, para não dizer alarmante.

O que me espantou ainda mais foi a minha inquietante reação. Buscando no Google na calada da noite uma razão possível para aquela surpresa do organismo, só encontrei, é claro, as piores explicações. Era câncer do útero, com toda a certeza. Nos fóruns femininos pequenas suspeitas do tamanho das gotas vermelhas — meio aguadas, mais para cor de rosa, devo confessar — se transformavam em cirurgias de emergência sem dar margem a nenhuma dúvida ou hesitação, e eu, claro, entrei imediatamente em pânico, já me vendo em retalhos sobre a mesa.

Mas, intimamente, decidi que não faria nada, sofreria calada, nem diria nada ao Alan. Afinal de contas, esta seria a melhor maneira de evitar uma indesejada interferência médica, tudo é câncer hoje em dia e ninguém tem mais o direito de escapar voluntariamente aos terríveis tratamentos.

É isso mesmo. Decidi que preferiria morrer quieta a explorar dolorosas tentativas de cura, com a concomitante perda de dignidade. Andava cansada demais da conta. A vida parecia não ter tanto a me oferecer. Sentia-me sozinha, nada certa da permanência do Alan e menos ainda do amor dedicado dos meus filhos, recentemente adquiridos. A perspectiva de netos andava bastante distante, o que restou da família, distante também, a oito mil milhas de avião e minguantes telefonemas dos quais nem posso reclamar, afinal de contas fui eu que decidi emigrar. Além do mais, não via jeito da casa deslanchar. Provavelmente viveria para o pouco resto da vida neste apertado apartamento sem vista. Lutar pra quê?

A nota cômica foi ter recebido pelo correio, justamente nesta semana crucial, uma proposta de seguro-funeral, caramba, por que descolaram meu nome para me enviar isso? Será por que descobriram num cadastro qualquer que tenho 63 anos e já está na hora de morrer? Ou de enviuvar?

Francamente, minha depressão me assustou bem mais do que a possibilidade do câncer. Mas, é claro, não resisti, e no segundo dia, quando em vez de uma gotinha foram três, decidi contar tudo para o Alan.

Meu marido não se alterou, ao contrário, foi ao Google (ele é especialista em buscas online, o melhor que já conheci, tinha que ter alguma vantagem, não é mesmo?) e lá obteve resultados bem mais suaves, como, por exemplo, aquele que interpretava o tardio sangramento como resultado de estresse:

— Não se pode dizer que o seu prato não esteja transbordando — ele disse, em inglês, “You’ve got too much on your plate”.

E é verdade. Aguardei mais um dia, e o rubro tornou-se rosado novamente. Enquanto isso, tentei bombear algum novo ânimo em minha mente, me forçando a caminhar todos os dias no lindo parque aqui perto de casa.

Depois acabou.

Vendo em retrospecto, é bastante estranho, tudo bem, mas o que ocorreu comigo foi, nada mais nada menos, do que uma menstruação (muito) fora de época, com TPM e tudo! Coisas que devem acontecer, embora pouca gente testemunhe nas redes esse tipo de fato, já vamos logo matando, empurrando o mais grave dos prognósticos.

O que me leva à segunda parte desta crônica, escrita ao cabo de um mês terrível para a história da humanidade, um abril mais com cara de agosto: queda de um avião conduzida por um piloto louco, ameaça de um mau acordo nuclear com o Irã, conflitos sangrentos no Iêmen, naufrágio de refugiados no Mediterrâneo “com pagamento adiantado”, grave terremoto no Nepal, execução do brasileiro na Indonésia, e, aqui neste lado do planeta, as graves manifestações de negros em Baltimore, repetindo outras semelhantes que ocorreram há bem pouco tempo, sempre envolvendo mortes violentas, policiais brancos e suspeitos negros, e como cereja do bolo a Califórnia dos nossos sonhos se desertificando, só para listar aquilo de que me lembro, haja mente para arquivar tantas dolorosas notícias. Isso, que nem relacionei a crise terrível do meu Brasil, onde a moral em todos os sentidos despencou para o fundo do poço.

Que miséria! O que estaria acontecendo com o mundo? Teríamos finalmente perdido o nosso rumo?

Está certo, a pobreza existe, a dor persiste, boa parte da humanidade, dependendo do carma do lugar em que nasce, passa a vida a padecer, mas, pô, peraí, seria isso que testemunhamos, nas notícias na internet e na TV, tudo o que teríamos para viver? Onde foram parar todas as coisas boas desta vida? A arte, a beleza, o lazer? O amor? Até o hábito de viajar tem sofrido um sério baque, com tanta ameaça a gente custa a se animar, fica difícil uma simples decisão de sair de casa para passear. Não sei, mas me arrisco a afirmar que há em curso uma orquestração para nos tornar deprimidos, uma raça inteira a depender de comprimidos para encontrar alguma graça de viver.

Me entendam bem, não quero fazer pouco de quem sofre de jeito nenhum, quisera eu poder fazer algo além de escrever para mitigar o sofrimento de todo mundo, mas, francamente, eu mesma não ando muito bem das pernas como acabei de confessar, em vez de curtir a posição que conquistei com não pouco penar venho decidindo inconscientemente resumir minha vida a brigar e a me sentir seriamente doente, até desisti recentemente daquela vontade que costumava cultivar, de viver além dos 100 e fazer tudo ao meu alcance para conseguir. Parei. Me entreguei. Só penso na minha morte, minha e do meu companheiro, mal consigo decidir se morrerei primeiro ou se será ele a me abandonar triste e sozinha nesta vida de miséria.

Uma das coisas que mais me incomoda e que me aparece como um dos mais graves sintomas dessa ameaça depressiva à raça humana é a questão do racismo nos Estados Unidos. Tudo bem, este é um país onde já se enforcaram negros em árvores por conta de um simples olhar torto, para nem mencionar a vergonha da prolongada escravidão africana, mas, francamente, na vida real não vejo que seja atualmente um país racista. Pensem bem, até um presidente negro foi escolhido por vasta maioria da população! Que raio de racismo seria esse?

No meu condomínio, que é bem bacana, apesar das minhas reclamações em contrário — tendo vivido tantos anos no meio da mata e dos bichos, de frente para a majestosa Maria Comprida, francamente, fiquei mal acostumada à beleza —, há uma alta percentagem de moradores negros, bem-vestidos, com carrões, provavelmente bons empregos, não vejo sinal de discriminação em lugar nenhum. Na TV são frequentes os depoimentos de advogados negros, bem informados, bem articulados, centenas de Joaquins Barbosas bem-sucedidos na vida. Quanto à pobreza americana, francamente, seria considerada riqueza em muitos países do resto do mundo. A oportunidade existe, ao que parece. O que tem faltado, acredito, é vontade, disposição de lutar — e por lutar quero dizer lutar por si mesmo, pelo próprio crescimento, não jogar garrafas e pedras em policiais e depredar estabelecimentos.

Mesmo que se sintam achacados, atacados e vitimizados, levados a esses sentimentos por determinação imperceptível de alguma agenda sutil, provavelmente patrocinada por grupos mal-intencionados, em busca de mais poder e dinheiro, vamos combinar que os negros americanos são privilegiados, como todos os americanos, aliás, mesmo os que vivem protestando.

Mais do que nunca deve ser valorizado aquele velho ditado: as grandes mudanças começam dentro de cada um. É isso mesmo. Devemos ser fortes, gente.

E um bom domingo procês.

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