O país dos feriados

Poster de Primeiro de Maio: o poder soviético toma conta do mundo, será um sinal?Eu vinha dirigindo pela União Indústria, voltando com o Alan de uma consulta com a dentista (lembrando, tinha quebrado um dente antes dessa série longuíssima dos últimos feriados, e com a nossa dentista fora da cidade, por conta do decreto dos folgados, passado um tempão lidando com a língua na rachadura afiada), quando decidi perguntar:

— Alan, quantos feriados tem por ano nos Estados Unidos?

Hmm, let’s see… Four, I think. Thanksgiving, New Year’s Day, President’s Day, Veteran’s Day. Maybe Christmas.

— Uai, não tem Sexta-Feira Santa?

Ele comenta que os EUA não são um país católico.

— E Primeiro de Maio?

Ah, primeiro de maio é coisa de país comunista. Nos EUA até tem o Labor Day, mas cai na primeira segunda-feira de setembro. Ano que vem coincidirá com o nosso Dia da Independência, será um sinal?

Há outros feriados, é claro, a maioria locais. E ele ainda esqueceu o 4th of July e o Memorial Day, a memória não tá lá essas coisas, mas nenhum deles implica em que não se trabalhe, se folgue geral. E se for pra folgar, grande parte cai sempre numa segunda-feira, isto é, enforcar, nem pensar. A Sexta-Feira Negra, que se segue ao dia de Ação de Graças, e que o Brasil ultimamente tem feito o que pode para adotar (mais uma sexta enforcada), é o dia em que mais se trabalha no ano inteiro, seja para vender, seja para comprar.

Pois é. Nem é que nada disso me afete — a não ser, é claro, pela enxurrada de “turistas” no nosso Hortomercado, que me força a fazer compras fora do rush do feriado —, já que trabalho aos sábados, domingos e dias santos. Às vezes folgo às segundas-feiras, quando o domingo foi muito carregado, mas, vamos combinar, este ano o calendário está pegando pesado.

Esta Semana Santa, por exemplo, emendada com Tiradentes e São Jorge — gente, é muito santo sacrificado numa só sequência de feriados — foi mais comprida do que muitos períodos de férias inteiras nos Estados Unidos, um país onde realmente se trabalha, ah, e onde frequentemente se vê disso os resultados. E com apenas um breve intervalo de sete dias, segue-se outra série de quatro, desta vez pelo primeiro de maio, nem Mao aguenta.

E a Copa também vem aí, nossa mãe. Este ano, tá combinado: ninguém vai trabalhar, nem obrigado.

Tampouco sou contra essa filosofia de um povo descansado, devo confessar. Eu é que preciso cortar um dobrado, aqui em casa se eu não trabalho não tem ninguém pra bancar as contas, sabem como é. Mas que cansa, cansa. Até mesmo a mania de doença deve estar sendo causada pelo estresse, de tanto que cansa. E quero muito mudar.

Trabalhar de sol a sol, chova ou faça sol, sem parar nem pra vadiar e sem nem um minuto disposta a desconectar, faz mesmo muito mal. E tem afetado profunda e negativamente a minha vida, meu casamento, tudo. Arruinou até as belas férias em Paris, não sei se já contei, pois ver-me assim de repente sem nenhum compromisso me deixou num vazio inclemente, um tédio inebriante que nem a generosa oferta de lazer, prazer e cultura do lado de fora do apartamento conseguiu preencher.

Quanto ao Brasil, muita gente ainda não sabe, mas é com certeza o país do futuro, sério mesmo. Esta semana, por exemplo, tal vanguardismo se afirmou, quando inflamados protestos na mídia americana lamentaram a ideia de jerico da comissão instituída pelo governo Obama, que planeja permitir aos provedores de acesso um preço diferenciado pelo uso das “avenidas de informação”. Coitados. Não leram o nosso avançado projeto aprovado, o Marco Civil da Internet, e ficam aí, perdendo tempo com propostas inúteis, retrógradas, na contramão das modernas tendências financeiras.

Não sei se vocês se lembram, mas o próprio Obama já foi bem mais esperto, quando em seu primeiro discurso de posse em janeiro de 2009 plagiou a milagrosa sabedoria brasileira (sem citar o santo, claro), e deu o maior samba: “A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a América”, no original “Starting today, we must pick ourselves up, dust ourselves off, and begin again the work of remaking America”, juro por deus, podem conferir. Fiquei tão espantada escutando o discurso ao vivo que até registrei o feito no meu livro da hora, Luau Americano.

Voltando à coisa dos feriados brasileiros, e mais, da mania de enforcar dias de trabalho, que acaba resultando (para os honestos dentre nós) numa obrigatória e desonrosa pendura, quero lembrar aquele sujeito que predisse que no futuro, com o avanço da tecnologia, todo mundo trabalharia menos, nossa, parece que estava tão horrivelmente equivocado que nem merece que se mencione seu nome, pois no Google não encontrei nada, mas aí é que entra a profunda experiência do Brasil, entenderam? Estamos lá na frente, enquanto atrás da gente o resto da humanidade chafurda no excesso de atividade. E tome de feriadão.

Por outro lado, é bem verdade que nada disso, digo, trabalhar demais ou curtir um excesso de feriados, tem importância nenhuma nestes ávidos tempos arriscados, pois, segundo Alan, e várias outras fontes, Vlado Putin está solidamente empenhado em começar logo de uma vez a Terceira Guerra Mundial, tá ruça a coisa, vejam vocês com o que tenho que conviver… não é à toa que me refugio no excesso de trabalho, pois basta eu me dispor a ter um tempo qualquer para uma conversa amigável e ele tenta me convencer, por amaisbê, que o futuro da humanidade já está traçado. E não é nada dourado.

E aí é que entra outro desses famosos profetas frustrados, confiram só o que encontrei pesquisando para esta crônica na internet, vocês sabem, aproveitando enquanto ainda posso pagar pelo acesso liberado: Guglielmo Marconi, o inventor do rádio, afirmou que “o advento da era sem fio tornará a guerra impossível, porque a tornará ridícula”. Bem que eu gostaria que ele não estivesse errado, já o Alan…

É isso aí. Um bom domingo procês.

 

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