O que nos eleva, o que nos envaidece

Caros, compartilho com vocês a resenha e novo prefácio de sem graus de separação, livro que, como vocês bem sabem, é um work in progress, não só pelo texto, mas pelo amor que ele descreve. E este novo prefácio, perdoem, faz com que eu incorra de vez num dos mais graves pecados capitais, não, não é a luxúria, mas a vaidade, justificada, como vocês verão, pois é de autoria de Ana Cecília Carvalho, o que não é pouca coisa. Enjoy.

 

Resenha de sem graus de separação (de Noga Sklar; Editora KBR, 2012)
Por: Ana Cecília Carvalho*

Termino de ler sem graus de separação, de Noga Sklar (Editora KBR), na versão kindle. É preciso admitir que as palavras “impressionante”, “de tirar o fôlego”, “inquietante”, “espantoso”, “instigante”, entre outras que surgem na minha cabeça para descrever esse livro, não dão a justa medida do que ele é, em termos literários. Chego a pensar que tê-lo lido no formato e-book não é um acontecimento fortuito, mas sim algo necessariamente coerente com o domínio da virtualidade em que essa obra se realiza e se sustenta. Em seguida, tal como acontece sempre que leio algo que me impede de continuar sendo exatamente a pessoa que eu era antes de ler, sinto-me compelida a registrar, na tela do computador, as marcas do efeito de leitura que sem graus de separação causou em mim (mais ou menos como o viajante que, para dar testemunho do nele foi despertado diante da visão de uma grande escultura ou monumento, se vê tentado a escrever ali, ainda que timidamente, o seu nome: “Fulano esteve aqui.”).

O que é esse livro que parece desafiar as classificações tradicionais que em geral usamos para abordar a coisa literária? Algo parece existir nele que nos retira, para sempre, da zona de conforto fornecida pelos gêneros literários que conhecemos. Com o controle seguro da escrita, em sem graus de separação Noga Sklar produziu algo que não é nem romance epistolar nem prosa poética, nem ficção nem diário (embora se aproxime de todos esses), ao mesmo tempo em que escancara, sem pudor, a fonte autobiográfica de que é nutrido. Noga o faz com a mesma coragem e honestidade que caracterizam todos os seus livros de crônicas, tais como Hoje não quero chorar, Santa Molly e Sem essa, aranha. Contudo, em sem graus de separação ela ousa mais, provavelmente certa de que, se pudéssemos classificá-lo, isto não acalmaria o turbilhão que sua escrita gera em seu leitor. Talvez seja o caso de pensar que, em sem graus de separação, Noga Sklar escreveu a versão pós-pós-pós-moderna de Cântico dos Cânticos. Tal como nesse texto ancestral, um dos inaugurais da literatura erótica, a escrita de Noga se conduz ao longo do fio delicado que une a palavra ao erotismo. Alternando as vozes dos dois amantes apaixonados (Noga e Alan) em um diálogo que os aproxima e os enlaça, sem, contudo, os misturar (eles não param de se fundir para, em seguida, continuarem quem são, Alan e Noga, homem e mulher, incessantemente famintos um pelo outro), ela nos mostra como o erotismo e a palavra se fertilizam mutuamente, tornando-se cossubstanciais.

Enganam-se aqueles que pensam na sublimação (terreno no qual se produz a escrita literária e a criação artística) como algo depurado, santificado ou mesmo sagrado, que acontece “fora do corpo”. É preciso ler sem graus de separação para ver que o prazer da palavra compartilha da mesma raiz que o prazer sexual. Cada página, cada linha, cada alusão, cada inflexão do que dizem os amantes Noga e Alan mostram o vigor da palavra ao recuperar o seu legítimo estatuto sexual.

Mas isto não é tudo em sem graus de separação. Nele, Noga e Alan revelam também a natureza essencialmente virtual do amor. Depois de se conhecerem numa “sala de conversa” que se realiza na tela de um computador, aos poucos eles vão “tomando forma” nas palavras que digitam. Puro encantamento, que faz um se apoiar na palavra do outro para dar sentido às próprias fantasias. A partir daí a fantasia, como expressão do desejo, não precisa do teste da realidade para se justificar.

No espaço virtual no qual se constroem os amantes Alan e Noga, a interação entre eles bem pode ser vista como a quintessência do que acontece em qualquer apaixonamento entre dois sujeitos. Mas a beleza de sem graus de separação está na maneira como a autora torna visível a vocação transformadora, sedutora e erotizante, se não erotizada, das palavras. Noga Sklar traz em si uma sabedoria que, nesse livro, ela generosamente compartilha com o leitor: como cânticos, feitas para encantar, as palavras são gestos, toques sutis mas cheios de energia que acendem o corpo dos amantes e os convida a falar mais e, assim, pela palavra, a manterem o fascínio e a atração um pelo outro. Esse fascínio, expressão inequívoca do erotismo, é o que nos faz ler. É também o que nos faz escrever.

 

* Ana Cecília Carvalho é psicanalista e escritora. Autora de A Poética do Suicídio em Sylvia Plath (Editora da UFMG); Livro de Registros (Editora Lê); O Livro Neurótico de Receitas (Editora Ophicina de Arte e Prosa), entre outros.

 

 

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